Valtércio, o Babão
![]() |
| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Esta é uma obra de ficção inspirada em fatos reais. Embora dialogue com acontecimentos e personagens que possam parecer familiares, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
Valtércio – vamos chamá-lo assim – é uma pessoa que conheci há alguns anos em Parnaíba. Apesar de possuir um bom nível educacional, não vê problema algum em baixar o nível e usar linguagem chula na hora de defender o seu "Rei" – já morto e posto – e sua "Rainha", que, a princípio, aceitou a contragosto.
Apesar de viver da política e para a política, Valtércio nunca quis se arriscar ao escrutínio das urnas.
- Deusulivre! - disse certa vez.
É compreensível, pois voto é um bicho difícil de conquistar e, mais difícil ainda, de comprar. Neste último caso, é preciso dinheiro e certa malandragem para não jogar dinheiro fora. Mesmo que o dinheiro não saia do seu bolso, mas dos cofres públicos, é preciso saber investir.
Pois bem.
Valtércio, apesar de ser quase um sociopata, solta a língua nas redes sociais – às vezes usando perfis falsos – para defender, muitas vezes, o indefensável. Adora mentir para si mesmo, achando que suas postagens possuem alguma relevância.
- Nem fede nem cheira - disse certa vez uma internauta.
- Eu não entendi nada do que ele escreveu - comentou Arlinda, uma internauta que prefere mensagens em áudio a textos.
- Arlinda, tu és uma analfabeta - retrucou Valtércio.
O pau cantou. Valtércio, com pouca popularidade nas redes, apanhou de todos os lados.
- Como pode um cabra desse falar assim da Arlinda? Arlinda é nossa líder comunitária e trabalha por nós, seu idiota! - esbravejou outro membro do grupo "Quer Treta, Aqui é o Lugar".
Cansado de apanhar, Valtércio largou o Zap-Zap e foi lamber os ovos do seu chefe no Instagram, que ele chama carinhosamente de Insta.
Mas aquele dia, em específico, não era propício à sua função. Era um dia morto; não havia nenhuma "boa ação" a ser exaltada. Valtércio é inteligente, isso ninguém pode negar. Imediatamente, vasculhou o Insta da Rainha e encontrou postagens fofas, como ele mesmo as descreveu, de um pet desfilando pela borda da piscina.
- Uau! Até eu, que não gosto de cachorro, fiquei apaixonado pelo caminhar desse pet - escreveu no Insta.
Não satisfeito, Valtércio fez ainda alguns comentários monossilábicos:
- Maravilhoso!
- Elegantíssimo!
E completou com uma frase mais longa:
- Digno de uma rainha.
Finalizou a publicação com inúmeros emojis de coração.
Todavia, em um belo dia de incertezas, Valtércio viu seu cargo de babão-mor ameaçado.
Três semanas. Esse foi o tempo em que seu Rei e sua Rainha o esqueceram. Deixaram-no jogado num canto da casa e, ainda por cima, ele levou um cagaço, sendo considerado um dos culpados pelos momentos de instabilidade política.
Com pouquíssimos amigos nas redes, Valtércio começou a postar ofensas aos antes inoxidáveis patrões. Mas não o fazia abertamente. Usava perfis falsos, pois ainda tinha esperança de que as coisas voltariam à normalidade. Ledo engano.
Valtércio percebeu que, nesses momentos de tribulação, o melhor mesmo era o esquecimento. Viajou, foi desopilar, tomar um banho de civilidade, como depois confessou.
Justo. Justíssimo.
Mas as redes sociais são cruéis. Seu perfil no Insta – antes um deserto – recebeu uma enxurrada de ofensas.
- Aqui se faz, aqui se paga - desabafou Arlinda.
- O babão agora tá urrando. Acabou o dinheiro? - questionou outro integrante da associação de moradores.
- A tua rainha virou pó, baba-ovo? - provocou outro babão, só que do lado contrário.
Era muita humilhação, pensou ele.
Preferiu trancar os perfis e sumiu. Alguns poucos ficaram preocupados com seu desaparecimento repentino.
Um mês, dois meses, três meses... Valtércio parou de dar sinais de vida. Eu mesmo fiquei preocupado.
Mas, um belo dia, uma postagem abalou os alicerces do Insta. Valtércio publicou um texto com todo o rigor literário, bajulando outro Rei, aquele que antes criticara e chamara de vagabundo.
E não ficou por aí.
O novo Rei também tinha uma Rainha. Choveram elogios.
- Linda!
- É um must!
- A mais linda de todas.
De uma hora para outra, os haters de Valtércio passaram a elogiar suas postagens, enquanto os agora ex-aliados metiam o cacete.
- Traidor!
- Mau-caráter!
- Ordinário!
- Judas!
Valtércio sentiu-se abraçado por seus novos "amigos". Suas postagens atacando o seu outrora Rei cessaram.
Valtércio sabe muito bem – e sofreu isso na própria pele – que, na política, tudo é passageiro. Preferiu calar-se – ou postar, com pouca ênfase, sobre os erros dos outrora patrões –, pois sabe que, ao sabor do vento, poderá ser destituído do título de babão-mor do novo Rei.
Isso seria o fim. Não suportaria dois baques desse tamanho em poucos meses.
A última notícia que tive de Valtércio – pois ele deixou de me seguir nas redes sociais – é que havia incentivado a nova Rainha a comprar... Comprar, não. Isso é politicamente incorreto. A adotar um pet.
- Seria o máximo! - disse ele.


Deixe Seu Comentário