O Pé de Pano das Gerais
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Esta é uma obra de ficção. Embora dialogue com acontecimentos e personagens que possam parecer familiares, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
Parnaíba é uma terra de gente acolhedora, isso ninguém pode negar e Sandoval pôde confirmar.
Sandoval nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Seu pai, Carlito, e sua mãe, Santinha, mantêm um pequeno laticínio na cidade de Patos de Minas. Não são ricos, mas não passam necessidades e conseguiram dar oportunidade para os filhos se formarem. Sandoval era a ovelha negra da família, só sabia mesmo era mexer com mulher casada e beber cachaça.
Preocupado com o futuro do filho, Carlito convenceu o seu irmão Almir - dono de uma empresa de representação - a dar uma oportunidade de trabalho ao filho.
Houve resistência de ambos os lados.
Sandoval, quando soube que viajaria por todo o Brasil à custa da empresa, gostou da ideia e prometeu se regenerar e não prejudicar a imagem da família.
- Vou fazer um teste, Sandoval. Você irá nos representar no Norte do Piauí - disse Almir.
Sandoval aceitou, logo após procurar na internet e descobrir um paraíso encravado no litoral piauiense.
- Com certeza tem muitas mulheres casadas - pensou.
A viagem no carro da empresa durou uma eternidade.
- Lugar longe dos diabos.
Depois de quase três dias, Sandoval chegou a Parnaíba e foi se hospedar no Hotel Carneiro. Por uma semana não pegou no material da firma, estava mais preocupado em se enturmar, beber cachaça e - lógico - conhecer mulheres casadas.
Queria matá-lo, era só ir ao Comilão, na Beira Rio. Foi lá, inclusive, que conheceu Iracema, mulher de um velho e rico fazendeiro. Tinha uns 45 anos. Bem mais que os 23 de Sandoval. Iracema não era essa Coca-Cola toda, mas era casada, isso já era suficiente.
Poucos encontros foram suficientes para Iracema se apaixonar loucamente.
Em pouco tempo, a Parnaíba toda já sabia da traição de Iracema, menos o velho fazendeiro que estava mais preocupado com suas cabeças de gado e com umas menininhas novas lá das Caraúbas.
“Chumbo trocado não dói”, diz o ditado.
Os cochichos começaram a incomodar Sandoval. Nesses momentos, ele resolvia fazer o que veio fazer no Piauí: trabalhar. Começou a viajar mais pelo interior, dar um tempo e esperar que as fofoqueiras se esquecessem do caso.
Sonha.
Apesar de preguiçoso, Sandoval tinha o dom para venda. Falava fácil, sorridente e - já conhecedor dos produtos - vendia com facilidade, principalmente em lojas em que a compradora era uma mulher.
Demorava nada e Sandoval voltava a Parnaíba. Nasceu numa terra sem mar e ficou apaixonado pela Pedra do Sal. Bebeu e fumou muita maconha com uns malucos que conheceu e já falava em morar na Pedral.
Pensou em virar surfista.
Não levava jeito.
Entre uma ida e outra ao interior do Piauí Sandoval fazia clientes e amantes em Parnaíba.
Iracema já não se importava de dividi-lo com outras, tinha consciência que não conseguiria ter um jovem e ainda bonitão só para ela.
Foi numa dessas visitas a clientes de Parnaíba que Sandoval colocou os olhos em Sofia, esposa de Paulo, um comerciante de família afamada do estado de Pernambuco.
Foi amor à primeira vista para Sofia. Enquanto o marido olhava o catálogo a mulher examinava o vendedor.
- pena não estar à venda - pensava.
As visitas à loja se tornaram frequentes. Sandoval sempre arrumava uma desculpa.
Às vezes, parava com a desculpa de beber água.
- Calor dos diabos hoje.
Outras vezes, passava para tomar um café.
Enquanto segurava a xícara olhava para as belas pernas de Sofia, que, desde a primeira visita à loja, começou a se vestir melhor, parecia que ia a uma festa.
Paulo percebeu a mudança.
Enfim.
A traição de Sofia era apenas uma questão de tempo. As trocas de olhares apontavam para isso.
Mas foi só no carnaval de 2001 que a traição se concretizou. Paulo odiava, mas Sofia não perdia um único dia. Entre festas, blocos de sujo e desfile das escolas de samba, Sofia era figurinha carimbada. Foi exatamente numa dessas festas no Igara Clube que tudo começou.
Tudo era feito com extremo cuidado. Diferente do velho fazendeiro de Iracema, Paulo era muito ciumento e tinha fama de valente.
O tempo foi passando e o caso foi ficando mais sério e difícil de manter em sigilo.
Quem primeiro desconfiou foi Afonso, um dos seus amigos maconheiros da Pedral:
- Te liga aí, maluco. Aquele Mané do marido dela não é flor que se cheire. Aqui chifre cheira a morte. Tu tá pisando no rabo da morte.
- Não bate com a língua nos dentes - disse o assombrado Sandoval.
- Só...
Paulo já desconfiava que Sofia estivesse lhe metendo chifres, só não tinha certeza quem era o Pé de Pano. A esposa estava sempre distante e arredia aos seus carinhos.
Paulo então inventou uma viagem de final de semana para visitar familiares em sua terra natal.
Só migué.
Sofia ficou mais feliz do que pinto em monturo.
- Dois dias só pra mim e Sandoval.
Tratou logo de combinar tudo com o amante. Ligaria quando o marido pegasse a estrada.
Assim fez.
Sandoval era moleque novo, mas não era menino. Combinou com Afonso para lhe dar cobertura.
- Só...
A noite de amor e estripulias seria na casa de Sofia.
Mandou a filha para casa da irmã alcoviteira.
Sandoval chega e Afonso ficou escondido no início da rua que dá acesso ao condomínio.
- Se o corno chegar tem que ser por aqui – pensou.
Paulo ficou num bar bebendo e tomando coragem até altas horas.
Lá pelas três da manhã, o casal já tinha feito tudo quanto é posição, já estavam repetindo a série. Foi então que o celular de Sandoval toca. Era Afonso:
- Só... Deu ruim, maluco, o corno tá chegando. Vaza logo!
- Armadilha - gritou Afonso!
A correria foi grande. Sandoval procurava as calças enquanto Sofia foi jogar uma água no corpo e se limpar da meleca.
Sandoval varou a janela e deu um salto tão desesperado que passou por cima da cerca elétrica e caiu no quintal de Maurício, vizinho de Paulo. Sofia arrumou tudo.
Não havia pistas, pois o carro ficou com o Afonso.
Paulo adentrou na casa pisando em ovo, parecia um ninja - só que nesse caso, um ninja chifrudo.
Tudo calmo.
Silêncio total.
Engatilhou a pistola Parabellum - presente de um tataravô que lutou com Lampião - e sorrateiramente entrou no quarto.
Nada. Apenas Sofia ainda sem roupa e fingindo dormir.
- Será que me enganei? - pensou Paulo.
Desceu e foi dar uma varredura na casa e no quintal.
Nada. Nem vestígio de um Pé de Pano.
Sem marcas de pneus.
- Se alguém esteve aqui veio andando - resmungou.
Voltou para o quarto e Sofia estava na mesma posição. Não perdeu tempo.
Foram juras e juras de amor até raiar o dia.
Enquanto isso, Afonso ajudava Sandoval a varar a cerca elétrica do Mauricio.
Com a experiência de ladrão de galinha de Afonso, acostumado a pular muro eletrificado, Sandoval finalmente se viu livre.
Muita sorte. Ninguém da casa de Maurício acordou. Só muitos meses depois seu filho descobriu imagens das câmeras mostrando o Pé de Pano levando alguns choques, mas escapando.
Pelo local da queda de Sandoval, Maurício desconfiou que o cabra havia pulado da janela do segundo andar da casa de Paulo. Achou melhor não se meter.
Almir - não se sabe como - ficou sabendo das estripulias do sobrinho. Com medo de uma tragédia e de respingar na firma, ordenou que Sandoval retornasse com urgência. Sandoval ainda pensou em dialogar, mas andava no carro da firma e D. Santinha baixou ao hospital quando soube do risco que o filho corria na Parnaíba.
Até hoje, Sandoval acredita que foi Afonso que fez a ligação. Perguntou a ele antes de partir. Afonso preferiu ficar calado:
- Só...
No dia da fuga, Sandoval ficou até às 18 horas na Pedral e fez de tudo para Afonso viajar com ele para BH:
- Tu é doido, maluco. Lá não tem ondas, como eu vou surfar?
- Só...
Na calada da noite, Sandoval partiu. Mais três dias de viagem, isso se ele não encontrar alguma mulher casada dando sopa pelo caminho.
Iracema chorou dias e noites.
Sofia - dizem as más línguas - não suportou e teria ido visitar Sandoval em BH.
Mas já era tarde.


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