O Novo Mandu Ladino
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Manuel nasceu na Ilha Grande do Piauí, a poucos metros do Porto dos Tatus. Seu pai, Zequinha, pescador e catador de caranguejo, e sua mãe, Cremilda, marisqueira, complementavam a renda familiar com a produção de artesanato feito com produtos da flora regional, vendidos aos turistas que seguiam para os passeios pelo Delta.
Quando Manuel nasceu, Jurema, uma vizinha macumbeira, invejosa e fofoqueira, não deixou barato:
- Mais um negrinho pra passar necessidade e sofrer nesta vida! - disse.
- E não é que ele é a cara do índio Mandu Ladino? Só não vai alcançar a fama dele, a não ser que vire um bandido! - concluiu.
Cremilda ainda chegou a pegar um jucá para enfiar no quengo da macumbeira, mas ela já havia fugido.
- Me aguarde, desgraçada! Um dia eu te pego! - gritou Cremilda.
Pouco tempo depois, a fofoqueira já havia envenenado toda a vizinhança.
Manuel, com apenas poucas semanas de vida, já havia se transformado no novo Mandu Ladino. Nada mais podia ser feito.
Os anos foram passando, e o apelido grudou no pequeno Manuel por todas as escolas onde estudou.
Ele não deixava barato e, assim como o famoso Mandu, não tinha medo de ninguém. Partia para o cacete, fosse o outro moleque do tamanho que fosse.
Mandu estudava apenas por pressão da mãe, que sonhava em ter um filho na universidade. Mas ele gostava mesmo era de acompanhar o pai na pesca e na cata do caranguejo.
Foi na escola que Mandu assistiu a um vídeo no Youtube sobre a vida e morte do famoso Tapuia Mandu Ladino. Ficou abismado.
A partir daquele dia, não se irritava mais com o apelido. Sentia um orgulho enorme de carregar o nome de um grande herói que lutou contra a escravização dos indígenas e contra a invasão das terras de seu povo pelos colonizadores europeus.
Aos 25 anos, Mandu finalmente concluiu o ensino médio. Faculdade, apesar do sonho da mãe, não passava pela sua cabeça.
Mandu era um homem forte, valente e revoltado com as desigualdades da vida de pescador e catador de caranguejo. Via na figura do atravessador um inimigo cruel e desumano. Mas acreditava que nada poderia ser feito para mudar essa realidade.
Seguia a vida.
Pelo seu porte avantajado e força nos braços, Mandu começou a se destacar nas regatas de canoas do Rio Igaraçu, disputadas em Parnaíba.
Virou uma lenda!
Na última regata de que participou sagrou-se campeão.
A festa de chegada e premiação foi no Tabuleiro. Uma multidão esperava os canoeiros enquanto dançavam ao som de muito forró.
Na curva do rio apontou Mandu e sua tripulação com larga vantagem para o segundo colocado. Vitória confirmada.
Mandu estava louco para voltar para casa, mas precisava aguardar a chegada das autoridades e a entrega das premiações.
O sol rachava o quengo do público e nada do inicio da solenidade. O prefeito estava atrasado.
A Banda Simplício Dias – a furiosa – estava a postos para tocar o hino da Parnaíba e a música “Cidade Maravilhosa”, de André Filho.
Quase duas horas da tarde quando, finalmente, aponta a comitiva do prefeito Mão Santa, tendo à frente o primeiro-ministro Fábio Barros e uma ruma de seguranças.
Mão Santa então começou a cerimônia, mas não sem antes fazer um discurso de três horas e meia, no qual falou de Nero, de Roma, do Egito, da amada Adalgisa, de Dom Pedro I, do Simplição e do título concedido a Parnaíba como a "Metrópole das Províncias do Norte".
Por fim, enalteceu os navegadores:
- Vocês são melhores do que Amyr Klink, os fenícios, os vikings e os polinésios. Nenhum deles chega aos pés de vocês! - concluiu Mão Santa.
- Haja paciência! - pensou Mandu baixinho.
Palma de Gato a cada palavra do prefeito soltava um foguete; Aplausos efusivos.
Mandu aproveitou o ensejo e pediu ajuda ao prefeito para enfrentar a exploração dos atravessadores.
- Hein, hein... O Delta da Parnaíba é o maior em mar aberto e blá, blá, blá... - balbuciou Mão Santa.
Depois dos louros da vitória, Mandu voltou à sua realidade.
Um belo dia resolveu quebrar a promessa feita a Miguel, o atravessador, com quem estava apalavrado para vender uma enorme produção de caranguejos, catados na noite anterior.
Miguel tinha um contrato com Chico do Caranguejo e comprava toda a produção de vários catadores do Delta.
Quando Miguel chegou aos Tatus, Mandu disse que havia vendido todas as cordas para restaurantes locais, da Pedra do Sal e de Parnaíba por um preço muito superior ao que receberia dele.
Miguel ficou possesso, virado no satanás!
- Mas nós acertamos tudo antes! Essas cordas já estão vendidas para o Chico do Caranguejo, em Fortaleza! - disse o atravessador, espumando ódio pela boca.
Mandu deu de ombros.
- Você me paga! - disse Miguel, ao deixar o local.
O tempo passou, e Mandu continuou vendendo sua produção a quem oferecesse mais.
O pai observava tudo com preocupação. Mas Mandu era homem feito e dono do próprio destino. Nada podia ser feito.
Numa madrugada chuvosa, um toró dos diabos, entre relâmpagos e trovões, dois vultos se aproximaram do porto, onde a canoa de Mandu e do pai estava atracada.
Dois golpes de machado foram suficientes para rachar o fundo da embarcação, que imediatamente desapareceu nas águas barrentas do Parnaíba.
Os homens fugiram sem deixar rastros.
Zé Pelintra, um pescador que atracava sua canoa ali perto, foi quem deu o alarme.
- Afundaram tua canoa, Mandu! - disse, esbaforido.
Todos correram.
Nada mais podia ser feito.
Perda total.
Mesmo assim, retiraram do fundo do rio o que restava da embarcação.
- Mas quem poderia ter feito isso? – perguntou seu Zequinha.
- Só pode ter sido o atravessador Miguel! – disse Mandu.
- A gente refaz, filho! – contemporizou.
Mandu lembrou-se da luta do herói Tapuia.
- Miguel vai me pagar! - disse, em alto e bom som.
Cremilda, sua mãe, implorava para que todos esquecessem o ocorrido.
- Calma, fi. Vou na casa do vereador Renatinho. Ele sempre nos ajudou!
- Mas, cumadre, o Renatinho é vereador de Parnaíba. Tem que procurar a prefeita da Ilha! - esclareceu Gumercindo, um morador que presenciava tudo.
- Ele ajuda assim mesmo! - concluiu Cremilda.
Ana Peitica, namorada de Mandu, aconselhou que procurassem a polícia antes de qualquer coisa.
- Polícia não resolve nada! - esbravejou Mandu.
Com o passar dos dias, o clima foi se acalmando. Muitos já tinham esquecido. Mandu, não.
Enfim, uma boa notícia.
Amigos espalharam a denúncia pelas redes sociais. O Instagram entrou em parafuso com tantas mensagens de apoio e de revolta.
- Canalhas!
- A culpa é do Lula!- postou um bolsonarista.
- Seu verme, a culpa é do Bolsonaro! – rebateu um petista.
- E a Gracinha, não vai fazer nada não? – perguntou um militante do Chico Emanuel.
- Gracinha não é prefeita, idiota, cadê o “Judas” numa hora dessas? – postou a administradora do grupo de "Whatsapp" “Minha Rainha”.
Políticos da Ilha em busca de votos prometeram ajudar. – Conte comigo! – disse um deles.
Coisa nenhuma!
Os amigos fizeram uma vaquinha virtual para arrecadar dinheiro e reformar a canoa.
Consultaram Pântico, o melhor artesão do Delta e que tem sua oficina na Pedra do Sal.
A vaquinha virou uma vacona.
O dinheiro arrecadado era suficiente não apenas para reformar a canoa, mas para comprar uma ou duas canoas novinhas em folha, trabalho de primeira qualidade.
Pântico se garante!
Apesar das boas notícias, Mandu ainda respirava ódio.
Os dois meliantes evaporaram, e Miguel, depois do fuzuê no Instagram, sumiu. Foi comprar caranguejo em outras freguesias.
A vida de trabalho de Mandu e de seu pai seguiu.
Em vez de uma, agora eram duas canoas. Produtividade em dobro.
E o melhor: a produção passou a ser vendida sem atravessadores. Porém, mesmo com o passar do tempo e com a melhoria de vida da família, Mandu não esqueceu.
Por muitas noites sonhava com o dia da vingança e se lembrava do seu herói, Mandu Ladino, e de como tudo terminou.
- Vou matar Miguel, custe o que custar! - pensava diariamente.
Toda vez que Mandu tocava no assunto, Peitica, agora sua esposa, pedia, pelo amor de Deus, que esquecesse aquilo e seguissem a vida.
- Se isso ainda te aborrece, vamos procurar a Justiça. Vingança, nunca! - dizia.
Mandu não queria papo.
No início de outubro daquele ano, Cremilda chegou à sua casa eufórica. Em conversa com seu amigo Renatinho, vereador de Parnaíba, ele havia conseguido, junto à prefeita de Ilha Grande, uma vaga para que sua família montasse uma barraquinha no Festival do Caranguejo, que aconteceria em novembro.
Seria uma grande oportunidade para faturar alto com a venda de seus artesanatos e de pratos típicos feitos com a iguaria.
Cremilda era analfabeta. Então pediu auxílio à sua nora, mulher letrada e estudante do curso de Turismo da Universidade Federal do Delta do Parnaíba, para elaborar o cardápio.
- O tempo voa! - disse ela.
Nessa altura do campeonato, Mandu já tinha recebido informações de que os dois vagabundos que executaram o serviço em sua canoa velha eram de Fortaleza e dificilmente pisariam na Ilha Grande de novo.
Mas ele queria acertar as contas com Miguel.
- O que é do homem o bicho não come! - dizia sempre a Peitica.
Então chegou o dia da abertura do Festival do Caranguejo. A família toda estava reunida em sua pequena, mas aconchegante, barraquinha. Havia muitos turistas endinheirados e falando embolado. Felizmente, Peitica, como estudante de Turismo, conseguia se comunicar, ainda que com alguma dificuldade, com os gringos. Quando o seu "The book is on the table" falhava, recorria ao Google Tradutor. Não seria o idioma que atrapalharia os negócios.
Tudo corria às mil maravilhas, até que Mandu, no meio daquela multidão, enxergou Miguel cambaleando com uma garrafa de uísque na mão.
Mandu ficou atônito. Finalmente chegara o momento que tanto esperara e ele não tinha nenhum plano na cabeça.
Pegou sua peixeira e começou a seguir a vítima. O perigo era constante: Miguel caminhava na direção do posto policial.
- Melhor desistir! - pensou.
Resolveu esconder a faca até passar do posto e continuou sua caçada. Pensava no Mandu de verdade e tentava imaginar o que ele faria.
Miguel dirigiu-se a um banheiro químico atrás de um prédio. Mandu seguia com as pernas tremendo de nervosismo. Antes de entrar no banheiro, Miguel jogou fora a garrafa de uísque, já vazia.
- Vou só dar uma bordoada nele. Um susto! - pensou Mandu.
Criou coragem, apanhou a garrafa de uísque, empurrou Miguel para dentro do banheiro e desferiu apenas uma garrafada na nuca. Miguel caiu desacordado, enquanto Mandu partia em retirada, se borrando todo.
Pegou um mototáxi e foi direto para casa. Entrou, tomou uma cachaça, trocou de roupa e voltou antes que Peitica sentisse sua falta.
Ao chegar ao festival, percebeu uma grande movimentação de viaturas da Polícia e do SAMU.
- O que houve? Por que tanta polícia? - perguntou, como se não soubesse de nada.
- Mataram um homem no banheiro! - respondeu Peitica.
Mandu gelou. Começou a repetir para si mesmo que a garrafada que dera não poderia ter sido a causa da morte.
Mas foi.
- Meu Deus, amanhã todos saberão o nome do infeliz e tudo vai cair nas minhas costas! - pensou.
Na manhã seguinte, o rádio noticiava:
"Atravessador de caranguejo morre ao cair no banheiro e bater com a cabeça."
Mandu sentiu-se aliviado, sem saber que o corpo seguiria para o IML e que, lá, fatalmente, a verdadeira causa da morte seria descoberta.
Quando a Polícia Civil puxou a capivara, percebeu que o defunto era mais sujo do que pau de galinheiro. Havia mandados de prisão em aberto, homicídios, feminicídio e tráfico de drogas.
Quando o laudo do IML ficou pronto, não houve surpresa para nenhum dos policiais.
- Homicídio. Eu sabia. O presunto tinha muitos inimigos! – disse o chefe de investigação.
O defunto era tão ruim que nem a própria família quis saber do corpo.
A investigação encontrou imagens de uma única câmera de segurança, nas quais apareciam apenas os vultos dos dois homens. As imagens eram horríveis, piores que as da Tekpix. Ninguém conseguia identificar qualquer característica do agressor. A garrafa de uísque - arma do crime e que poderia revelar o DNA do criminoso - simplesmente desapareceu.
Passados alguns meses, Mandu soube pelo rádio que o caso havia sido encerrado pela Polícia Civil.
Respirou aliviado.
Ao final de tudo, Mandu percebeu que o verdadeiro Mandu Ladino enfrentava os inimigos de peito aberto. Ele, não. Agira escondido, pelas costas, e ainda matara um homem sem sequer desejar isso.
- Queria ter outro apelido. Não mereço esse! - pensou.
Agora era tarde.


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