A Grande Reunião do Mercado Municipal

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

O Mercado Municipal de Parnaíba é um local onde muitas normas e regras são estabelecidas para melhorar a vida dos fregueses, dos magarefes e do próprio município.

Nem sempre os nobres magarefes se reúnem para discutir assuntos realmente importantes. Na maioria das vezes, é cada um olhando para o próprio umbigo e defendendo apenas a sua bancada.

Mas, esta semana, aconteceu uma reunião daquelas que só ocorrem de tempos em tempos. Tão importante que cada magarefe tratou de convidar seus fregueses mais fiéis para assistir ao grande debate.

O magarefe Julião, por ser um dos mais antigos e respeitados do mercado, foi escolhido para presidir a reunião que definiria quem ocuparia cada atribuição dentro da estrutura do mercado dali em diante.

Como magarefe não gosta muito de trabalho pesado - salvo raríssimas exceções -, antes da reunião oficial aconteceu outra, bem menor, sem a presença dos fregueses. Nela, grupos de magarefes decidiram quem ficaria com cada função. A reunião pública serviria apenas para apresentar aos presentes e ratificar aquilo que já havia sido acertado nos bastidores.

Julião, velho e experiente, prevendo algum entrevero, resolveu chamar os vigias do mercado.

Vieram todos, cada um com seu cassetete debaixo do braço.

E a providência se mostraria mais do que necessária.

Mal Julião declarou aberta a reunião, começaram os atritos.

O magarefe Toquinho, que nas horas vagas é pastor, resolveu se desentender com Chico Sardinha, um magarefe que já trabalha naquele espaço público há trinta e dois anos.

Ninguém soube explicar direito o motivo, mas o siribolo começou.

- Você, Sardinha, não tem moral para falar. Pensa que eu não conheço teu passado?

- Me respeite, Toquinho. Quer falar de moral? Pois diga aos fregueses quantas gramas você deixa na balança toda vez que pesa um pedido, seu pé de cana.

- Bebo sim, mas é com meu dinheiro! – retrucou Toquinho.

Foi o suficiente.

Os fregueses começaram a cochichar.

- Então quer dizer que esse homem me rouba no peso da carne? E ainda vive falando em Deus? - perguntou dona Santinha, freguesa antiga do mercado.

- É mentira desse safado! - gritou Toquinho.

- Safado é o seu passado. Me respeite!

Julião batia na mesa tentando restabelecer a ordem, mas ninguém lhe dava ouvidos.

Foi quando Zé das Tripas pediu a palavra.

- Senhor Julião, Vossa Senhoria tome as rédeas desta reunião...

Nem conseguiu terminar.

Anísio e Mário, dois dos mais novos magarefes do mercado, avançaram em sua direção.

- Saia desse lado da bancada! Esse lugar não lhe pertence. Você é um traidor!

Ninguém sabia se a raiva entre os magarefes era daquele dia ou de mágoas guardadas havia muito tempo.

Julião pedia ordem.

Ninguém mais lhe dava ouvidos.

As vaias dos fregueses ecoavam pelo mercado, que, naquele momento, parecia mais um cabaré onde ninguém era de ninguém.

- Fora!

- Sai daí, carniça!

- Esse lugar não lhe pertence!

Zé das Tripas bateu o pé e disse que dali não sairia. Depois de muito dialogo, alguns magarefes mais ponderados conseguiram convencê-lo a mudar de bancada.

Mudou.

Mas não sem antes fazer gestos obscenos para os colegas e até para alguns fregueses.

Foi por pouco que o caldo não entornou.

Já tinha magarefe amolando a faca, imediatamente contido pelos vigias.

Enquanto isso, Toquinho continuava igual siri na lata.

Gritava despautérios.

- @#$%&*!

- §@#$%&*!

Parava apenas para beber um gole d'água.

Depois voltava a gritar.

- #%@!&$*!

O pau comia.

Julião, já desesperado, pensava com seus botões:

- Eu devia era estar tomando uma no bar do Genivaldo, e não no meio dessa boca quente.

Mas, como era o presidente da reunião, precisava manter a compostura.

Tentou.

Não conseguiu.

Perdendo a paciência, chamou novamente os vigias.

- Ordem! Ordem! Quero ordem!

Ninguém lhe deu atenção.

Lá pelas tantas, um freguês levantou-se indignado.

- Vocês me convidaram para assistir a essa baderna? Ora, vão todos pro inferno!

Muitos fregueses começaram a abandonar o local.

- Que vergonha! Vou-me embora! - disse Silvinha Gostosinha, freguesa de Zé das Tripas.

Na saída, ainda teve mais confusão.

- Já estou amolando minha faca! - gritou Mão na Faca, famoso vendedor de carne de procedência duvidosa.

Diante de tanto tumulto, Julião bateu forte na mesa e encerrou a reunião.

- Não tem mais decisão nenhuma. Continua valendo o que já tinha sido acertado antes.

Lá do fundo, Maninha dos Bodes ainda protestou:

- E os fregueses? Como ficam?

Julião nem pestanejou.

- Os fregueses que se lasquem. Vamos resolver nossas vidas.

E deu a reunião por encerrada.

Na saída, mais empurra-empurra, mais gritos e mais confusão, tudo devidamente controlado pelos vigias do mercado.

Quem passou por ali naquele dia jurou que nunca tinha visto tamanha bagunça num mercado público.

Mas, na verdade, esses balaios de gatos acontecem com frequência, só que longe dos olhos dos fregueses.

E vocês, fregueses, pensando que eles estão realmente preocupados em melhorar as condições de higiene do mercado, a qualidade dos serviços prestados, a saúde dos seus frequentadores e a educação de todos que fazem parte desse grande mercado instalado no Centro Histórico de Parnaíba...

Sonha.



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