Bitoba e o Curandeiro de Sete Cidades

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Sete Cidades - sítio arqueológico localizado no Norte do Piauí, entre os municípios de Piracuruca e Brasileira - é uma maravilha da natureza. Distante 166 quilômetros de Parnaíba, é um passeio convidativo para quem deseja conhecer um pouco mais da história da região.

No Bom Sossego, nas proximidades da Piscina dos Milagres, na “Primeira Cidade”, vivia com sua família um homem respeitado por suas crenças e curas milagrosas. Seu nome era José Ferreira do Egito, mas quase ninguém o conhecia pelo nome de batismo. Para todos, era apenas Catirina, um velho curandeiro que, um dia, desgostoso da vida por conta da morte da esposa, em 1936, quis se santificar e desencantar Sete Cidades.

Durante oito anos - de 1938 a 1946 -, Catirina resolveu que havia chegado a hora de se santificar. Abandonou a casa e foi viver dentro de uma gruta localizada na “Quarta Cidade”, que hoje, em sua homenagem, recebe o nome de Gruta do Catirina.

Nesse período de tentativa de santificação, Catirina passou a ser venerado pelos moradores de toda a região. Mordida de cobra, quebranto, mau-olhado, bicheira em animais... não havia enfermidade para a qual Catirina não tivesse uma cura.

Enquanto isso, em Parnaíba.

João Filomeno do Nascimento - morador do Macacal e conhecido como Bitoba - era um ferroviário que tinha a fama de não levar sorte com as mulheres. Era só arrumar uma mulher que levava chifre. Por conta dessa má fama, caiu em desgraça e passou a perambular pelo Mercado de Fátima com um corote de cachaça na mão e outro no bolso da bermuda surrada.

Era um morto-vivo.

Em agosto de 1940, Bitoba estava no mercado proseando com sua turma de pés inchados quando chegou um ônibus com um grupo de turistas vindo de Piracuruca, loucos para se melar de areia e se banhar nas águas da Praia da Amarração. Enquanto os turistas matavam a fome com um delicioso caldo do Zé dos Santos, Bitoba fez amizade com Romualdo, motorista do ônibus, a quem, em forma de desabafo, contou sua sina de corno:

- Se avexe não, Bitoba. Lá em Sete Cidades tem um senhorzinho que cura todos os males, do corpo e da alma.

- Homem, deixe de história!

- É verdade. Se quiser, na outra semana eu venho trazer outra tropa de turistas e, na volta, deixo você lá pertinho. Encontrar o curandeiro e retornar para casa é por sua conta. Ah, não venha mamado. Se der trabalho, te deixo pela estrada.

- Pois eu vou! - disse Bitoba.

Mas Bitoba precisava correr contra o tempo. Não tinha dinheiro para a empreitada e vivia da aposentadoria da mãe, depois que foi colocado para fora da Estrada de Ferro.

Resolveu pedir à mãe, mas o aposento mal dava para manter a casa.

Resolveu, então, matar três porcos e vendê-los no mercado.

Dito e feito.

Na quarta-feira da semana seguinte, às cinco horas da manhã, já estava no mercado esperando a carona. Ficou entocado, pois não queria encontrar os amigos pés inchados.

Precisava se manter sóbrio.

Quando o ônibus chegou, a primeira cara que Romualdo viu foi a de Bitoba na porta do veículo:

- Macho véi, daqui vou levar os turistas para Amarração e depois para o Portinho. Faz de conta que tu é um ajudante da empresa. Vamos logo, que da Lagoa é direto para a estrada. Não volto mais aqui.

Bitoba se alegrou.

E lá foram eles.

O ônibus chegou a Piracuruca já escuro, por volta das 19 horas.

- Vou te deixar na rodoviária. Dorme por lá. Não adianta enveredar pela entrada para Sete Cidades numa hora dessas. Pela manhã, tu pergunta o caminho, que todo mundo conhece. Aviso logo: é longe. Caminhada para doido.

Bitoba agradeceu e prometeu a Romualdo um presente: um bacurin que estava engordando. Na próxima visita a Parnaíba, o bichinho estaria à disposição.

Às seis da manhã, Bitoba já estava ralando o pé rumo a Sete Cidades.

Às sete, os pés já estavam em frangalhos, o que deixava a caminhada lenta.

Às oito, finalmente chegou.

Não havia uma viva alma.

Por sorte, ao longe, ouviu o badalar de chocalhos de um fato de cabras.

- Haverá de ter gente por perto! - pensou.

Andou feito um condenado, e o badalar ficava cada vez mais longe.

Finalmente, encontrou um caboclo tangendo as cabras, que lhe orientou como encontrar Catirina.

Não aguentava mais. Agosto, naquela região do Piauí, era de um calor infernal.

Não tinha mais volta. Por obra de Deus, o caboclo das cabras deu-lhe uma cabaça com água para ele ir se hidratando pelo caminho.

E andava...

E parava...

E andava de novo...

E nada de encontrar o velho curandeiro.

- Maldita hora em que conheci o Romualdo! - resmungava.

No desespero, levantou os olhos para o céu e rezou por ajuda. Quando baixou a cabeça para respirar, Raimundo, filho de Catirina, que estava indo para a cidade, apareceu.

Contou-lhe seu desgosto.

Finalmente, Bitoba encontrou Catirina fazendo o desjejum com rapadura e farinha de puba.

Contou seu problema.

Catirina entrou na gruta, colocou algumas ervas num buraco usado como pilão e socou até virar pó. Deu a mistura para Bitoba e recomendou que andasse sempre com aquela moquequinha milagrosa no bolso da calça.

- Não faia! – disse o velho curandeiro.

Debaixo de um jatobá, Catirina fez suas rezas e, depois, um bate-folha na cabeça de Bitoba para expulsar as energias negativas que estavam afastando as mulheres.

Bitoba já nem estava mais preocupado com o problema do chifre. Agora só pensava em como retornar à rodoviária de Piracuruca para voltar para casa.

Às 14 horas, Catirina liberou o paciente.

Por mais uma ação divina, Raimundo viera trazer uma encomenda para o pai e ofereceu uma carona na velha bicicleta.

Cabra de sorte!

O retorno não seria penoso como fora a vinda.

Dormiu a viagem inteira de Piracuruca até Parnaíba.

Já em casa, lembrou-se de que Catirina havia dito ter visto coisa ruim em seu espírito. Era preciso parar com a cachaça. O risco de descer o barranco era grande.

- Não posso morrer ainda! - pensou.

Bitoba mudou completamente de vida.

Foi aos trancos e barrancos na luta contra a cachaça, mas ficou feliz quando percebeu que, apesar de ainda beber, agora bebia com moderação.

A vida de Bitoba melhorava a olhos vistos.

Só uma coisa ainda lhe aporrinhava a cabeça: os únicos bens que possuía - os porcos - haviam sido vendidos para se livrar da sina do chifre. Precisava trabalhar.

Um dia, bem cedo, andava pelo Mercado de Fátima quando avistou o Dr. Waltedes, médico da Estrada de Ferro, comprando verduras na banca da Paula e do Tarciso.

Perdeu a vergonha.

- Dotô, bom dia. Desculpe lhe incomodar.

- Bom dia, Filomeno. Parece bem melhor, mais corado...

- Tô melhor mesmo, dotô. Só me falta agora um trabalho e uma mulher. Larguei a cachaça. O senhor não tá precisando de gente na ferrovia, não?

Dr. Walterdes – homem de bom coração – ficou sensibilizado com o drama de Bitoba.

- Filomeno, vou lhe dar outra chance no trabalho. Mas, quanto à mulher, não posso fazer nada.

- Oia aí, Bitoba, as coisas melhorando! - falou Tarciso, soltando uma gargalhada.

- Obrigado, dotô. Não vou lhe decepcionar.

Uma bela noite, Bitoba foi ao show dos Fevers, no BNB Clube, pertinho de casa. Entre uma música e outra, Bitoba conheceu Gertrudes, morena forte e com cara de quem não fugia ao trabalho.

Antes do final da festa, já estavam trocando juras de amor.

Gertrudes se apaixonou à primeira vista:

- Eu nunca vou te trair, Bitoba! - disse.

Lá vinha a história dos chifres de novo.

Em 1946, o velho curandeiro Catirina faleceu.

Bitoba e Gertrudes - agora casados - mandaram rezar uma missa em homenagem à alma do velho curandeiro que, depois de Bitoba espalhar sua história, ficou afamado no Macacal e até pras bandas do Catanduvas.

Dizem que o pajé curandeiro do boi do Batista foi inspirado no saudoso Catirina.

Bitoba e Gertrudes tiveram dois filhos homens, que hoje trabalham na Marinha Mercante.

Toda noite, Bitoba reza um Pai-Nosso em honra da alma do velho Catirina.

Ao final da reza, diz em voz baixa:

- Devo minha vida a você, velho curandeiro.



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