Lampião, o Carroceiro Que Sonhava Ser Empresário
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| 📷Porto das Barcas © Walter Fontenele |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Esta é uma obra de ficção. Embora dialogue com acontecimentos e personagens que possam parecer familiares, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
João Aderbaldo da Silva – mais conhecido como Lampião, em alusão ao temido cangaceiro – era de uma família humilde dos Tucuns. Filho de pai e mãe analfabetos, Lampião teve poucas oportunidades de desenvolver apreço pelos livros. Desde tenra idade, tinha como principal objetivo ajudar no sustento da numerosa família. Até tentou frequentar a escola, mas sua valentia com os colegas – daí o apelido – era motivo de apreensão para os educadores e de recorrentes expulsões das escolas por onde passava.
Todavia, Lampião tinha algo dentro de si que o impulsionava a seguir em frente. Alimentava constantemente o sonho de se tornar um rico empresário. Naquela idade, não sabia exatamente o que significava ser empresário, mas, como todos os ricos da cidade eram empresários, ele também queria ser. Passava horas imaginando como o filho de um carroceiro, de uma lavadeira que passava o dia no Rio Igaraçu lavando roupa para fora e ele próprio, já ajudante de carroceiro, sem qualquer instrução, poderia um dia se tornar um homem rico.
Quando tocava no assunto com a mãe, era imediatamente repreendido:
- João, tira isso da cabeça, meu filho. Quem nasce pobre morre pobre.
- Olha pra nós. A gente trabalha feito condenado e vive na pobreza. Tu já viu algum rico morando na beira desse rio sujo e maldito?
Lampião foi crescendo e, com ele, cresceram também as dificuldades.
Com a morte repentina do pai, assassinado em um bar próximo ao Mercado da Quarenta, a situação da família se agravou. A mãe já não conseguia trabalhar como antes e passou a selecionar os serviços, ficando apenas com os clientes que pagavam pelas lavagens sem choradeira.
Algum tempo depois, a mãe voltou ao assunto:
- João, tua mãe tá velha. Minhas costas não aguentam mais passar o dia de cócoras naquele cais.
- Deixa de pensar em riqueza e vai atrás de mais frete.
Com a morte do pai, herdou apenas uma carroça velha e um cavalo que parecia estar com os dias contados.
Como havia poucos fretes, o sonho de virar empresário ficava, a cada dia, mais distante.
Mas sua sorte estava prestes a mudar.
Por volta de 1980, Parnaíba entrou numa fase de crescimento urbano vertiginoso. A cidade já não se resumia ao núcleo central e começava a se expandir em direção ao Portinho.
Naquele mesmo ano, um novo conjunto residencial começava a ganhar forma. De uma hora para outra, Lampião passou a ser procurado para fazer pequenas mudanças para o novíssimo Conjunto IPASE.
Ficou boquiaberto com as primeiras construções.
- Quero morar aqui - disse para si mesmo.
A cada nova mudança, tornava-se mais conhecido entre os ainda poucos moradores do conjunto. Passou a ganhar mais dinheiro e pôde ajudar melhor nas despesas da casa.
Quando completou dezessete anos, perdeu a mãe. A velha senhora ainda foi levada para a Santa Casa, mas seu estado de saúde era irreversível. Justo quando as coisas começavam a melhorar, a vida lhe deu outra rasteira.
Não teria como sustentar sozinho os dois irmãos e as três irmãs.
Felizmente, foi socorrido por uma tia solteira, que havia visto apenas uma única vez.
Ficou aliviado.
A tia levou as três meninas.
- Graças a Deus que minha velha tia tem terminação - pensou.
Lampião ficou, então, com os dois irmãos menores, um de nove e outro de dez anos, que, seguindo a sina da família, também não frequentavam a escola.
O mais velho começou a ajudá-lo na lida. Já o caçula era um moleque arisco que fazia miséria no campinho improvisado, o que lhe rendeu o apelido de Pelezinho, além de ser um exímio pescador. Sua habilidade com linhas e tarrafas passou a garantir um alívio nas despesas do que restava da família.
Certo dia, durante um frete, ouviu o dono da casa conversando com a esposa:
- Meu patrão é um pão-duro danado. Quase chora quando tem que pagar alguém. Eu não sei viver desse jeito.
- É por isso que ele é um rico empresário - respondeu a esposa.
Lampião arregalou os olhos. Nunca mais tirou aquela conversa da cabeça.
A partir daquele momento, concluiu que todo empresário era miserável e que, se quisesse ser um deles, teria de agir da mesma forma.
Mudou completamente de vida.
Parou de frequentar os cabarés, deixou de beber e até de comprar roupas. O único dinheiro que gastava era com comida - afinal, não podia morrer de fome - e com a manutenção da carroça, da qual cuidava com o mesmo zelo que o senhor Anísio, proprietário de um armazém na beira-rio, dedicava à sua Brasília.
Com o passar do tempo, percebeu que ser miserável estava dando certo. Sua carroça chamava atenção por onde passava. Era toda arrumadinha e tinha até toca-fitas.
O próximo passo era tornar-se empresário.
Resolveu ampliar a frota.
Comprou outra carroça e mais um cavalo velho, colocando o irmão, já com quinze anos, para trabalhar.
Ao colocar o irmão para trabalhar, fez questão de deixar claro:
- O patrão sou eu.
Lampião ainda não era rico, mas já batia no peito e dizia, em alto e bom tom, que era empresário.
E, de certa forma, tinha razão.
Apesar de não possuir grandes armazéns como os da beira-rio nem uma firma registrada, era, na prática, um pequeno empresário, o que chamamos hoje de empreendedor.
Um belo dia, com a aproximação de mais uma eleição municipal, Lampião conheceu um líder político que não tinha influência nem dentro da própria família e passou a se envolver com os homens fortes da política local.
Coitado.
Num piscar de olhos, transformou-se em presidente do Sindicato dos Carroceiros, sindicato que nem existia no papel.
Tanto fazia.
Todas as noites, antes de dormir, dizia ao irmão, seu único empregado:
- Já sou empresário e líder dos carroceiros. Agora só falta eu ficar rico.
O irmão, todo dolorido da lida, apenas virava de lado e adormecia.
Durante as campanhas eleitorais, Lampião - que, àquela altura, proibia qualquer um de chamá-lo pelo apelido - enfeitava suas duas carroças com cartazes dos candidatos de estimação. Os dois pobres animais ainda eram adornados com fitas nas cores do partido.
Nem os cavalos velhos escapavam de passar vergonha.
Lembram-se do Pelezinho?
Pois é.
O moleque, agora com quatorze anos, foi convidado para jogar futsal pelo time de uma empresa rica do Porto das Barcas. Apadrinhado pelo próspero empresário, foi matriculado na escola e ganhou um emprego de faz-tudo na firma.
Lampião - ou melhor, João - vibrou de alegria:
- Menos uma boca para eu sustentar.
Aos vinte e cinco anos, João começou a perder as esperanças de ficar rico.
Sua vida como "líder" político ia de mal a pior.
Todos os candidatos que apoiava, ganhando ou perdendo a eleição, saíam mais ricos do que já eram, enquanto ele continuava marcando passo, sem conseguir alcançar o mínimo de prosperidade que tanto desejava.
Até o status de empresário perdeu.
Seu irmão, incentivado pela namorada, colocou-o na Justiça e acabou ficando com a carroça e o cavalo velho como parte do acordo.
- Pelo menos ele foi morar com a rapariga em outro barraco. Uma boca a menos - resignava-se João.
Tomado pela tristeza do fracasso, João se entregou definitivamente à bebida.
Embriagado, sentava-se no cais do Porto das Barcas e olhava para o céu estrelado. Por um momento, sentia-se feliz pelos irmãos: seu ex-funcionário levava uma vida humilde, igual à do pai; Pelezinho aprendera a ler e agora jogava no Parnahyba Sport Club. Diziam até que um grande clube do Ceará havia feito uma sondagem para contratá-lo.
Vai saber.
Já perdendo os sentidos por conta da cachaça, João lembrava-se das palavras da mãe, ditas muitos anos antes:
- João, tira isso da cabeça. Quem nasce pobre morre pobre.


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