Fazenda Floriópolis: Entre Lendas e Fatos

Fazenda Floriópolis
📷Fazenda Floriopólis © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Simplício Dias da Silva é uma figura envolta em mistérios. Quase dois séculos após sua morte, seu nome continua cercado de lendas, tragédias familiares e histórias que ainda alimentam o imaginário popular.

Seu filho, Antônio Raimundo Dias de Seixas e Silva, seu meio-irmão, Raimundo Dias da Silva, e sua filha, Carolina Thomázia Dias de Seixas e Miranda, tiveram fins violentos, assassinados de forma brutal. Talvez por isso, qualquer história de assombração envolvendo supostas propriedades da família acabe, indubitavelmente, sendo atribuída ao poderoso coronel.

É nesse emaranhado de histórias que aparece uma velha fazenda localizada em frente à Estação Floriópolis, no Conjunto Jardim Vitória, bairro Floriópolis, em Parnaíba.

Apesar do avançado estado de deterioração, a fazenda continua de pé.

Há décadas, populares contam histórias de assombrações. Dizem que a propriedade teria servido como residência de veraneio de Simplício Dias da Silva e de sua família.

Segundo a tradição oral, alguns escravizados teriam sido torturados, assassinados e lançados dentro de um poço existente na propriedade. E é justamente nesse poço que, conforme a lenda, todos os dias, ao soar das seis da tarde, aparece um homem vestido de branco, supostamente o espírito de um daqueles infelizes.

Parnaíba - talvez por seu vasto acervo de edificações centenárias - é uma cidade onde, vira e mexe, aparecem histórias de casas mal-assombradas. Basta ser uma velha edificação abandonada ou prestes a ruir.

Agora, deixemos o diz-que-me-diz do povo e vamos aos fatos.

Simplício Dias da Silva nasceu em 2 de Março de 1773 e faleceu em 17 de Setembro de 1829, aos cinquenta e seis anos. No auge de sua fortuna, possuía quase 2 mil escravizados distribuídos em suas diversas propriedades, o que torna perfeitamente plausível que muitos deles trabalhassem em fazendas e casas pertencentes à família.

Entretanto, a fazenda do Floriópolis não pode ter pertencido a Simplício Dias. Basta olharmos as datas para entendermos por quê.

A velha fazenda foi construída no mesmo período da Estação Floriópolis, inaugurada em 1º de Maio de 1922, noventa e três anos após a morte de Simplício Dias da Silva. Tudo indica que a propriedade tenha pertencido a Flora Castelo Branco Clark - que deu nome à estação - e ao seu esposo, Miguel Furtado Bacellar, engenheiro-chefe responsável pela construção da Estrada de Ferro Central do Piauí, ligando Teresina ao Porto de Amarração.

O referido imóvel atualmente é administrado pela Fundação Raul Bacellar.

Um detalhe importante que pode ter dado força a essas lendas é a proximidade da Fazenda Floriópolis com o antigo Arraial Testa Branca, que, durante oito anos, foi sede da Vila de São João da Parnaíba por determinação do governador João Pereira Caldas. 

As duas áreas ficam separadas por pouco mais de um quilômetro e estão inseridas em uma região marcada pela presença histórica da família Dias da Silva. Além disso, há relatos e tradições orais de que a família teria possuído fazendas de gado na região da Testa Branca, atual Catanduvas, e de que uma dessas fazendas teria sido destruída pela população por ser considerada mal-assombrada.

E talvez seja justamente aí que esteja o mais interessante de toda essa história. A fazenda continua de pé, envelhecendo em silêncio, enquanto as histórias em seu entorno vão moldando gerações.

Simplição morreu há quase duzentos anos, mas seu nome, sua vida e sua história permanecem vivas – para o bem ou para o mal.







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