Caça aos Pobres

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

O pobre vive uma contradição histórica, uma herança de 400 anos de patrimonialismo. Na grande maioria de sua existência, é um ser irrelevante e visto pela classe política apenas como um pidão profissional, aquele pronto para dar um ferro, chorar miséria, falar da doença da mulher, da aporrinhação da sogra, da carestia, da situação do seu time...

Mas, de dois em dois anos, esse cenário muda radicalmente. É o período eleitoral, o tempo da política, a abertura oficial da caça aos pobres.

O Brasil, de cabo a rabo, já vive esse momento. Atenhamo-nos a Parnaíba, cidade que já tem um "pai dos pobres" e já teve uma "mãe dos pobres". Lógico que esses pseudos pai e mãe não são privilégio de Parnaíba; afinal de contas, temos na Presidência um ser que muitos pobres chamam de pai.

Pai ou padrasto?

Na Praça da Graça - nosso principal logradouro - o ir e vir de políticos verdadeiros e de outros arremedos de políticos já começa a chamar atenção:

- Meu amigo, há quanto tempo não tenho o prazer de vossa companhia! - disse um candidato a deputado a um transeunte.

- Como vai sua esposa, aquela magnânima mulher?

- Não sou casado, você não me conhece, moro em Tutóia e vim apenas fazer compras em Parnaíba - respondeu o transeunte.

Uma pessoa normal, com certeza, morreria de vergonha de tal gafe. Mas ele é um candidato a deputado, um político profissional.

Ali, bem perto da Praça da Graça, outro candidato comia pastel com um refrescante caldo de cana:

- Nem em Paris é possível comer um pastel com a qualidade do pastel do amigo... Como é mesmo seu nome? - enfatizou o candidato.

A cena de políticos experimentando comidas que, em tempos normais, eles nem cheiram é o ápice da temporada de caça aos pobres:

- Nossa amiga é gente como a gente. Bebendo esse caldo de cana que, pela cor, deve estar estragado - disse uma apoiadora e administradora do grupo de WhatsApp "Minha Deusa".

- E num é, mermã? Eu não teria essa coragem - disse outra apoiadora.

Mas não é preciso apenas tentar parecer pobre; é preciso suar a camisa, misturar-se, apertar mãos - mesmo que depois as lave com álcool 100% -, abraçar, beijar, pegar o filho melequento do pobre nos braços, fazer tchutchuco, elogiar seus olhos, a bochecha rosadinha...

Às vezes, nem o cachorro caramelo do pobre escapa de uma apalpada amigável do candidato.

- Tu viu, muié? O deputado sentou naquele tamborete véi onde o Zé se senta quando chega em casa bêbado e todo cagado. Eu morri de vergonha - disse D. Cremilda, uma das moradoras dos Tucuns que teve a honra de ver o candidato adentrar ao seu humilde barraco.

- É verdade, cumadre - respondeu a vizinha.

O pobre é um patrimônio nacional. Se ainda por cima for analfabeto, merece uma estátua em praça pública, igual àquela do Simplição, erguida na Praça da Graça.

Em eleição estadual, o ápice da vida do pobre é a visita dos candidatos a governador. Candidatos ao cargo de senador também servem, mas receber a visita do Rafinha e do Joelson é certeza de ouvir promessas que enchem os olhos:

- D. Mundica, não se preocupe. O homem lá de Brasília me autorizou a falar em primeira mão que nós iremos acabar com a pobreza, pela milésima vez. Não faltará mais comida em suas panelas a partir de janeiro de 2027 - disse Rafinha, o candidato que já foi comparado a Einstein pelo seu QI.

Botei fé.

Já o Joelson - cabra bom e aparentemente humilde - chega se colocando no mesmo patamar do pobre:

- Vocês sabiam que eu sou filho de carroceiro? Fui prefeito de Floriano por quatro vezes e lá combatemos a pobreza com realismo, sem falácias - disse.

- O que diabo é falassa, doutor? Será uma faca? - perguntou o inquieto Ananias, um amigo de profissão do pai do candidato.

- Não, senhor Ananias, é falácia... Deixa pra lá - retrucou o candidato.

- Sei o que é não. Doutor, e aquele mieiro de tijolo que o sinhô prometeu? - perguntou Ananias, com a cabeça baixa, demonstrando respeito.

- Ah, sim... O senhor já viu ou leu sobre o nosso projeto para a Vila Olímpica? - retrucou Joelson.

- Sei ler não, doutor – disse Ananias, já se retirando.

Todavia, o período de caça aos pobres não é de todo ruim. Animai-vos, povo sofrido, pois, por longos seis meses, vocês serão o alvo de atenção, o sonho de consumo dos homens - e das mulheres, é claro.

É ou não é uma honraria?



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