O Leiteiro Presepeiro

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.


Lá pelo final da década de 1970 e início da década de 1980, o costume em alguns bairros de Parnaíba era comprar o leite diretamente do leiteiro. Antes mesmo de o sol esquentar, eles já percorriam as ruas fazendo as entregas de porta em porta. No meu bairro, o Nova Parnaíba, não era diferente. Eu nunca gostei de leite, mas ele não podia faltar no café da manhã na nossa casa.

Minha mãe tinha uma característica muito forte: a fidelidade. O nosso leite era sempre fornecido pelo mesmo leiteiro: o Raimundo, o Mundico, que tinha uma pequena propriedade rural lá pras bandas do Curre. Às seis da manhã, Mundico chegava com sua mula velha, já sem disposição para a lida. Era a própria "baba do boi cansado".

Mundico Já vinha se anunciando:

- Olha o leite, D. Ivone!

Logo em seguida, abria a tampa de um dos latões presos à mula, pegava a medida de um litro e aguardava a vasilha. Não demorava muito, e D. Ivone aparecia com um bule grande, bem surrado, e alguns trocados na mão. O leite era despejado no bule e minha mãe, para não perder o costume, começava uma prosa com Mundico.

- Quer tomar um cafezinho, meu fi?

Mundico apeava da mula e nem se dava ao trabalho de amarrar a corda. A mula, além de indisposta para tudo, era adestrada, quase da família; não sentia necessidade de fugir.

Devido à proximidade de nossa casa com a propriedade do Mundico, nossa entrega era uma das primeiras, e ele não tinha muito tempo para trololó. Nem se sentava; bebia o café em pé mesmo.

- Quer um pão, meu fi?

- Não gosto muito de pão, D. Ivone – retrucou Mundico.

- Quer uma tapioca? Faço ligeirinho.

- Quero não. Vou me indo.

Minha mãe era assim: hospitaleira e insistente. Era difícil entrar em nossa casa e escapar da pressão para tomar um cafezinho, que, naquela época, ela fazia na hora. Visita aqui não bebia café requentado.

Café tomado, Mundico pegava sua velha companheira e subia a Rua Teresina. Além de leiteiro, também completava a renda, uma vez por ano, extraindo palha de carnaúba, serviço que fazia numa propriedade no Tabuleiro. A produção era vendida para a PVP, indústria que beneficiava a palha para a extração da cera de carnaúba, utilizada na fabricação de ceras, cosméticos, medicamentos, alimentos e diversos produtos industriais.

Todavia, em outra época do ano, Mundico se transformava. No carnaval, incorporava outro personagem: o presepeiro. Como sua mula era devagar quase parando, pegava emprestado um animal mais vigoroso, uma carroça e combinava com a molecada. Um balde de água misturado com tudo o que não prestava, algumas bombas-d ‘água, e a tropa partia para a Beira-Rio a fim de participar do tradicional mela-mela.

Naquela época, o carnaval era bem diferente dos dias atuais. Nada de trio elétrico, pipoca, abadá ou música baiana. As festas aconteciam em vários clubes: Ferroviário, Clube dos Trabalhadores, AABB e, o mais concorrido, o Igara Clube. Isso para quem tinha uns caraminguás para gastar, o que não era o nosso caso. A solução era o mela-mela. Era atirando lama nuns e levando de outros. Quem tinha apreço pelo seu veículo nem por morte passava pela Beira-Rio naquelas tardes de carnaval.

Havia uns mais abastados que, além do carro de passeio, possuíam outros veículos mais preparados para a bagaceira. O Jeep 51 era um dos modelos. Um pilotava e os comparsas ficavam na carroceria metendo "bala".

Era uma diversão saudável. Não me lembro, nos tempos em que participei, de ter havido confusões ou atos de violência. O povo já ia sabendo que iria se melar.

Lembro apenas de um desavisado, um riquinho que resolveu aparecer por lá com seu veículo. Não lembro qual; talvez um Monza. A galera não perdoou. Foi lama nos vidros, no capô... Quando ele parou e desceu para brigar, ficou pior. Alguém abriu o capô e meteu lama no motor. O furdunço ficou feio. Recolheu-se com prejuízo e o orgulho ferido. Não iria brigar com uma multidão. O pai tinha dinheiro. Aprendeu a lição.

E assim a tarde ia ficando para trás e o sol começava a se recolher. O Mundico era o único dono de si; não tinha satisfação a dar para ninguém. Mas o resto da tropa, naquele anoitecer, já estava sentindo o couro arder por causa da pisa que levaria em casa.

Eu preferia nem pensar.

- Bora aberar, negradinha! - gritava Zeca.

- Eita piula, já é noite. Tamos lascados! - lamentava Franzé.

- Bora, Mundico, bora aberar! - apelava Murilo, quase chorando.

- Era só o que faltava esse bando de chorões. Eu não disse que horas voltaríamos - respondia Mundico.

Mas Mundico falava só para deixar todo mundo se cagando ainda mais de medo, pois ele também já tinha passado da hora de voltar. No outro dia, pela manhã, acordaria cedo para tirar o leite e começar sua lida diária.

- Tá certo, negrada, vamos na tubada. Chegamos já. - disse Mundico, engatando uma marcha à ré na carroça.

Mas estávamos num campo minado. Íamos embora, mas não sem antes levar mais rajada de lama na cara. Pense numa fedentina.

Passada a folia, voltávamos à rotina. Mundico seguia sua vida com suas vacas e sua mula cansada; eu e o resto da molecada, a nossa vida de estudante. Ninguém tocava no assunto. Ninguém contava aos pais as presepadas do Mundico, e ele também não denunciava nossas escapadas.

Deusulivre! Se meu pai descobrisse, a chibata comia.



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