O Corpo-Seco de Simplício Dias
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
** Com informações de José Gil Barbosa Terceiro – Causos Assustadores do Piauí.
O Coronel Simplício Dias da Silva nasceu na Vila de São João da Parnahyba, em 2 de março de 1773. Era filho do Capitão Domingos Dias da Silva e de Claudina Josepha.
Com a morte do pai, em 17 de dezembro de 1793, herdou uma fortuna considerável, que passou a administrar juntamente com seu meio-irmão Raimundo Dias da Silva.
Faleceu aos cinquenta e seis anos, em 27 de setembro de 1829. Seu corpo foi sepultado no interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça.
E, desde então, seu nome passou a andar rodeado de lendas - seja por ter sido uma figura de grande porte na então vila, seja por ter sido tido como tirano, homem duro, senhor de escravizados que não conhecia a palavra piedade.
O diz-que-me-diz sobre seu pós-morte povoa o imaginário popular há quase duzentos anos.
Esta é apenas mais uma dessas histórias que o povo conta.
Segundo a tradição, corpo-seco é uma alma que não encontra descanso, condenada a vagar por este mundo de meu Deus, sem jamais ter paz nem paradeiro.
E foi assim que, no sétimo dia da morte de Simplício, Isaias, o sacristão, entrou na igreja e sentiu um cheiro forte de enxofre.
Enxofre, vocês sabem, é coisa ruim, né?
Pois é!
Mas o susto de Isaias estava só começando.
Ao aproximar-se do altar, viu o corpo de Simplício, peladinho, deitado em cima da própria lápide.
Deve ter sido uma visão do inferno!
O homem desandou a correr.
Já quase chegando à Lagoa do Bebedouro, lembrou-se de que precisava avisar o padre Quevedo e a família do falecido.
Foi num pé e voltou no outro!
Juntos, religiosos e familiares resolveram que o corpo não deveria permanecer na igreja. Enterrar pessoas dentro dos templos era prática comum, até ser proibida por uma Carta Régia de 14 de janeiro de 1801.
Lugar de morto é no cemitério!
E lá enrolaram o defunto em panos perfumados para disfarçar o mau cheiro e seguiram em direção ao Cemitério da Igualdade.
Mas, pelo visto, nem a terra quis receber o corpo de Simplício.
O céu veio abaixo: chuva, trovões, relâmpagos e uma ventania dos diabos.
- Vambora, padre! Isso é o Coronel nos amaldiçoando! - gritou Isaias.
- Homem de pouca fé! - retrucou o padre Quevedo.
Quando todos recuperaram a coragem, uma árvore foi cortada ao meio por um raio, ouviram-se gritos assombrosos, choros...
E, quando o temor passou, Joca e Roberto, os coveiros, já estavam léguas de distância.
O medo era grande!
Mas o pior ainda estava por vir.
Ao se recomporem, viram o corpo de Simplício de pé, como quem não estava morto, passeando calmamente pelo cemitério.
Aí já é demais!
Largaram tudo e correram de volta à Praça da Graça.
Na correria, padre Quevedo olhou para trás e não viu mais Isaias.
O sacristão havia pegado o rumo da Coroa, louco para beber cachaça e se misturar às raparigas, só para tentar esquecer aquele pesadelo.
Mais que certo!
Uma coisa boa, porém, resultou daquilo: a alma do cavalo El Ramanaian, que também estava enterrada na Igreja e assombrava os moradores, deixou temporariamente de amedrontar a Vila.
Benza, Deus!
Pensa que acabou?
Que nada!
Diz a tradição que, nas noites de lua cheia, Simplício e seu cavalo apareciam pela vila, soltando gritos e gargalhadas que gelavam o sangue.
Dona Chicória, a beata mais velha e fofoqueira da vila, garantia que era vingança do coronel - vingança por falta de orações em seu leito de morte e por terem desejado sua partida.
A notícia se espalhou pelo Piauí inteiro.
Ninguém ousava aproximar-se da vila sem estar preparado: crucifixo no peito, água benta e até uma estaca para cravar no peito do fantasma.
Estaca?
Mas era alma penada, não vampiro!
Mas nessas horas, qualquer mandinga vale!
Havia também quem se dizia destemido, capaz de capturar o defunto caso aparecesse lá pras bandas da Pedral.
E não é que ele apareceu!
Pescador é gente destemida.
Enfrentam mar, tempestade e tubarão.
Seriam capazes de temer um defunto?
Fizeram o que sabem fazer melhor.
Enlaçaram-no com a tarrafa, colocaram-no num caixão pesado e jogaram nas águas profundas do Atlântico.
- Quero ver voltar agora! - gritou Zé Caninana.
A alegria durou pouco.
Ao voltarem à praia, lá estava ele de novo, vagando pela areia.
Se nem o mar o aceitou, talvez o fogo resolvesse.
Enlaçaram-no outra vez e jogaram-no dentro de uma grande fogueira.
Sentaram-se, beberam e esperaram.
Mas foi em vão.
Queimou tudo, menos o corpo.
Meu Deus, que aperreio!
Ninguém mais sabia o que fazer.
Até que Zequinha teve uma ideia:
- Vamos levá-lo para uma mata bem longe daqui e amarrá-lo no alto de uma árvore!
- Se nem o mar nem o fogo funcionaram, imagina isso! - rebateu Zé Caninana.
Enfim...
Levaram o corpo para um lugar distante, escolheram uma árvore alta e o amarraram com nós de marinheiro, difíceis de desatar.
O tempo passou e ninguém mais ouviu falar de aparições.
Um dia, depois de umas rodadas de cachaça, resolveram voltar ao local para conferir.
Ao chegarem, outro susto: a árvore, misteriosamente, havia sido consumida inteira pelo fogo.
Daquele dia em diante, o lugar ficou amaldiçoado.
De vez em quando, algum pescador jura de pé junto que o corpo-seco de Simplício voltou a aparecer.
Mas isso, com certeza, não passa de história de pescador.
Quem acreditaria em semelhante coisa?
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