Campo da Mercedes: O Maracanã do Subúrbio
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
A cidade de Parnaíba, no litoral do Piauí, carrega o título de berço do futebol piauiense. Em 1913, Zeca Correia e um grupo de entusiastas fundaram o Parnahyba Sport Club. Quatro anos depois, em 1917, Septimus Clark criou o International Athletic Club. Durante décadas, as duas agremiações protagonizaram uma das maiores rivalidades do esporte local, escrevendo páginas importantes da história do futebol parnaibano, até que o International encerrou suas atividades por volta da década de 1940.
O Parnahyba, por sua vez, resistiu ao tempo. Manteve-se em atividade, conquistou inúmeros campeonatos e torneios estaduais e consolidou-se como um dos clubes mais tradicionais do futebol piauiense.
Com o passar dos anos, muitos outros clubes surgiram em Parnaíba. A maioria - com exceção do Ferroviário Atlético Clube, que disputou a Série B do Campeonato Piauiense em 2022 -, porém, nunca chegou ao futebol profissional.
Todavia, esses clubes foram protagonistas de um campeonato que, à época, rivalizava em prestígio com o certame profissional: o Campeonato Suburbano.
A competição chegou a reunir cerca de 80 equipes e era organizada pela Liga Parnaibana de Desporto, entidade presidida por Prentice Medeiros.
O Suburbano era tão concorrido e prestigiado pelo público que Pedro Alelaf, então presidente do Parnahyba, tentou firmar um acordo com a Liga para que os jogos das duas competições não fossem disputados nos mesmos dias e horários. Muitas pessoas - entre elas meu pai e eu - preferiam assistir às partidas do Suburbano a acompanhar os jogos do futebol profissional.
Na década de 1970 e no início da de 1980, Parnaíba contava com inúmeros campos de futebol de areia, onde, entre outras competições, eram disputadas as partidas do Campeonato Suburbano. Além dos campos espalhados pela zona urbana, como os do São Tarciso, Fabril, Mercedes, dentre outros, havia também os da zona rural, a exemplo do campo do povoado Baixa da Carnaúba.
Meu pai, senhor Chagas, era muito afeito ao futebol suburbano. Quando jovem, segundo meu saudoso tio Zé, foi goleiro do time do povoado onde cresceram, nas proximidades de Viçosa, no Ceará.
As partidas do Suburbano eram realizadas aos finais de semana. Além de ser uma competição amadora - e de os jogadores exercerem outras profissões -, os campos não possuíam iluminação.
Meu pai e eu fazíamos um verdadeiro tour pelos locais onde as partidas eram disputadas. Lembro-me bem do campo da Baixa da Carnaúba, localizado onde hoje funciona uma subestação de energia, e do campo da Mercedes, o Maracanã do Subúrbio.
O campo da Mercedes era o nosso favorito. Além de ficar próximo de casa, era muito espaçoso, o que facilitava encontrar um bom local para acomodarmos os tamboretes que levávamos.
As partidas começavam às 16 horas, mas, por volta das 14, já se formava uma grande aglomeração de torcedores. Aqueles que não levavam bancos, cadeiras ou tamboretes sentavam-se no chão. Os que possuíam motocicletas geralmente assistiam aos jogos sentados em seus bancos, tomando cuidado para não serem atingidos por uma bolada, como presenciei algumas vezes.
O fervilhar de pessoas no Campo da Mercedes atraía também - lógico - os vendedores ambulantes: Dindin, pirulitos, milho cozido, milho assado, algodão-doce... Tinha para todos os gostos.
Meu pai já era muito conhecido e sempre era assediado por esses vendedores. Vinham de todos os lados:
- Vai um Dindin aí, seu Chagas? Tenho de vários sabores, inclusive o de murici, que o senhor tanto gosta.
Mas meu pai gostava mesmo era de milho assado, quase torrado. O Gereba - um desses vendedores ambulantes - não perdia tempo e trazia o milho bem sapecado.
- Prontinho, seu Chagas.
O senhor Didi - que sempre assistia aos jogos perto da gente - ficava preocupado ao ver meu pai comendo um milho torrado daquele jeito.
- Tu vai adoecer, homem!
- Fui criado na roça, Didi. Sou acostumado!
Não tinha como não comprar. Era muita pressão.
Eu gostava - e ainda gosto - de Dindin de goiaba. Ainda hoje, quando vou fotografar os jogos do Parnahyba, no Estádio Municipal, faço questão de comprar com meu amigo Miduin, um ambulante batalhador que conheci na época do União Esporte Clube e das nossas partidas no Verdinho. Até hoje ele não acertou meu nome; só me chama de Valdo.
- Valdo ainda têm três de goiaba. Acabam rápido. Vou reservar pra ti.
Dindin de goiaba é delicioso. Refresca a goela e a memória.
O futebol suburbano era briga de foice no escuro, Jogo pegado, viril, disputado em cada palmo do campo. E a torcida entrava no embalo.
Quando a jogada era disputada nas laterais, a poeira subia. Muitas vezes comíamos areia, literalmente. Torcedores mais afoitos atiravam bandas de laranja chupadas nos jogadores.
Alguns revidavam.
O siribolo estava armado.
Futebol raiz.
Nos lances de perigo de gol, ninguém ficava sentado. Era uma fuzarca. Se o jogador perdia um gol aparentemente fácil, a malhação comia:
- Perna de pau!
- Vai procurar uma rede pra se deitar!
- Vai chutar o cu de uma porca!
Cada xingamento era acompanhado de sorrisos e da irritação dos torcedores rivais.
Mas, quando acontecia o gol - o momento mágico do futebol -, torcedores pulavam, invadiam o campo, abraçavam o jogador...
- Torinha é seleção!
- Craque de bola. Não demora e vai jogar no Parnahyba ou na capital!
Era uma festa.
Quando a partida se aproximava do fim e um dos times estava perdendo, a pressão aumentava. Nesses momentos, joelhos viravam canelas, e os carrinhos dos defensores não escolhiam onde acertar.
- Expulsa esse marginal, juiz safado!
- Tu vai sair daqui debaixo de pau!
As partidas do Campeonato Suburbano eram tão acirradas que muitos juízes apitavam armados. Se fosse uma final, então...
Jesus, Maria, José.
Saía faísca.
Com o passar do tempo e o desenvolvimento imobiliário, os campos de areia foram dando lugar a prédios comerciais e residências.
O Campo da Mercedes - hoje murado - foi interditado pela Justiça para a prática do futebol, em ação movida por moradores que não se conformavam com as bolas ricocheteando em seus imóveis e causando prejuízos.
O futebol suburbano acabou. Os campeonatos amadores de hoje são disputados no Estádio Municipal Pedro Alelaf, a mesma praça esportiva que recebe as partidas do campeonato profissional.
Da década de 1970 aos dias atuais, muita coisa mudou. Algumas mudanças foram para melhor; outras, nem tanto.
Meu velho pai, companheiro de tantas jornadas esportivas, já se foi há muito tempo. Um dia também será a minha vez de partir. É o ciclo da vida. Restaram apenas as reminiscências de um tempo que não volta jamais.


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