Eu Vi a Morte e Ela Estava Sorrindo
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| 📷Praça da República - Belém - Pará © Walter Fontenele |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Lá pelos meus 15 anos, eu tinha uma visão da morte bem diferente da que tenho hoje, aos 61.
No meu bairro, havia um serviço de amplificadora - muito comum na década de 1970 e ainda presente em muitas cidades pequenas Brasil afora. A nossa ficava instalada em frente ao comércio do João Aleijado e era o principal meio de comunicação da comunidade. Com sua potência, os anúncios eram ouvidos em boa parte da região.
Transmitia de tudo: propaganda do comércio, avisos sobre a passagem do carro do gás, recados diversos e comunicados de interesse público. Mas havia um tipo de anúncio que marcou aquela fase da minha vida e, acredito também a de muitos outros meninos da minha idade: os comunicados de falecimento.
Eles eram inconfundíveis.
Tudo começava com os primeiros acordes de Il Silenzio, de Nini Rosso.
Bastava à música tocar para o bairro inteiro ficar em silêncio.
- Será que é algum conhecido ou algum parente? - perguntava minha mãe.
- Ana Maria, presta atenção no anúncio! - gritava ela para a vizinha.
Os comunicados sempre exaltavam as qualidades do falecido.
Era um bom homem, trabalhador, bom pai de família, honesto...
Ou então uma mulher séria, boa esposa, boa dona de casa, boa mãe...
Quando era um jovem, era estudioso, trabalhador e bom filho.
Era natural que fosse assim. Afinal, ninguém enviava um comunicado de falecimento para ouvir os defeitos de quem acabara de partir.
Mas bastava a “boca de lobo” se calar para começarem as conversas entre os vizinhos.
- Já foi tarde...
- Não era tudo isso que falaram dele.
Nada mais humano.
Todos nós temos qualidades e defeitos.
Muitos anos depois, já morando em Belém, passei a fazer diariamente o percurso entre o ponto de ônibus e o apartamento onde morava, a poucos metros da Praça da República.
Fiz aquele caminho centenas de vezes.
Na praça existia um Box da Polícia Militar. Hoje, no mesmo local, funciona uma banca de revistas.
Naquele fatídico dia, eu caminhava distraído quando passei em frente ao Box. A cerca de dois metros de mim, um policial limpava o seu revólver calibre 38.
Ninguém percebeu.
Até que veio o estampido.
Foi um único tiro.
Naquele instante, eu não fazia ideia do que havia acontecido. Apenas ouvi um grito abafado de dor e continuei andando, como se nada tivesse acontecido.
Só cerca de trinta metros depois foi que percebi o que ocorrera.
Passei as mãos pelo corpo procurando sangue. Pensei que pudesse ter sido atingido sem perceber.
Não havia nada.
Olhei para trás.
Foi então que vi a movimentação.
Uma mulher, da minha altura, caminhava exatamente ao meu lado quando o disparo aconteceu. A bala atingiu seu lado esquerdo, pouco abaixo da axila.
Naquele instante compreendi uma coisa.
Se ela não estivesse ali, muito provavelmente o tiro teria me acertado.
Ela havia servido, sem querer, de escudo para mim.
Voltei.
A mulher já estava caída.
Os policiais tentavam socorrê-la enquanto outro acionava o resgate.
Um pequeno círculo de curiosos começava a se formar.
O sangue já manchava o calçadão da Praça da República.
A princípio imaginei que fosse apenas um ferimento superficial.
Não era.
A bala havia atravessado a lateral do corpo e atingido a região do coração.
Enquanto aguardávamos o socorro, comecei a conversar com algumas pessoas.
- Acho que essa bala era para mim - disse a um senhor que estava ao meu lado.
- É uma irresponsabilidade limpar uma arma carregada desse jeito! - gritou alguém.
- Estão esperando ela morrer? Coloquem-na num táxi e levem para o Socorrão! - indignou-se uma senhora.
- Precisamos esperar o resgate - respondeu um policial.
No meio daquela confusão, o senhor que ouvira meu relato olhou para mim e disse calmamente:
- Meu filho... hoje você viu a morte. E ela estava sorrindo.
Nunca mais esqueci essa frase.
Na década de 1990 já existia internet em Belém, mas apenas nas universidades. Como morava perto da praça e havia várias bancas de jornal por ali, passei três dias seguidos comprando os jornais da cidade à procura de alguma notícia sobre o ocorrido.
Não encontrei uma única linha.
Dias depois, um lavador de carros que trabalhava em frente ao local me contou que a mulher havia morrido ainda na ambulância.
Nunca consegui confirmar essa informação.
Talvez seja verdade.
Talvez não.
O que sei, com absoluta certeza, é que naquele dia passei perto demais da morte.
E, como disse aquele senhor, ela olhou para mim...
E sorriu.


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