O Preço do Voto em Parnaíba
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Esta é uma obra de ficção. Alguns personagens, locais e acontecimentos mencionados têm inspiração na realidade, e certos nomes reais aparecem apenas como referência histórica. A trama, porém, é fruto da imaginação do autor.
A compra de votos é um crime tipificado no artigo 299 do Código Eleitoral. Mesmo assim, isso nunca impediu - e continua não impedindo - que a prática seja utilizada pela grande maioria dos candidatos, seja a que cargo for. Estatísticas mostram que, de cada cinco pessoas entrevistadas, uma já foi abordada para trocar seu voto por dinheiro ou algum outro tipo de benefício.
Em Parnaíba isso poderia ser diferente. Não é.
Jonas - vamos chamá-lo assim - é um político profissional com quase 25 anos ininterruptos de atuação como vereador de Parnaíba. Como político profissional, tem uma rede de apoiadores pelos quatro cantos da cidade. Esses apoiadores são portos seguros - como eram os coiteiros de Lampião - para assegurar, a cada nova eleição, uma reeleição. Muitos desses apoiadores são bancados pela população, já que são presenteados por portarias e mais portarias na gestão municipal e até estadual.
O cara é bom...
A compra de votos é tão banalizada que políticos profissionais - do estirpe do Jonas - nem se preocupam mais em esconder, em fazer por debaixo dos panos. Fazem na cara dura, à luz do dia.
Numa manhã de sábado, véspera de uma eleição, Jonas chegou a um comércio de venda de carnes diversas. Fila enorme. Muita gente garantindo uma picanha para assar depois, ou antes, do dever cívico do voto. Jonas chega com dois pacotinhos nas mãos: numa das mãos, vários santinhos; na outra, um bolo de garoupas. Entregou os dois pacotinhos a uma pessoa do estabelecimento:
- Bom dia, minha amiga. Entregue. Conforme prometido.
- Muito bom dia, meu vereador! Deixe com a gente.
Todas as pessoas da fila se entreolharam. Uma mulher que estava na fila resolveu então arriscar:
- Também quero um santinho, vereador.
- O vereador sorridente meteu a mão no bolso, puxou alguns santinhos e agradeceu caso ela resolvesse apoiá-lo.
- Vou lhe apoiar, mas não é desse santinho que estou falando. É o outro - disse sorrindo.
Na maior cara dura, sem vergonha ou constrangimento, Jonas meteu a mão no outro bolso e puxou uma garoupa estalando, como se acabara de sair dos cofres do Banco do Brasil.
Entregou e deu uma pausa, como que a esperar que outra pessoa fizesse o mesmo pedido.
Ninguém fez. Pegou seu veículo e saiu como se tivesse feito uma boa ação a um necessitado.
Naquele mesmo sábado à noite, o carro de Jonas foi flagrado no João XXIII. O veículo parava, descia um homem de dentro com as mãos cheias de santinhos e de garoupas, entregava numa casa e noutra, e o veículo seguia para outro ponto de apoio, onde o ritual se repetiria.
Um morador da rua que flagrou o fato ficou indignado. Pensou em denunciar, mas acabou com receio de ser ele mesmo penalizado.
- Deusulivre, tenho família para criar - disse.
No dia da eleição, Jonas aparecia nas seções com um sorriso de orelha a orelha, com a certeza de que teria mais quatro anos para “representar” o povo sofrido da Parnaíba.
Não deu outra.
Assim como Jonas - nosso personagem fictício que protagonizou essas cenas reais e lamentáveis - existem outros que fazem exatamente o mesmo, apenas com táticas diferentes.
Não nos enganemos.
A compra de votos - dentre outras mazelas da política - é um ciclo vicioso que mina as nossas instituições com o único objetivo de perpetuar essas pessoas nocivas no poder.
Infelizmente.


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