O Fusca, a Lambreta e a Rapariga
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Adauto Vasconcelos era um pequeno produtor rural que possuía um sítio localizado próximo aos fundos do atual Leite Longá.
Criava algumas vacas leiteiras, de onde tirava boa parte do seu sustento. Além disso, possuía um terreno no Tabuleiro, onde complementava a renda com a extração da palha de carnaúba.
Adauto era sovina ao extremo. Nunca constituiu família, e poucas pessoas o conheciam pelo verdadeiro nome. Ficou famoso mesmo como "Amigo da Onça", numa alusão ao famoso personagem criado pelo cartunista Péricles Maranhão.
Possuía dois veículos velhos: um Fusca, usado apenas para o lazer, e uma Rural, utilizada na lida e na entrega de leite para a Cooperativa Delta.
Apesar de ser "mão de vaca" com seus colaboradores, Adauto era mão aberta para as raparigas dos cabarés por onde andava.
Era um raparigueiro profissional.
No cabaré Beleza da Rosa, era tratado como um rei, apesar de ser um homenzinho de apenas 1,50 metro de altura, muito magro e feio, mais feio que briga de foice no escuro.
Naquele cabaré, Adauto tinha uma rapariga exclusiva: Regina. Deusulivre de chegar lá e encontrá-la nos braços de outro homem.
Numa noite, estava no cabaré Rio Chic, localizado na Coroa, hoje bairro do Carmo. Entre uma bebida e outra, ouviu de um frequentador, também assíduo dos cabarés da Parnaíba, que Regina tinha um amante e saía com ele todas as segundas-feiras, dia de folga das raparigas.
- Compadre, a Regina toda segunda sai com um policial.
- Cunversa homem, não me conte uma mentira dessas! - retrucou Adauto, exaltado.
- Não é mentira, não. Vá lá na segunda-feira para tirar a prova.
- Vou mesmo. E, se for mentira, vai sobrar para ti.
- E digo mais: ela sai todas as segundas com outro homem e ainda é de graça. O cabra é policial militar, um morto de fome, mas as raparigas dizem que ele tem "borogodó".
- E que diabo é borogodó? - perguntou Adauto, vermelho de ódio.
Mas não obteve resposta. O fofoqueiro já estava dançando com uma rapariga e nem lhe deu ouvidos.
"Vou tirar essa história a limpo. Ainda mais com um policial lascado", pensou.
Aquilo aconteceu num domingo. Adauto passou a segunda-feira inteira cuspindo marimbondo.
Às sete da noite, chegou ao cabaré e foi logo perguntando:
- Cadê a Regina?
- Sei dela, não - respondeu a madame.
- Saiu cedo com o policial Alfredo - revelou uma rapariga invejosa, louca para roubar o cliente da amiga.
- Foram tomar banho de mar na Amarração.
- Banho de mar à noite? - espumou de raiva Adauto.
- Sim. Foram na lambreta do Alfredo.
Adauto ficou possesso. Estava sendo trocado por um policial lascado que andava numa lambreta velha. Aquilo não tinha perdão.
- Bota uma dose de Serrana para mim. Copo cheio.
Virou tudo de uma vez.
- Outra!
Mais outra...
Já trocando as pernas, entrou no Fusca e rumou para Amarração.
"Hoje eu pego essa filha da peste."
Naquela época, as leis de trânsito eram bem mais brandas do que as atuais.
Adauto passou pelo posto quase fantasmagórico da Polícia Rodoviária Federal numa velocidade enorme. O Fusca balançava, parecia que iria se desmontar a qualquer momento.
O único policial que viu a marmota ainda tentou anotar a placa.
Não conseguiu.
"Na volta eu pego esse doido", pensou.
Chegando à Amarração, avistou o casal num brega próximo ao porto pesqueiro, no centro de Luís Correia.
Regina gelou.
"Fui dedurada."
- Calma, bebezinho...
- Traidora! Calma é o diabo! Hoje tu apanha! Tu e esse lascado!
O policial levantou-se da cadeira já com um punhal na mão.
Naquela época, a arma da corporação permanecia no quartel quando o policial estava de folga. Alfredo não tinha dinheiro para possuir uma arma particular.
- Respeita a polícia, vagabundo!
Adauto puxou o três-oitão, mas Regina agarrou-se a ele e a arma acabou caindo no chão.
Quando percebeu, o policial já o havia levantado pelo colarinho.
Sem a arma, Adauto ficou completamente indefeso. O policial nem precisou usar a faca.
Adauto levou duas bofetadas no pé do ouvido.
O policial montou na lambreta e foi embora, deixando Adauto estirado no chão e Regina para trás.
- Meu bem, acorda...
- Eu te amo. Foi um erro meu. Me perdoa...
Adauto se levantou, empurrou Regina, procurou a arma e já ia embora. Pensou melhor e resolveu perdoá-la.
- Mas só desta vez.
- Juro! Juro por Deus, bebezinho!
Feitas as pazes, resolveram continuar bebendo por ali até altas horas.
Por volta das três da manhã, o casal de pombinhos deixou Luís Correia rumo a Parnaíba. Adauto estava completamente bêbado.
De longe, o policial rodoviário avistou apenas uma luz. Pensou que fosse uma moto, pois somente um dos faróis funcionava.
Esperou.
Desta vez, o Fusca vinha se arrastando. Foi presa fácil.
- Ora, ora... O que temos aqui?
- Saiam do veículo!
Outro policial aproximou-se.
- Vamos fiscalizar tudo.
Depois de uma longa inspeção, os policiais encontraram um farol queimado, luz de freio queimada e descobriram que o Fusca possuía apenas a placa dianteira.
O policial perguntou:
- Cadê a placa traseira do veículo, cidadão?
Adauto mal conseguia se manter em pé.
O policial repetiu:
- Cadê a placa traseira do veículo, cidadão?
Adauto, já sem paciência, respondeu:
- É a mesma da frente, seu filho de uma ronca e fuça! Tu é burro?
Os policiais imediatamente deram voz de prisão.
Adauto estrebuchou.
- Algema nele! - gritou um dos policiais.
Com a ocorrência encerrada, seguiram para a Central de Flagrantes. Regina ainda tentou resolver a situação de outro jeito, mas não houve acordo.
O Fusca, além de todas as irregularidades, não possuía documentação.
- Esse nunca mais sai do depósito... - disse um dos policiais, sorrindo.
Na manhã seguinte, a notícia já corria pela Rádio Peão. O frenesi foi enorme nos cabarés de Parnaíba. Uns diziam que Adauto tinha sido preso por ciúmes; outros juravam que fora por desacato; e havia ainda a versão, plantada pelo próprio Adauto, de que a prisão acontecera porque o "Amigo da Onça" deixara um policial militar estirado no chão, lá pras bandas da Amarração.
Mas quem o conhecia sabia que o maior castigo não foi passar uma noite na cadeia. O que mais lhe doeu foi perder seu velho companheiro de raparigagem: o Fusca.
Adauto tentou de tudo. Primeiro procurou um dobreiro que vendia carros nas proximidades da Parnauto. Diziam que ele tinha "peixes" no Detran.
Não deu certo.
Depois foi aconselhado a procurar um político influente. Quem sabe Mão Santa ou outro que tivesse prestígio junto ao Governo do Estado.
Foi atrás.
Ouviu apenas promessas.
- Um dia esses cabras ainda me pagam... - dizia, roxo de raiva.
Como diz o velho ditado, não há mal que dure para sempre.
Passado algum tempo, Adauto comprou outro fusquete com o amigo dobreiro, adquiriu um sítio próximo à Lagoa do Portinho e retirou Regina do cabaré. Os dois passaram a viver juntos até a morte dele.
Não tiveram filhos. Adauto era miserável demais para dividir o que tinha, até mesmo com herdeiros.
Anos depois, morreu vítima da AIDS. Na época, comentava-se que teria sido uma das primeiras vítimas da doença em Parnaíba.
Regina acabou tirando a sorte grande. Viúva e ainda jovem, trouxe o policial Alfredo para morar com ela e usufruir da herança deixada por Adauto.
Na Rádio Peão, porém, a conversa era outra. Diziam que, depois de morto, o "Amigo da Onça" nunca encontrou sossego. Afinal, Regina conseguiu traí-lo pela segunda vez.
Vai saber...


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