Recordações de Belas Tardes de Domingo na Munguba

Bar Recanto da Saudade
📷Bar Recanto da Saudade © Joca Oeiras
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

A primeira vez que fui ao Bar Recanto da Saudade, do saudoso amigo Augusto, e que, no mesmo local, anteriormente e por décadas, funcionou o Cabaré da Munguba, não sei. Mas sei quais foram às últimas, mesmo com alguma imprecisão de datas.

O ano era 1997. Cansado das mesmices de praias aos domingos, resolvi fazer um tour por alguns bairros desconhecidos e outros nem tanto. Uma cerveja aqui, outra acolá, e acabei na Lagoa do Portinho. Lá encontrei alguns companheiros e, entre uma cerveja e outra, me falaram que iriam finalizar o dia na Munguba.

- Você não vem? - perguntou o amigo Davi.

- Chego lá mais tarde - respondi.

Não estava sozinho e não sabia o ambiente que encontraria depois de tantos anos.

Lá se foram eles.

Chegamos ao Recanto da Saudade por volta das 15 horas, mas nossos amigos já haviam seguido para a comunidade do Céu, localizada do outro lado da ponte sobre o rio Igaraçu.

Na antessala, estava Augusto, com seu traje social muito bem alinhado, remexendo numa montanha de discos de vinil. Nunca tinha visto tantos vinis assim na vida. Nem no Jairo Medeiros, onde, vez por outra, eu mandava gravar umas fitas cassete.

A estrutura simples era aconchegante e limpa.

O salão principal estava extremamente organizado, como sempre.

Sentamos numa mesa próxima de uma das janelas, de onde se via a movimentação de idas e vindas das pessoas na Rua dos Barqueiros.

- Cervejinha? - indagou Augusto.

- Só se for Brahma - respondi.

- Temos todas. Trago um copo para a senhora ou ela quer outro tipo de bebida? - perguntou novamente Augusto.

- Dois copos, por favor. Ela bebe até mais do que eu - respondi.

Augusto não aguentou e deu um leve sorriso, acompanhado de um discreto balançar de cabeça. Já sabia que eu gostava de lorotas e nem se aporrinhou.

- Ah, deseja ouvir alguma música em especial? Depois dos pedidos que estão na fila eu coloco a sua - disse Augusto.

- Qualquer brega, desde que comece com "Beleza da Rosa" - respondi.

A seleção musical era escolhida a dedo. Assim como eu, outros clientes pediam suas músicas preferidas. Augusto atendia a todos com rigor e cuidado. Naquela montanha de discos, aparentemente desorganizados, ele sabia exatamente onde cada vinil estava. O zelo com o acervo impressionava a todos. Os vinis permaneciam sempre dentro de sacos plásticos, com as capas em perfeito estado.

Augusto mantinha um código de conduta inegociável. Não aceitava pessoas sem camisa, nem agarra-agarra entre casais.

Vez ou outra implicava com minhas camisas do Flamengo, como bom vascaíno que era.

Mas era tudo na descontração.

Nas paredes era possível ver quadros com belos poemas de autoridades políticas e de poetas que por lá passavam. Lembro-me de um, em especial, de autoria do poeta e imortal Elmar Carvalho, além de um texto do ex-prefeito Mão Santa.

Às vezes não me perdoo por não ter registrado, em fotografias, tantos lugares inesquecíveis por onde andei. Na época, lembro que usava uma máquina fotográfica bem antiga, ainda analógica. Dava trabalho e despesa fotografar tudo e depois revelar. Não era como hoje, quando temos máquinas potentes na palma da mão.

Enfim, voltemos.

Além do traje impecável e da cordialidade ímpar de Augusto, ainda tínhamos a presença de uma senhorinha - cujo nome não lembro - que nos servia deliciosos espetinhos. Eu, particularmente, não consigo degustar uma Brahma sem algum petisco para beliscar. É preciso unir o bom ao agradável.

O espetinho era feito num cantinho do estabelecimento. Outras vezes, o fogareiro era colocado do lado de fora, junto a uma janela, de onde era possível ver a fumaça e sentir o cheiro da iguaria.

O ambiente era todo muito acolhedor. Para chegar ao banheiro era preciso se abaixar, mesmo para uma pessoa de baixa estatura. Mas era limpo, o que é fundamental.

Nesse dia em especial, liguei para um amigo que nunca tinha andado por lá. Depois perdi contato com ele, mas dizem que gostou tanto do lugar que virou freguês. Desconfio dessa história, pois, naquela primeira visita, ele se sentiu um estranho no ninho. Talvez por ter sido criado na opulência e acostumado a frequentar ambientes considerados finos.

Vai saber.

Às vezes ainda passo pelo local para refrescar a memória, na esperança de encontrar o ambiente restaurado depois da partida do amigo Augusto. Não foi. Durou pouco tempo e virou ruínas. Hoje, as ruínas também desapareceram e deram lugar a outro imóvel.

Mas, ao olhar para aquele lugar que o tempo levou, sinto que ele continua ali: em cada canto da minha lembrança, em cada música, em cada palavra que trocamos. O lugar pode ter desaparecido, mas o que ele significou - e tudo o que ali foi vivido - permanece vivo, inteiro, sem nunca se apagar. Porque as verdadeiras lembranças que vivemos e compartilhamos não dependem de um lugar físico específico; elas moram para sempre dentro da gente.

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