Os Comedores de Baleca

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Na década de 1950, lá para as bandas do Floriópolis, existiam dois amigos adolescentes inseparáveis: Chico e Riba. Na verdade, eram mais que amigos; eram parentes de segundo grau. Filhos de famílias humildes, os dois passavam o tempo trabalhando para ajudar nas despesas de casa.

Chico - por ser mais velho - já se arriscava numa canoa velha do pai e adentrava o rio Igaraçu para pescar e catar caranguejos. A produção era pequena, mas ajudava na alimentação de mais seis irmãos menores.

Riba - apesar de um estirão de menino - era cinco anos mais novo e ajudava pouco a família. Mesmo assim, era um exímio atirador de baladeira e conseguia abater alguns pássaros para reforçar a alimentação da casa. Além disso, recolhia estrume em uma fazenda que o povo dizia pertencer à família do Capitão Simplício Dias da Silva. Mas ele não fazia a menor ideia de quem era o figurão; seu interesse mesmo eram os excrementos das vacas e dos bois.

Chico e Riba eram analfabetos. As dificuldades da vida nos anos 1950 praticamente impossibilitavam que os dois frequentassem alguma escola. Naquela época, tudo era longe em Parnaíba. Sem contar que, além da distância, havia a dificuldade financeira, o que deixava a situação dos primos ainda mais calamitosa.

Bastião, pai de Chico, além de uma canoa velha fazendo água, tinha uma bicicleta quase imprestável, que não garantia uma viagem segura até a escola mais próxima. Sem falar que, mesmo velha, a bicicleta era o único meio de transporte que possuía para fazer alguns bicos numa fazenda distante, no Cearazinho, nas proximidades da Lagoa do Portinho.

Chico até tentou aprender as primeiras letras - sem sucesso - com uma professora leiga que morava onde hoje é o João XXIII. Era longe, e ainda era preciso conciliar os horários, já que a velha professora possuía outros alunos.

- Dá para mim não, mãe.

Falava isso para a mãe, enquanto o pai estava mais preocupado com a produção de pescado.

Riba teve até uma chance de estudar, quando foi enviado para morar com um tio que era caseiro de um sítio do outro lado do Igaraçu, na Ilha Grande de Santa Isabel.

Desistiu.

O tio não estava preocupado com sua educação. Na verdade, queria apenas mais força braçal para ajudar na capina do sítio. Dois meses foram suficientes para o menino fugir, pegando carona numa canoa para atravessar o rio e empreender uma longa viagem até o Floriópolis.

Além do cansaço da viagem, Riba ainda levou uma surra.

Como a mãe iria avisar ao irmão que o moleque estava em segurança em casa? Complicado. O tio estava se lixando; tinha problemas demais no sítio para cuidar.

Nas poucas horas vagas, os amigos encontravam tempo para pequenas brincadeiras e travessuras. Uma das preferidas era acoitar balecas de um fazendeiro que mantinha seus animais pastando livremente nas proximidades do Campo de Aviação do Catanduvas.

- Bora lá, Riba, dar uns pegas nas balecas? A hora é essa.

- Vambora, rápido, antes que minha mãe dê falta de mim. Ainda está zangada porque eu fugi.

A caminhada era longa.

Riba, apesar de mais novo, era o mais ouriçado.

- Meu primo, olha lá as meninas.

Dizia ele, referindo-se às balecas.

Nesse dia, porém, surgiu uma dificuldade: os animais estavam dentro de um alagadiço.

- Deixa comigo, Riba. Vou lá com a corda e amarro a minha e a tua.

Riba estava na secura. Água até a altura dos joelhos não o impediu de ir para cima da sua "menina", como dizia. Mas, ao passar a mão pelo animal, percebeu que alguma coisa estava errada.

- Meu primo... isso é um jumento!

- Vixe, meu primo! Peguei o animal errado!

Chico caiu na gargalhada.

Mas animal era o que não faltava. Terminou o serviço e foi buscar outra para o primo, certificando-se, dessa vez, de pegar o animal certo.

- Vem, Riba. Tua menina te espera.

Os dois caíram na gargalhada.

E assim seguia a vida dos amigos: trabalho, trabalho... e, nas poucas horas vagas, passavam o tempo acoitando balecas.

Foram uma vez...

Duas...

Três...

Tudo corria normalmente na vida dos moleques.

Até...

É isso mesmo que vocês estão pensando.

Um dia a casa cai.

E caiu.

O caboclo que tomava conta dos animais já vinha percebendo as investidas dos moleques.

- Um dia eu pego esses balequeiros.

Pensou consigo mesmo.

Numa bela manhã, lá estava Riba fazendo juras de amor para sua "menina".

- Vou lhe trazer um presente. Ainda não sei o quê, mas vou trazer.

Chico era ligeiro no gatilho e já tinha terminado o serviço.

Riba era sempre o retardatário.

- Bora, maluco! Bora aberar!

- Ainda não terminei.

Nesse momento, o caboclo chegou sorrateiramente com um capa-bode na mão e disse:

- Dá pelo menos um feixe de capim para ela, cabra sem-vergonha!

A correria foi grande.

As lapadas cortavam o vento fresco daquela manhã.

- Tchá!

- Tchá!

Mas nenhuma, felizmente, acertou o couro do moleque.

Se pegasse - e ele estava sem camisa - o estrago seria grande.

- Vem cá, fi da peste!

- Volta aqui de novo, amaldiçoado!

Os primos saíram do matagal e foram na tubada rumo de casa, desviando pelo Macacal para não revelar onde moravam.

Corriam tanto que os pés batiam na bunda.

Pense num desassossego grande.

Chegaram em casa esbaforidos.

- O que foi isso, meninos? Viram assombração?

Perguntou dona Santinha, mãe de Chico.

- Não, mãe. Estávamos apostando corrida.

- "Cunversa". Coisa boa vocês dois não estavam fazendo.

Retrucou Santinha.

Só depois que a poeira baixou foi que Riba percebeu que tinha deixado à camisa em cima da baleca.

Prejuízo.

Riba tinha apenas quatro camisas e os pais, com certeza, sentiriam falta.

Chico, mais velho e mais sagaz, inventou de pronto a desculpa.

- Diz que a camisa enganchou no arame da fazenda quando tu estavas pegando as bostas dos bois e que não tinha mais conserto.

- Tomara que cole.

Resignou-se Riba.

Não sei dizer se Chico e Riba tiveram coragem de voltar a importunar suas meninas.

Sinceramente...

Acredito que sim.

Culumim não aprende lição de vida tão facilmente.

Com o passar dos anos, Chico e Riba seguiram caminhos diferentes. Chico, infelizmente, faleceu em um sítio onde trabalhava como caseiro, no Joaz Souza. Riba cursou o Supletivo e descobriu o gosto pelos livros. Foi, durante muitos anos, vigia da Prefeitura e hoje vive de forma simples, sustentado pela aposentadoria, no Conjunto Dom Rufino.



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