Mário Boi: Atleta, Professor, Massagista e Médico
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
No início da década de 1980 - antes de eu deixar Parnaíba rumo ao Pará -, assisti a algumas partidas do Parnahyba, tendo Mário Boi como goleiro. Até aquele momento, Boi era apenas um ídolo de um adolescente de 15 anos.
Ainda lembro de alguns atletas daquele elenco do Parnahyba: Boi, Zequinha - zaqueiraço -, Sibiraba - difícil alguém roubar a bola dele -, meu saudoso amigo Louro - com quem joguei na APCEF -, Pereira - um gigante - e Pitanga - Mas rapaxxxx -, que figuraça.
O tempo passou e, pouco antes de eu ir embora de Parnaíba - lá pelos idos de 1982 -, tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.
Estava eu sentado na calçada de casa, com um problema para resolver. Tinha sido convidado para participar de um torneio de futebol pelo time de um carioca que veio morar em Parnaíba e que, por coincidência, estudou comigo no Colégio Visão - ali nos fundos do São Luís Gonzaga. O Visão era mantido pela dupla Xildes e Zé Maria - este, maldosamente, chamado de “Boca de Sacola” e irmão de Lourdinha, minha madrinha.
Era um torneio de tiro-curto e faríamos algumas poucas partidas em um campo de areia então localizado ao lado da atual Universidade Federal do Delta do Parnaíba. Mas também faríamos um jogo preliminar - naquela época existia isso - antes de uma partida oficial do Parnahyba, no Estádio Petrônio Portela, hoje, infelizmente, extinto.
Nunca tinha colocado os pés numa chuteira, e meu Kichute já estava com o bico aberto.
Foi então que aconteceu esse encontro casual. Eu, na porta de casa, e Mário Boi passando de bicicleta pela Avenida Álvaro Mendes, no bairro Nova Parnaíba.
Coincidência ou destino?
Sei lá.
Chamei-o para conversar e contei-lhe meu problema: precisava de uma chuteira número 39 - ou talvez 40 - emprestada para jogar apenas aquela partida no Petrônio Portela.
- Positivo, Neném.
“Neném” é como ele gosta de se referir as pessoas do seu convívio.
Quando retornei a Parnaíba - depois de quase duas décadas fora -, muitos dos meus amigos de futebol já não estavam mais por aqui; muitos eu nunca mais reencontrei.
Infelizmente.
Mas, um belo dia, passeando pela Banca do Louro, na Praça da Graça, reencontrei Mário Boi. Parecia que o tempo não havia passado para ele.
Conversa vai, conversa vem, falei que estava afastado do futebol havia anos e sentia vontade de retornar às atividades. Não estava totalmente fora de forma, pois jogava tênis três vezes por semana, no Pará Clube, em Belém. Como, naquela época, não existia por aqui um local adequado para a prática do tênis, sentia vontade de voltar ao futebol, àquelas peladas com os amigos.
- Neném, aparece lá na AABB. Temos um grupo de amigos que joga futebol society. Vou te encaixar.
Comecei na semana seguinte.
Grupo bom: Léo, Marivaldo, Leca, Paulista... Grandes pessoas de quem ainda guardo a amizade.
Nessa faixa de idade - apesar de ninguém gostar de perder -, o melhor do futebol vinha depois: a resenha. E ninguém fazia uma resenha melhor do que Mário Boi: o atleta, o professor, o massagista, o médico.
Terminado o treino, Boi tomava aquele banho, se perfumava, vestia uma roupa maneira e tirava seu copo de alumínio da pochete.
Copo de vidro nem pensar.
Cerveja gelada, tira-gosto, boa música e confraternização.
Para que mais?
Da AABB, nosso grupo migrou para a APCEF e, depois, parte de nós - inclusive eu - migrou para o grupo de “cinquentões” do União Esporte Clube, grupo capitaneado pelo saudoso amigo Dibar, Paulão, Edson e Juninho.
Foram anos inesquecíveis: muito futebol, resenhas, viagens para amistosos no Ceará e muitas confraternizações.
Infelizmente, a pandemia acabou com o grupo e também com minha disposição para o futebol.
Mas voltemos ao Mário Boi, ou simplesmente “o Médico”, como ele se autointitula.
Mário Boi é uma figura ímpar, dono de muitas histórias vividas vestindo a camisa do Parnahyba e de inúmeras resenhas após se aposentar dos gramados. Contar todas seria praticamente impossível numa crônica.
Melhor seria num livro.
Quem sabe um dia.
Uma das resenhas mais hilárias - e não sei se é fato ou lenda; um dia ainda confirmo com ele - é a do prêmio que teria recebido como destaque de melhor jogador da partida:
- Mário Boi, você foi eleito pela imprensa esportiva como o melhor jogador da partida e, como prêmio, receberá um Moto-Rádio.
- Pois me diga: o que você pretende fazer com esse Moto-Rádio?
- Ora, é simples. O rádio eu entrego pra minha mãe, e a moto eu uso pra ir aos treinos do Parnahyba.
Boi também um dia resolveu se arriscar na política. Foi candidato a vereador por Parnaíba.
Infelizmente, não foi eleito.
Ficou revoltado:
- Todos os meus amigos prometeram votar em mim. Como não fui eleito?
Chegando em casa, contrariado, Boi conversa com a mãe e pergunta em quem ela votou:
- Votei em você, é claro. Escrevi no papel: “Meu filho”.
Naquela época, as eleições ainda não utilizavam urnas eletrônicas.
- Ah, mamãe, então creio que fui roubado. Nem meu voto apareceu.
- E como você colocou no papel, filho?
- Escrevi no papel: “Eu”.
- Pois, com certeza, você foi roubado, filho!
Disputando o Campeonato Piauiense, Boi teria passado por um perrengue e tanto na cidade de Piripiri, após uma confusão envolvendo jogadores do Parnahyba e a torcida adversária.
Segundo relatos, Boi teria escapado da fúria dos torcedores caminhando por cima do muro do estádio. Quando a delegação finalmente se reuniu, Boi já seguia a pé em direção a Parnaíba.
Ele, porém, nega essa história com veemência:
- É conversa do China!
Em 2010, o jornal O Dia, de Teresina, divulgou que Boi - depois de ter sido goleiro, massagista, professor e médico - agora estaria atuando como pai de santo, o “Pai Boi”.
À época, ele pessoalmente me desmentiu a notícia:
- Neném, esse povo inventa muitas histórias a meu respeito. É mentira!
Além de atuar como massagista, Boi também trabalha como professor, mantendo uma escolinha de futebol. Quando ela funcionava nas dependências da APCEF - e celebrando nossa amizade -, coloquei meus dois filhos, Gabriel e Guilherme, para treinar com ele.
Professor rigoroso, prezava pela disciplina. Conversava sempre com os moleques sobre a importância de não abandonarem os estudos.
Já dentro de campo, se algum aluno vacilasse ou deixasse escapar uma bola fácil, lá vinha o grito:
- Paga dez, menino!
Ou seja: teria que fazer dez flexões.
E não havia escapatória.
Mário Boi é aquela pessoa cuja presença se tornou maior do que ele próprio. É natural que, em tais casos, surjam histórias e boatos, especialmente na era das redes sociais.
Mas uma verdade precisa ser dita.
Boi foi atleta e hoje é professor, massagista e médico.
E isso ninguém pode tirar dele.


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