Cassino 24 de Janeiro: entre luxo e tamboretes
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
** Com informações do livro "Estórias de uma cidade muito amada", de Carlos Araken.
Em Parnaíba, houve um tempo de opulência financeira: tinha cera de carnaúba, charqueadas, o Porto Salgado - um entreposto de importação e exportação - e, principalmente, gente que fazia questão de mostrar que tinha dinheiro.
Era a tal Belle Époque parnaibana.
A cidade crescia a olhos vistos. Os comerciantes ficavam, ano após ano, mais ricos; chegavam produtos da Europa, construíam-se palacetes e prosperavam pessoas que faziam questão de deixar bem claro que pertenciam a uma classe diferente: a elite.
Foi nesse ambiente que surgiu o Cassino 24 de Janeiro, idealizado pelo oeirense Celso Augusto de Moura Nunes, proprietário da empresa Celso Nunes, concessionária Chevrolet, juntamente com Acrísio de Paiva Furtado e José Cristiano Carneiro.
O nome foi uma homenagem à proclamação da adesão à Independência em Oeiras, nossa primeira capital, em 24 de janeiro de 1823.
Há quem diga que foi uma provocação. Afinal, foi em Parnaíba que ocorreu o primeiro ato de independência no Piauí, em 19 de outubro de 1822, idealizado pelo nosso querido Simplição.
Vai saber!
A primeira sede funcionou na Travessa da Glória, hoje Rua Monsenhor Joaquim Lopes.
Depois, o clube foi para a Avenida Presidente Vargas, na esquina com a Rua Alcenor Candeira - onde funcionou, por muitos anos, a sede da Telepisa.
Mas o Cassino não era clube para qualquer um.
Longe disso.
Era reservado aos “barões” de Parnaíba, que podiam usufruir de festas, salas de jogos e até de um espaço destinado ao carteado - vício que levou alguns frequentadores à beira da falência.
Mas o grande espetáculo não estava apenas dentro do Cassino.
Estava também do lado de fora.
Enquanto uns estavam no salão, dançando, bebendo e jogando conversa fora, outros ficavam na calçada, em cima de caixotes e tamboretes, tentando, de alguma forma, participar do lazer reservado a poucos.
Eram os lisos. A turma do sereno.
Assim como nas marcações de consultas do extinto INAMPS, no sereno também era preciso garantir seu lugarzinho ao céu. Quem chegava primeiro tratava logo de marcar território: acorrentava o tamborete à sacada ou deixava alguém tomando conta da vaga.
Se no Cine Teatro Éden existiam camarotes, por que a turma do sereno não poderia ter o seu também?
Ao escrever isso, lembrei que eu também, de certa forma, participei de algo parecido com a turma do sereno.
Só que, no meu caso, era a turma do sol.
Escalávamos um poste ao lado do Estádio Petrônio Portela para assistir aos jogos do Parnahyba.
Tempos difíceis!
O Cassino era o clube dos ricos, mas nem sempre o dinheiro abria portas.
Era preciso prestígio.
Muitos jovens de famílias abastadas - que não faziam parte do círculo fechado do clube - acabavam se sujeitando a ficar no sereno.
Dinheiro ajudava, claro.
Mas era preciso sobrenome, círculo de amizades e, principalmente, conhecer as pessoas certas.
Dentro do Cassino, a etiqueta fazia parte do espetáculo.
A orquestra tocava, os pares dançavam e até conversar tinha regra.
Um rapaz não deveria passar várias músicas conversando com a mesma moça.
Se repetisse demais, alguém poderia concluir que aquilo já era namoro.
Naqueles tempos, isso poderia ser um problema!
As orquestras também não brincavam em serviço.
Paletó e gravata eram obrigatórios.
Quando uma música terminava, vinha o aplauso.
Se o público gostasse muito, vinha o “bis”.
Tudo muito elegante.
Tudo muito civilizado.
Tudo muito organizado.
Do lado de fora continuava a turma do sereno, olhando pelas janelas e tentando acompanhar o que acontecia no luxuoso salão.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das partes mais interessantes dessa história.
O Cassino representava uma Parnaíba que queria ser moderna, europeia, refinada e civilizada.
Mas bastava olhar pela janela para perceber que a cidade era bem maior do que aquele salão.
Tinha gente dançando lá dentro e gente assistindo do lado de fora.
E as duas turmas faziam parte da mesma cidade.
Mas a vida é feita de ciclos. Tudo tem começo, meio e fim.
O fim do Cassino veio em abril de 1946, no mesmo período em que chegava ao fim a Belle Époque parnaibana.
E não foi coincidência.
O Cassino nasceu junto com a prosperidade e foi declinando à medida que também diminuíam a riqueza e a opulência de grande parte da elite de Parnaíba.
O prédio foi demolido em 1970.
Ficaram as fotografias, os relatos dos memorialistas e, principalmente, as lembranças de quem viveu aquela época.
Mas a elite não poderia ficar sem um clube para chamar de seu.
Em 1953, foi inaugurado o Igara Clube que, entre altos e baixos, sobreviveu e continua em pé até hoje - não mais como um clube.
Mas isso é outra história.


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