A Estrada do Tabuleiro

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Entre 1977 e 1981, minha vida - e a de vários amigos das proximidades do bairro Nova Parnaíba - esteve diretamente ligada à estrada de acesso ao Tabuleiro. De casa até o bairro propriamente dito levávamos cerca de vinte minutos de caminhada, seguindo reto e sem parar. Só que esse percurso nunca era feito "intiriço", como diz o caboclo.

A primeira parada era sempre na ponte do Adolfo Quirino. Ali, naquele braço d'água, demorávamos alguns minutos matando o calor e dando várias bundas-canastras de cima da ponte. Sim, naquela época o canal, apesar de já apresentar sinais de poluição, ainda tinha água suficiente para banho, pesca e navegação de pequenas embarcações. Não era assoreado como nos dias atuais.

Depois do banho, seguíamos pelo areal até chegarmos ao campo de futebol da comunidade do Tabuleiro, à fazenda do Raimundinho e ao sítio do meu saudoso tio Zé. Era por lá que começavam quase todas as nossas pescarias e caçadas. Às vezes, porém, íamos apenas para sentar na varanda da fazenda ou fazer longas caminhadas pelo entorno da propriedade.

O terreno era tão grande que, por mais que caminhássemos, parecia não ter fim. Havia muitas carnaúbas, muito barro - que usávamos para fabricar batoques para nossas baladeiras feitas com câmara de ar de avião -, alguns cajueiros e outras frutas típicas da região. Na época certa, passávamos horas em cima dos cajueiros, saboreando os cajus sempre doces, e também das mangueiras, cujas mangas fazíamos questão de comer ainda verdes, acompanhadas de sal.

Quando o objetivo era apenas pescar, seguíamos por uma trilha ao lado do sítio do tio Zé, que levava até uma das curvas do Canal de São José, no rio Igaraçu. Ali ficava um dos melhores pontos de pesca que conhecíamos. O bagre era o peixe que mais aparecia nas linhas, mas, usando a isca certa, também conseguíamos pegar surubim e outros peixes típicos da região. Tanto o bagre quanto o surubim rendiam excelentes bolinhos, preparados por uma moça que ajudava minha mãe na cozinha. Infelizmente, não consigo mais lembrar o nome dela.

Daquela curva do rio eu ficava imaginando todo o percurso que aquelas águas faziam até encontrar o rio Parnaíba. Muitas vezes segui caminhando pela margem para tentar enxergar mais adiante, mas logo desistia. Tínhamos um conhecido que possuía uma canoa, usada nas suas pescarias. Sonhávamos que ele nos levasse para um passeio pelo rio, mas quase sempre estava pescando ou simplesmente não tinha disposição.

Emprestar a canoa, então, nem pensar.

- Só se eu fosse louco! - dizia ele.

- Quer quanto? - perguntou Martins certa vez.

- E de onde vocês vão roubar dinheiro? - respondia ele, sorrindo.

Enfim.

Sem canoa e sem dinheiro para alugar uma, acabei conhecendo todo aquele percurso décadas depois, com a ajuda da tecnologia. Ainda guardo comigo o desejo de fazer um passeio de lancha, saindo do Porto das Barcas e percorrendo todo o rio até encontrar o Parnaíba.

Um dia, quem sabe.

As caçadas sempre eram mais tranquilas do que as pescarias. A baladeira vivia pendurada no pescoço, e a munição podia ser feita com batoques, pedrinhas ou mesmo com os frutos secos que caíam das carnaubeiras e ficavam espalhados pelo caminho.

Atirávamos em tudo o que se mexia, dos calangos aos bem-te-vis, embora o alvo preferido fossem sempre as rolinhas, que, depois de sapecadas, ficavam deliciosas.

A caçada era praticamente ininterrupta. Caçávamos desde a saída, logo depois da ponte; continuávamos pelas terras do Raimundinho e só encerrávamos quando retornávamos novamente à ponte.

Depois que voltei a morar em Parnaíba, ainda repeti algumas dessas caminhadas. Fazia questão de percorrer o mesmo caminho para perceber o quanto tudo havia mudado. O braço do rio onde tomávamos banho desapareceu, vencido pelo assoreamento.

Quanto à caça, simplesmente desapeguei. Hoje não sinto a menor vontade de matar um pássaro. Aquilo pertencia apenas ao tempo de molecagem. Pescar, não. Ainda gosto, embora atualmente prefira pescar no mar.

Por mais que tentemos reviver as aventuras da infância, percebemos que isso já não é possível. A paisagem mudou, os caminhos mudaram, as pessoas mudaram, nós mudamos e - por causa da violência - até a liberdade de caminhar olhando para o tempo ficou no passado.

Restaram as lembranças: o banho de rio, a manga verde com sal e aquela estrada que, hoje pavimentada, apesar de levar ao mesmo bairro do Tabuleiro, já não leva mais ao mesmo lugar. Porque o que mudou não foi a estrada. Fomos nós.

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