O circo chegou a Parnaíba
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Corria o ano de 1975, quando um carro com três palhaços passou pela Avenida Álvaro Mendes, pertinho de casa, no bairro Nova Parnaíba. O velho carro parecia uma mistura de modelos: a frente era de um Brasília e a traseira, de uma picape. A cada acelerada, o motor papocava.
Pow, pow, pow!
Parecia até os foguetórios do Palma de Gato nas festas de aniversário do Mão Santa!
Além do barulho, o carro ainda era uma verdadeira caieira. Era fumaça para todo lado.
Um pouco mais atrás, vinha o restante da caravana.
Uma D-20 puxava uma jaula com dois leões. Tão maltratados que não tinham coragem nem de rugir.
Seguindo a caravana, era a vez de aparecer um elefante se cagando todo.
A avenida ficou imprestável!
Um carro esportivo vinha logo atrás, anunciando:
O circo chegara!
Os culumins que não estavam na escola saíram para a calçada e, em pouco tempo, a rua estava apinhada de gente.
O local escolhido para armar a lona ficava por detrás de casa, num terreno baldio ao lado da casa do meu tio Zé. Hoje, no local, foi construído um casarão.
A lona ainda nem estava armada, mas todos nós já estávamos arquitetando como conseguir dinheiro para assistir.
Se tudo desse errado, ainda tentaríamos varar por baixo da lona.
Ficar sem assistir ao espetáculo estava fora de cogitação!
Enquanto os funcionários montavam toda a estrutura, o adestrador andava para cima e para baixo com o elefante, fazendo propaganda para a grande inauguração.
Numa dessas vezes, parou em frente à antiga Merenda do Índio, hoje Café no Ponto.
Eu não vi, pois pouco andava para aquelas bandas, mas meu pai, todo santo dia, se deslocava para entregar mercadorias, e foi ele quem me contou a novidade.
Depois de pronto, na fachada principal estava escrito:
Gran Bartholo Circus
Cada um de nós, os culumins, tinha uma estratégia para conseguir dinheiro. No meu caso, toda tarde eu me encarregava de comprar os pães. Apesar de o dinheiro ser contadinho, sempre sobravam alguns tostões, que eu ia juntando no meu cofrinho da Caixa Econômica Federal.
De grão em grão...
Apesar de os espetáculos serem sempre a mesma coisa, ninguém se contentava em ir apenas uma vez.
Não havia dinheiro para tanto!
Era hora de varar por baixo da lona e rezar para não levar uma ripada!
Uma bela noite, ao vararmos a lona, demos de cara com a jaula dos leões.
Pense numa carreira grande!
Mas os pobres dos animais eram uma moleza só.
Eu pensei que fosse fome!
Só depois fiquei sabendo que eram dopados.
Mal tinham força para rugir!
Correr atrás do adestrador? Nem pensar!
As minhas atrações preferidas eram os palhaços e uma mulher que se transformava em gorila.
E eu acreditava!
Culumim era bicho abestado!
Apesar do perigo e do desconforto - já que as arquibancadas balançavam quando as pessoas começavam a subir - nossa turma gostava de ficar na fileira mais alta.
Uma queda daquela altura era risco de vida!
Deusulivre!
As temporadas dos circos nos bairros de Parnaíba duravam pouco. Assim que o público perdia o interesse, mudavam-se para outro local.
Naqueles tempos, locais apropriados para armar um circo era o que não faltava.
Já nas últimas noites, nem precisávamos mais pagar ou varar a lona. Com o público já desinteressado, assim que começava o espetáculo, a entrada era liberada.
E assim, tão rápido quanto chegavam, eles partiam.
E a hora da partida era um tormento. Todos tinham medo de alguém da família resolver fugir com a caravana.
Pior que o risco era real!
Uma menina lá dos Tucuns fugiu com o circo ao se apaixonar pelo trapezista!
Anos depois, ao passar por Parnaíba novamente, a menina já era moça e mãe.
Assim é a vida!
Hoje, quando lembro daqueles tempos, vejo que a gente não precisava de quase nada para ser feliz. Bastava o circo chegar e ter coragem para varar a lona.


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