A Última Aparição de Simplício Dias da Silva
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
A historiografia nos mostra inúmeros casos de pessoas que supostamente ascenderam aos céus ou que foram arrebatadas. Na primeira categoria, temos o exemplo de Jesus, que foi ao Pai à vista de seus discípulos. Na segunda, temos dois exemplos: Elias e Enoque. Elias foi arrebatado ainda vivo, dentro de um redemoinho, e Enoque, depois de andar com Deus, simplesmente desapareceu.
Tanto a ascensão quanto o arrebatamento são artigos de fé, exigindo convicção religiosa para que se acredite que tais fenômenos sejam verdadeiros. Importante frisar que esses relatos são restritos a personagens de grande relevância histórica, o que sugere uma espécie de apoteose popular, em que um povo, movido pelo desejo de que os casos fossem reais, eterniza e mitifica seus heróis por meio dessas narrativas.
Mas essas histórias não ficam restritas à Bíblia. Um exemplo bastante peculiar é o de Dom Sebastião, Rei de Portugal, que teria desaparecido em 1578, durante a batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos. Reza a lenda que nunca encontraram seu corpo. Por conta disso, nasceu em Portugal o Sebastianismo: a crença de que ele não teria morrido em batalha e que, um dia, voltaria para salvar seu reino.
Até hoje, quase quinhentos anos depois, ele não retornou.
Acho que não vem mais.
Os exemplos citados estão longe de nossa realidade, tanto no tempo quanto no espaço.
Mas quem disse que em Parnaíba não tivemos também um caso clássico de arrebatamento?
É isso mesmo: Simplição, sempre ele.
Simplício Dias da Silva - com todos os seus defeitos, próprios da condição humana - foi uma figura muito importante para o desenvolvimento econômico da antiga Vila de São João da Parnaíba. Homem de vultosa riqueza e gostos megalômanos, morreu em 17 de setembro de 1829, aos cinquenta e seis anos, sendo sepultado na Catedral de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça.
Depois de sua morte, a figura de Simplício Dias da Silva passou a povoar lendas, mistérios e histórias de assombração que, de boca em boca, atravessaram gerações.
Passados trinta anos de sua morte e sepultamento, à meia-noite de um dia do ano de 1859, os moradores da então Vila de São João da Parnaíba, que residiam nas proximidades da paróquia, foram acordados por um som que vinha da igreja.
Blem, blem, blem... Era o som inconfundível dos sinos.
Mas a essa hora?
Resolveram sair para assuntar o ocorrido.
Ficaram atônitos!
A porta da Matriz estava aberta, o interior, totalmente iluminado e perfumado e, ainda por cima, era possível ouvir o som do órgão e algumas vozes.
Só isso já foi suficiente para afugentar alguns dos curiosos, que correram sem rumo e só pararam quando chegaram nas proximidades da Munguba.
Vocês acham que acabou?
Hum-hum!
Diante do altar, eis que aparece a figura de Simplição, envolta numa luz muito forte, que, após algum tempo, desapareceu. E, junto com ela, sumiu também o nosso querido Simplício Dias da Silva.
Os poucos corajosos que não haviam fugido antes agora se desempestaram.
Corriam tanto que batiam os pés na bunda!
A Vila ficou em choque. Alguns passaram a espalhar boatos de que Simplição havia voltado para se vingar daqueles que soltaram foguetes quando souberam de sua morte prematura. Outros atribuíram o arrebatamento a algo divino:
- Deus queria ter um dedo de prosa com o maldito! - disse um escravizado, alforriado depois de sua morte.
- Deus eu não sei, mas o diabo eu não duvido! - resmungou uma rapariga que veio correndo dos Tucuns depois que ouviu o badalar dos sinos.
Finalmente, acabou.
Aí é que vocês se enganam.
Com o passar do tempo, a história do arrebatamento ganhou novos desdobramentos. Simplício teria se transformado num “corpo seco”, daqueles defuntos que, por vários motivos, não conseguem o descanso merecido e se transformam em almas penadas, até que todos os seus pecados sejam perdoados.
A conta é grande.
Depois dos episódios, algumas beatas - que tinham estima pelo coronel falecido - resolveram rezar terços por trinta dias ininterruptos, para que sua alma finalmente descansasse em paz.
Pelo jeito a reza surtiu efeito.
Até agora...


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