Simplício Dias, Anselmo e a Música

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🏠 Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

** Com informações do livro “O ESCRAVO E O SENHOR DA PARNAHIBA”, de Enéas Barros.

Esta crônica mistura história, memória, tradição oral e o velho “diz-que-me-diz”. Há também anacronismos fictícios e situações inventadas como recurso literário. Algumas passagens vêm de documentos e relatos; outras, da imaginação ou de histórias que chegaram até nós em diferentes versões. Portanto, o leitor encontrará aqui uma mistura de História e ficção, sem a pretensão de apresentar tudo como fato comprovado.

Simplício Dias da Silva herdou grande fortuna com a morte do pai, Domingos Dias da Silva, em 17 de dezembro de 1793. E junto com as terras, as charqueadas e o gado, herdou também centenas de escravizados. O número exato não se sabe ao certo, mas estima-se que estivesse entre mil trezentos e mil e oitocentos.

Naquela época, os escravizados não eram apenas mão de obra. Eram também mercadoria, produto que se podia vender, comprar ou trocar, como se fazia com gado, terras ou qualquer outro bem. E Simplício, apesar de já possuir tantos, gostava sempre de comprar mais.

No período dessa história, Simplício encontrava-se em São Luís, no Maranhão, cuidando dos seus negócios de exportação de charques, das compras de escravizados e organizando os preparativos para o seu casamento com Maria Isabel Thomázia de Seixas.

Tomaz, seu capataz, foi designado para selecionar dez novos escravizados para a lida nas fazendas. Mas Simplício ficou sabendo que no navio negreiro que trazia escravizados da África, havia um jovem de nome Tuca, que possuía um dom natural que Simplício admirava: a música.

Em vez de dez, comprou onze!

Mas Tuca - que depois seria rebatizado como Anselmo - não era um jovem qualquer. Além de talento para a música e de sua postura elegante, trazia consigo um Kakoxi, um instrumento musical rudimentar com alguma semelhança com um violino.

No dia de seu casamento, em 1º de maio de 1796, em São Luís, na freguesia de Nossa Senhora da Vitória, no oratório pertencente à fazendeira Dona Anna Maria de Assunção Vieira, Simplício teria ficado impressionado com uma orquestra de violinos e, a partir daquele momento, decidiu que iria ter sua própria orquestra, com a colaboração do novo escravizado Anselmo.

Anselmo - com ajuda de Rosinha, filha de Narciso e da lavadeira da Casa Grande - então selecionou onze escravizados das fazendas de Simplício e os introduziu no mundo da música.

Desse convívio com Rosinha, surgiu um caso de amor entre os dois!

Anselmo e Rosinha já estavam secretamente fazendo planos para o casamento, mas tiveram que adiar, pois Simplício resolveu enviar o grupo para continuar seus estudos de música no Rio de Janeiro e em Portugal.

Simplício era um mecenas!

Um ano depois, o grupo retorna trazendo na bagagem um vasto conhecimento musical.

A saudade de Rosinha era grande e Anselmo estranhou que a amada não tivesse vindo recepcioná-lo depois de tanto tempo.

Anselmo estremeceu ao descobrir o motivo. Rosinha havia sido violentada e engravidou, dando à luz uma menina de pele branca, filha de Raimundo Dias da Silva, meio-irmão de Simplício.

Ficou possesso!

Mas nada podia fazer e, pouco tempo depois, Raimundo foi assassinado - exatamente por se envolver com uma jovem de família distinta e não assumir suas responsabilidades.

Já contei esse causo!

Sigamos!

Simplício era gaboso!

Resolveu então ostentar aos amigos o investimento realizado no seu grupo musical e convidou um casal de amigos para jantar e assistir a uma apresentação na Casa Grande.

Mas quase dava ruim!

Anselmo aprontou tudo e foi dar um mergulho nas águas sujas e barrentas do Igaraçu. Quando retornou, não encontrou mais seu instrumento, aquele violino rudimentar que trouxera da África.

Deusulivre decepcionar o Coronel Simplício Dias da Silva e seus convidados!

Não teve outra solução a não ser relatar o caso ao seu senhor.

Mas Simplício estava de boa, com um sorriso de um canto ao outro da boca e muito orgulhoso de si próprio e do seu grupo.

- Se avexe não. Você pode usar o meu Stradivarius, que arrematei num leilão na última viagem à Europa!

Anselmo respirou aliviado. Além de não levar um cagaço, ainda poderia se apresentar e mostrar seu talento utilizando um instrumento realmente profissional.

E mais. Rosinha - sua amada que ele já havia perdoado - fez de tudo para estar à frente dos serviçais da recepção e assim estaria lá para a apresentação.

Anselmo era só felicidade!

A apresentação foi um sucesso estrondoso, tanto que a orquestra passou a se apresentar em várias residências da elite da Vila de São João da Parnaíba.

O Casarão de Dona Auta passou com frequência a receber as apresentações, em noites glamorosas, cheias de brilho, elegância e opulência.

Festa de rico é outro nível!

As madames dos cabarés dos Tucuns ficaram com inveja e sonhando por uma apresentação daquele nível em seus estabelecimentos.

Vão sonhando!

Sabe a filha de Rosinha com o saudoso Raimundão? Foi morar na fazenda da Barra do Longá com Carolina Thomázia, filha de Simplício. Até então, Maria não sabia que Rosinha era sua mãe. A história inventada era que sua mãe teria falecido e seu pai morto numa batalha.

Essa mentira traria desdobramentos cruéis, pois Maria acabou se afeiçoando a Bernardo, filho de Rosinha e Anselmo e, portanto, seu meio-irmão!

Eram muitos meios-irmãos naquela época!

Eu hein!

Foi Carolina Thomázia que resolveu contar toda a verdade.

Pronto, tudo esclarecido!

Décadas mais tarde essa história se voltaria contra a própria Carolina Thomázia, que foi assassinada com um tiro de bacamarte, supostamente, por Aleixo, filho de Bernardo e neto de Anselmo.

Aleixo foi condenado e morreu na forca, na Praça da Graça, em 14 de abril de 1851!

já contei esse causo também!

Sigamos!

Anselmo era uma tristeza só.

Nas noites de lua cheia, saía pelas ruas da Vila tocando seu violino.

Ficou desiludido com tudo, inclusive com a música.

Presenteou Dona Auta com seu Stradivarius!

E isolou-se na casa onde morava, à beira do Igaraçu, até morrer de velhice!

Mas Anselmo e Simplício deixaram um legado gigantesco para as próximas gerações: a Banda Municipal Simplício Dias da Silva - a furiosa -, orgulho de todos os parnaibanos.



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