Saturnino: O Rei da Caramuru

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Esta é uma obra de ficção. Alguns personagens, locais e acontecimentos mencionados têm inspiração na realidade, e certos nomes reais aparecem apenas como referência histórica. A trama, porém, é fruto da imaginação do autor.

Corria o ano de 1999 quando chegou à "Metrópole das Províncias do Norte" Saturnino Xavier da Silva, vindo diretamente da cidade de Fortaleza, no vizinho estado do Ceará. Dois meses antes, Saturnino enviara às rádios de Parnaíba reclames anunciando o grande empreendimento que inauguraria em Parnaíba.

Havia uma enorme expectativa entre os jovens da cidade para a seleção dos futuros funcionários. Muitos já estavam de posse de todos os documentos e do currículo, que deveriam ser entregues em um grande hotel da cidade. Após a análise da diretoria, seriam marcadas as entrevistas.

Nino - como gostava de ser chamado - chegou fazendo barulho. Contratou motos e carros de som para anunciar que, em breve, aconteceria a grande inauguração.

Não deixou barato. Hospedou-se numa luxuosa pousada na Praia do Coqueiro. Era provisório, pois já tinha em mãos minutas de contratos para o aluguel de um prédio comercial e de uma casa onde moraria com Soraya, sua esposa. Seu plano era, no futuro, comprar um imóvel próprio, de preferência no Coqueiro.

Com a mesma velocidade com que chegou, Nino fez amizades. Era simpático, amigável e conversador. Frequentava a vida noturna de Parnaíba, jantava nos melhores restaurantes da Avenida São Sebastião, participava de eventos beneficentes e fazia questão de cumprimentar todo mundo. Parecia candidato em véspera de eleição, querendo engabelar eleitores.

A recepção foi calorosa.

Com o passar do tempo, Nino finalmente anunciou a data da inauguração do seu primeiro empreendimento comercial em solo parnaibano. Queria instalar a loja no centro da cidade, mas, como ele mesmo dizia, o centro era uma região morta e os aluguéis estavam pela hora da morte. Acabou escolhendo a Rua Caramuru, onde o comércio era pujante e havia um frenesi constante de pessoas. Era exatamente o que precisava.

Nino era um empresário de tino aguçado. Promoveu uma grande festa de inauguração para o povão - seus futuros clientes - e outra destinada à High Society parnaibana: comerciantes, gerentes de bancos, Capitão dos Portos, Presidente da Câmara Legislativa, membros da gestão municipal e outras autoridades políticas e eclesiásticas.

A noite de inauguração foi do papoco. Três artistas locais se revezaram na animação dos convidados. Whisky 12 anos fazia lama; havia canapés, camarões de Tutóia, lagostas de Fortaleza e uma infinidade de produtos importados.

Comida de rico. Daquelas que, se pobre provar, passa até mal.

Na semana seguinte, Nino reuniu-se com seus novos parceiros de negócios: Amorim e Souza, gerentes, respectivamente, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica. Ao fim desse encontro de negócios, Nino saiu com contas especiais, cartões de crédito internacionais sem limite e uma vultosa linha de crédito.

A Nino Shopping vendia de tudo um pouco: eletrodomésticos, celulares, brinquedos, utensílios domésticos e eletroeletrônicos. As promoções anunciadas no rádio arrastavam multidões. Tinha dia em que a fila dobrava o quarteirão, e havia quem jurasse que nunca vira tanto dinheiro entrar num comércio em tão pouco tempo. O movimento era tão grande que, ao final de cada expediente, um carro-forte precisava recolher a arrecadação.

Da noite para o dia, Nino transformou-se numa celebridade. Na residência do casal, uma mansão no Reis Veloso, as festas reuniam a nata da elite empresarial. Assim como recebia bem em casa, também era convidado para happy hours nas mansões dos empresários na Praia do Coqueiro.

Nino e Soraya - eram mortos e vivos nas páginas do jornal de Waltinho Lessa, que, para não perder o costume, chamava Nino de tio e Soraya de tia.

Com apenas seis meses em Parnaíba, Nino ampliou os investimentos e firmou sociedade com um grande empresário de São Luís para construir uma pousada na Barra Grande. O sócio - apesar de maranhense - morava em Orlando, nos Estados Unidos. Nino ficou encarregado de administrar a obra e a pequena fortuna enviada pelo parceiro.

Nino vivia na crista da onda em Parnaíba.

A fim de reconhecer os méritos empresariais e a geração de empregos em Parnaíba, Walmir, presidente da Câmara Legislativa, apresentou uma propositura para conceder Título de Cidadão Parnaibano para Nino e Soraya.

Gilmar, vereador de oposição, puto por ter perdido a oportunidade de ser o autor do requerimento, aproveitou a sessão solene para enaltecer os homenageados.

- Vossa Excelência está de parabéns pela iniciativa. Faço questão de me associar à tão nobre proposição que reconhece a magnânima importância desse jovem e belo casal para o engrandecimento da Parnaíba - disse o vereador invejoso.

João Bala, vereador do Partido dos Trabalhadores, entrou em contato com o governador para incluir o casal entre os homenageados do Dia do Piauí.

Quando o prefeito Mão Santa soube da honraria, ficou puto.

- Hein... hein... Fábio Barros! Por que tu não pensaste nisso antes? Prepara urgente o Diploma de Honra ao Mérito e a Medalha do Mérito Municipal para Nino e sua belíssima Soraya. Quero o auditório lotado.

Antes mesmo de o prefeito terminar de falar, o Primeiro-Ministro já havia saído para providenciar as homenagens.

Cabra eficiente.

Coriolando, presidente da Associação Comercial, também não se fez de rogado e homenageou o ilustre casal.

Tudo corria dentro da mais perfeita normalidade na vida social e profissional de Nino e Soraya.

Porém...

Numa sexta-feira, poucos dias antes do aniversário de inauguração da Nino Shopping, Nino não apareceu na loja.

A princípio, Joãozinho, o gerente, não estranhou.

- Deve ter viajado às pressas para resolver algum negócio em Fortaleza.

Na segunda-feira – como de costume - chegou cedo para abrir a loja. Não se preocupou ao perceber que o carro importado de Nino não estava no estacionamento. O patrão raramente chegava cedo.

Ao girar a chave e levantar a porta, levou um susto.

A loja estava completamente vazia.

Nem uma capinha de celular havia sobrado para contar a história.

- Meu Deus! Fomos roubados!

Funcionários, mototaxistas, pés de cana e até o pastor da igreja ao lado correram para ver o que havia acontecido.

- Eu falei que benzer a loja não traria sorte! - disse o pastor, destilando ódio.

Depois do susto, Joãozinho começou a raciocinar. Apenas ele e Nino possuíam uma cópia da chave, e a porta não apresentava qualquer sinal de arrombamento. – Vai acabar sobrando pra mim! – pensou.

- Será que sequestraram o Nino e o obrigaram a abrir a loja durante o fim de semana para roubarem os produtos? - perguntou o pastor.

A notícia do suposto sequestro - sem qualquer comprovação - correu mais rápido que rastilho de pólvora. Em pouco tempo, todas as rádios e a Rádio Peão comentavam o caso. Até um portal de notícias de quinta categoria apareceu na frente da loja para iniciar sua "investigação".

Joãozinho registrou imediatamente um boletim de ocorrência para que a Polícia Civil iniciasse as investigações.

Quando os gerentes dos bancos souberam da notícia, correram para conferir as contas e os financiamentos de Nino.

Fumo.

E dos grandes.

Nino havia raspado tudo.

Somando os dois bancos, o saldo encontrado era de R$ 2,50.

Amorim passou mal. Teve um problema intestinal e passou três dias de cama, se cagando todinho.

Souza precisou ser socorrido com princípio de infarto.

Naquele dia, Parnaíba parou.

Não se falava em outra coisa.

Empresários que haviam mantido contato com Nino se benzeram dez vezes por não terem fechado negócios com ele.

O proprietário da mansão alugada respirou aliviado:

- Não perdi nada. Na verdade, estou é devendo. Pedi doze meses de aluguel adiantados.

O prejuízo provocado pelo pinote de Nino foi geral: bancos, funcionários, fornecedores e o empresário de São Luís.

Os empresários de Parnaíba não perderam dinheiro, mas tiveram a honra arranhada por terem recebido em suas casas um picareta de marca maior.

Na prefeitura, a notícia caiu como uma bomba.

- Fábio Barros, corre aqui! – se esgoelou Mão Santa.

- O que foi, prefeito?

- O Nino, aquele fi de uma égua que tu condecoraste com medalha, aplicou um calote na Parnaíiiiiba!

- Eu, prefeito?

A Polícia Civil conseguiu avançar parcialmente na investigação.

Nino era apenas um de seus muitos nomes.

Soraya também usava identidade falsa.

O casal já havia aplicado o mesmo golpe em diversas cidades de médio porte do Nordeste.

Correu o boato de que Nino administrava uma loja na Praça do Ferreira, em Fortaleza.

Nada, porém, foi comprovado pela Polícia Civil do Ceará.

Até hoje Joãozinho e uma ruma de ex-funcionários sonham em receber seus direitos.

Os gerentes dos bancos foram transferidos para outras cidades, enquanto as instituições financeiras abriram procedimentos internos para investigar o caso.

Saturnino deixou marcas indeléveis na sociedade parnaibana ao trair a confiança de pessoas bem-intencionadas que lhe abriram as portas de casa e os cofres.

Não foi a primeira vez. Terá sido a última?

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