Joca: Azar no Jogo, no Amor e na Vida
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Esta é uma obra de ficção. Embora dialogue com acontecimentos e personagens que possam parecer familiares, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
Joaquim Inácio da Silva nasceu no Macacal, em Parnaíba. Filho de Ananias, ex-ferroviário, e de Donana, doceira, cresceu como uma criança igual a tantas outras de sua época. Gostava de jogar futebol no Bariri, pescar, caçar e correr atrás de balecas.
Tudo dentro da mais absoluta normalidade.
Estudar, porém, já era um problema. Joca, apelido dado pela própria mãe, não morria de paixão pelos estudos. Era rebelde e sempre batia de frente com os professores, principalmente com o de Matemática, quando este passava exercícios de geometria.
- Em que diabos de emprego eu vou precisar saber disso? - indagava ao professor Ranulfo.
- A geometria é de muita utilidade em diversas áreas! - rebatia Ranulfo.
Quando concluiu - a duras penas - o segundo grau, hoje Ensino Médio, Joca fez uma verdadeira queima de tudo o que lembrasse os estudos: livros, fardas e cadernos. Queria esquecer o sofrimento vivido durante tantos anos.
Se Joca não gostava de estudar, imagine trabalhar. Mas era preciso, já que sua família era humilde e não tinha condições de bancar uma vida de malandro para o filho mais novo.
Naquela época, ter o segundo grau completo em Parnaíba era quase como ser formado numa universidade. Assim, com a ajuda do pai, Joca arrumou um emprego numa concessionária de veículos pertencente a Guilhermino, um velho amigo da família.
Joca foi, mas fazia apenas o mínimo - e mal feito. Era pontual, tanto na chegada quanto na saída. Não ficava nem um minuto além do horário.
- É um imprestável! - dizia o senhor Nonato, seu supervisor.
Mas, mesmo imprestável, Guilhermino devia favores ao senhor Ananias. Enquanto Guilhermino fosse vivo, ninguém mexeria com Joca.
Além de todos os defeitos, Joca tinha um considerado gravíssimo: era viciado em tudo quanto fosse jogo de azar e apostas.
- Aposta até em corrida de formigas! - diziam os amigos.
No carteado - seu principal vício - Joca ganhava num dia e, no outro, perdia o dobro. Vivia sempre atolado em dívidas. E assim foi caindo num poço sem fundo.
Diante da fama de jogador compulsivo, nenhuma mulher tinha coragem de arriscar um relacionamento.
Também não fazia falta, pois existiam os cabarés, outro de seus vícios.
Mais recentemente, as plataformas de apostas esportivas - as famosas bets - invadiram o Brasil. Esse tipo de aposta já existia havia muito tempo em países como a Inglaterra, mas, por aqui, só ganhou força com a popularização da internet e dos aplicativos.
Joca entrou e caiu de cabeça.
Vascaíno doente, incapaz de aceitar que o time andava mal dentro e fora das quatro linhas, apostava sempre no Vascão. E quase sempre perdia.
Depois de fazer a aposta, sentava-se em frente à televisão com o rádio de pilha numa mão e o bilhete na outra.
- Vai, Gigante da Colina! Hoje eu preciso de você!
Quando o gigante não correspondia, Joca enchia o rabo de cachaça e ficava valente.
Brigou com quase todo mundo no Macacal.
Era um raro caso de azar no jogo, no amor e nas amizades.
Mas, um belo dia, Joca foi fisgado pelo coração de Dorotéia, viúva que perdera o marido para uma doença diretamente ligada ao alcoolismo e ao tabagismo. Dona de uma boa terminação odiava bebidas alcoólicas, cigarros, futebol e jogos de azar.
Nessa altura da vida, Joca já havia sido hospitalizado algumas vezes por causa da cachaça, e a recomendação dos médicos era uma só: ou parava com aquela vida, ou morreria.
Com dois motivos fortes para abandonar os vícios - Dorotéia e os conselhos médicos -, foi deixando, aos poucos, a vida de outrora.
- Esses vícios não se largam da noite para o dia.
Hoje, aos 68 anos, Joca é um novo homem. Largou a cachaça, o carteado, as balecas e as raparigas.
Quanto às bets, diminuiu razoavelmente, mas, vez por outra, ainda é possível encontrá-lo com um bilhete nas mãos. Joga uma mixaria e nunca mais apostou cegamente no Vasco. Continua apostando no time do coração, mas também joga no adversário e no empate.
- Assim não tem como perder.
Sangue de Jesus tem poder.


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