A Rapariga e o “Espoca Urnas”
![]() |
| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Esta é uma obra de ficção. Embora dialogue com acontecimentos e personagens que possam parecer familiares, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
Crismar - ou Cris, como gostava de ser chamada - conheceu Fransquin num encontro casual no Teatro Municipal Dix-huit Rosado, na longínqua cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Para Fransquin, foi amor à primeira vista - pelo menos foi isso que ele tentou fazer Cris acreditar.
Antes de levar Cris ao hotel em que estava hospedado, Fransquin falou um pouco de sua vida na cidade de Parnaíba, que Cris não fazia a menor ideia de onde ficava.
- Sou vereador em Parnaíba. Mais que isso, eu fui o mais votado nas últimas três eleições. Lá só dá eu - disse.
Cris acreditou piamente estar diante de um homem importante e influente.
Cresceu o olho - Vou me dar bem - pensou.
Nas conversas preliminares, Fransquin descobriu que Cris não trabalhava, não estudava e não dava um prego numa barra de sabão dentro de casa, além de ter pouquíssima instrução.
Não fazia diferença. Era linda.
Fransquin iria passar apenas um fim de semana na cidade. No último dia em solo mossoroense - e louco para levar Cris de novo para a cama - resolveu fazer um convite e uma promessa para seduzi-la, já que, na primeira noite, não conseguiu agradar muito o mulherão que teve nas mãos.
- Gostaria de conhecer Parnaíba, a capital do Delta? Será tudo pago com minha verba de gabinete. Não se preocupe com nada.
Dito e feito.
Depois de satisfazer novamente seus instintos sexuais, Fransquin ficou numa sinuca de bico. O que faria se Cris resolvesse aceitar o convite, já que ele, além de casado, ainda tinha duas amantes?
No dia seguinte, Fransquin retornou a Parnaíba e Cris ficou de pensar. Achava, porém, pouco provável que ela abandonasse a casa dos pais - onde, bem ou mal, tinha tudo à mão - para arriscar uma aventura com praticamente um estranho.
- Obrigado, meu Deus, por esse livramento - pensou Fransquin.
Antes de embarcar no ônibus da Guanabara, pisou no rabo da morte:
- Assim que eu arrumar o seu emprego, mando as despesas da viagem.
Coisa nenhuma.
Fransquin respirou com alívio ao deixar Mossoró. Mas se esqueceu de que “mulher traída é pior do que bala perdida”.
Cris acreditou, mas com um pé atrás. Já era calejada com as traquinagens dos homens.
Um belo dia resolveu pesquisar sobre Parnaíba na internet. Achou a cidade simplesmente maravilhosa e pensou que aquela poderia ser a oportunidade de dar uma reviravolta em sua vida. Mas Fransquin não ligara. - O que fazer? - pensou.
Então ligou para Jaime - um de seus ficantes e CEO de uma empresa de exploração de petróleo - para pedir uns caraminguás e visitar Fransquin em Parnaíba. Prometeu manter sigilo sobre os dois e, prontamente, recebeu dinheiro suficiente para a passagem de ida e mais alguns trocados.
Corria o ano de 2026 quando Cris desembarcou na rodoviária de Parnaíba.
Morena arrumada, boca carnuda, cabelos pretos como a noite e um corpo escultural, tudo isso dentro de uma minúscula minissaia.
Não tinha como passar despercebida.
Taxistas e mototaxistas grelaram os olhos, querendo a oportunidade de levar uma belezura daquelas em seus veículos.
Aceno daqui, aceno dali, e Cris resolveu conversar com um dos taxistas, Alfredo.
- Gostaria que você me levasse à casa do vereador Fransquin. Não tenho o endereço, mas um vereador famoso não deve ser difícil de encontrar.
- Fransquin? Vereador? Não existe nenhum vereador em Parnaíba com esse nome - respondeu Alfredo.
- Como você não conhece? Ele foi o vereador mais votado nas últimas três eleições.
- Como é o seu nome? - perguntou Alfredo.
- Cris.
- Cris, além de taxista, eu sou assessor parlamentar na Câmara. Conheço Deus e o mundo. Não existe, nem nunca existiu, um vereador chamado Fransquin em Parnaíba.
Naquele momento, Cris percebeu que havia caído num golpe e entrou em desespero.
Alfredo, então, sensibilizou-se - quem não se sensibilizaria? - com o drama da moça e resolveu ajudar.
- Você tem foto dele? - perguntou.
- Não.
- E como ele é fisicamente? Feio, bonito, mais ou menos...
- Feio. Parece o Caneta Azul.
Alfredo quase caiu na gargalhada, mas teve sensibilidade diante da situação.
- Essa criatura que você descreveu nunca foi vereador. Foi candidato nas últimas três eleições e quase não teve votos. A turma passou a chamá-lo de "Espoca Urnas".
- É um Zé-ruela que se diz líder comunitário lá pelas bandas do João XXIII. Um morto de fome - completou Alfredo.
- E agora? O que eu faço da minha vida sem dinheiro para voltar para casa? - desabafou Cris.
Alfredo, raparigueiro tarimbado e passado na casca do alho, percebeu uma chance de ganhar um bom dinheiro com Cris.
- Cris, você fazia ponto em Mossoró?
- Fazer ponto? Não entendo.
- Você fazia programa?
- Programa?
- Na real, você é guenga, Cris? - entrou de sola Alfredo.
- Não. Eu trabalho com Job, moço.
Alfredo não fazia ideia do que era job e recorreu ao Google.
- Google, o que é uma mulher que faz job? - perguntou.
"Guenga, rapariga, prostituta...”.
- Então, Cris, você é o que eu estava pensando. Guenga, simples assim.
Alfredo resolveu ajudar a mais nova amiga a sair daquela enrascada e levou-a para um cabaré de uma velha conhecida, na Rua Caramuru. Antes, porém, ligou para confirmar o interesse da madame.
- Tudo certo. Vou te levar para um estabelecimento de uma velha amiga. Lá você poderá passar esta noite. Amanhã decide o que fazer da vida.
Era sexta-feira à noite, e o cabaré estava lotado. Quando Cris entrou, foi um burburinho. Algumas raparigas velhas logo ficaram de beiço, sabendo que perderiam fregueses. Alguns clientes endinheirados já disputavam a novinha no olhar.
Alfredo apresentou Cris à proprietária e explicou que ela estava cansada da viagem e precisava descansar. Amanhã conversariam.
- Cris, é o melhor que posso arrumar. Descansa e não fala nada de trabalho. Deixa que, como sou assessor parlamentar, vou lhe assessorar.
- Estou com fome. Não comi nada na estrada.
- Deixe suas coisas no quarto que eu lhe levo ao Lac-Lanches para merendar.
Na volta do lanche, Alfredo conversou ao pé do ouvido com a madame, acertando os detalhes financeiros e a sua comissão.
- Vamos acertar assim. Se não quiser, levo para outro cabaré. Não é todo dia que chega uma novinha desse naipe em Parnaíba.
Cris passou a noite ligando e deixando mensagens no celular de Fransquin - sem sucesso.
Tudo correu dentro dos conformes para Cris e Alfredo. Com apenas dois meses de lida, Cris já era a job mais procurada e cobiçada do Norte do Piauí. Agenda lotada todas as noites. Levantou as mãos para o céu por ter levado um golpe do vereador de meia tigela.
Faturava alto. Empresários, políticos, ricos, lascados... Não tinha tempo ruim para Cris, que passou a ser conhecida como a novinha do Job.
Um vereador - vereador de verdade -, que acabara de levar um par de chifres, passou a enxugar as lágrimas em seus braços. Começou a fazer promessas, mas Cris cortou logo:
- Pare com essa arrumação de promessas.
O vereador enlouqueceu.
- Vou te tirar deste lugar - prometeu.
Cris já tinha ouvido proposta igual de um empresário da construção civil. Não se empolgou.
E a vida foi seguindo.
Numa bela segunda-feira de lua cheia, dia de folga no cabaré, Cris - já inteirada da cidade - pegou um mototáxi e foi beber e comer na Avenida São Sebastião, o lugar que mais chamara sua atenção em Parnaíba.
Parou num trailer próximo à Universidade Federal, sentou-se, olhou o cardápio e chamou o garçom. Quando ele se aproximou, levou um choque. Ficou tão assustado que deixou cair o tablet usado para registrar os pedidos.
Prejuízo.
- Espoca Urnas! - gritou Cris.
- Não, não, não... Fransquin, a seu dispor - respondeu o garçom.
Os clientes que lotavam o trailer caíram na gargalhada.
Cris apenas deu de ombros. A raiva que sentia dele já era irrelevante. Estava fazendo a vida e ganhando um bom dinheiro, que guardava para realizar o sonho de se estabelecer em Jeri, onde, tinha certeza, faria seu pé de meia com os dólares e euros dos gringos.
Passados mais seis meses em Parnaíba, Cris, que já tinha o contato de uma pessoa influente em Jeri, foi embora com a promessa de um dia voltar, mas apenas como turista.
Sua partida foi sentida por todos. Alfredo perdeu a galinha dos ovos de ouro; os ricos empresários voltaram a importar novinhas de fora; e o vereador - o de verdade - perdoou a esposa traidora e hoje circula de mãos dadas com ela, como se nada tivesse acontecido.
É o amor.
Cris, com apenas quatro meses em Jeri, fisgou um espanhol famoso e podre de rico. Hoje vive vida de madame em Málaga.
Já o "Espoca Urnas" nunca mais teve coragem de disputar uma eleição, embora pessoas próximas garantam que, em 2028, ele virá forte, com o apoio incondicional de uma deputada.
Boa sorte para ele.


Deixe Seu Comentário