O Cinema dos Meus Tempos de Menino

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Na década de 1970, em Parnaíba, as opções de lazer – pelo menos para mim e para tantos outros meninos entre 12 e 15 anos – eram bastante reduzidas. Nossa rotina resumia-se a casa, escola; escola, casa. O tempo livre ficava dividido entre as lições, as aulas de educação física e algumas estripulias pelas ruas do bairro.

A televisão já havia chegado a algumas casas da vizinhança, inclusive à nossa. A primeira que compramos era um trambolho gigantesco que, por ser à válvula, levava de 10 a 30 minutos para aquecer e, finalmente, aparecer a imagem, ainda em preto e branco.

Um belo dia surgiu no bairro um vendedor de porta em porta oferecendo uma tela que prometia transformar a imagem em cores.

Foi uma correria.

Minha mãe comprou na mesma hora.

Pura enganação.

Não passava de um plástico dividido em três faixas: azul na parte superior, transparente no centro e verde na parte inferior. Uma verdadeira porcaria.

Naquela noite, meu pai acomodou-se em sua preguiçosa para assistir ao programa do Flávio Cavalcante.

- O que é isso? - perguntou.

Depois de uma rápida explicação da minha mãe, ele simplesmente retirou a geringonça da frente do aparelho e a jogou para debaixo do móvel.

- Isso não serve para nada! - esbravejou.

Naquele tempo, as casas praticamente não tinham muros, e todo mundo sabia da vida de todo mundo. Antes de comprarmos nosso televisor, eu me juntava à molecada para assistir à televisão pelas janelas das casas dos vizinhos mais abastados. Havia mais telespectadores do lado de fora do que dentro das casas.

As janelas viviam apinhadas de meninos. À medida que a televisão foi se tornando mais comum, aquela multidão foi desaparecendo. Não apenas porque quase todas as famílias já tinham um aparelho, mas porque a novidade havia perdido o encanto.

Outra novidade – que já existia na cidade desde 1924, mas ainda estava distante da nossa realidade – era o cinema.

Assistir a um filme em um cinema era o sonho de consumo de qualquer culumim.

Parnaíba já possuía algumas salas de exibição. A mais popular, porém, era o Cine Theatro Éden, instalado num prédio imponente da Praça da Graça, bem perto de casa.

O Éden praticamente monopolizava a vida e o convívio social da sociedade da época, mesmo Parnaíba já contando com outros cinemas em funcionamento. Sua localização privilegiada, na Praça da Graça, outro importante ponto de entretenimento da cidade, elevou-o à condição de um lazer que todos desejavam experimentar, nem que fosse uma única vez.

Não eram tempos fáceis. Meninos da nossa idade tinham pouca liberdade para sair sozinhos, e comigo não era diferente. Ir ao cinema exigia uma verdadeira negociação familiar. Era preciso convencer meus pais a dar o dinheiro do ingresso e, se possível, algum trocado para comprar bombons. Além disso, era necessário encontrar um parente mais velho que servisse de acompanhante. Ir sozinho estava fora de cogitação.

As poucas vezes em que fui ao cinema aconteceram na companhia da minha irmã ou de uma prima mais velha que morava perto de casa. Quando a família dispunha do carro, íamos motorizados. Na maioria das vezes, porém, fazíamos o percurso a pé, aproveitando a curta distância.

Minha primeira vez diante da telona foi cercada de expectativa.

Eu sequer conhecia o Cine Éden por fora.

O prédio impressionava. Na entrada havia enormes cartazes anunciando os filmes e outras atrações. De tudo o que chegava a Parnaíba, o que me interessava mesmo eram os faroestes e as aventuras de Tarzan.

Lembro-me de uma vez em que, por engano, assisti ao mesmo filme do Rei da Selva em duas semanas seguidas.

Fiquei puto.

Fazer o quê?

Assisti novamente e, curiosamente, percebi cenas que haviam passado despercebidas na primeira sessão.

Com o ingresso na mão, chegava a melhor parte: escolher os doces.

Chocolate Zorro, balas Soft, jujubas...

No entorno do cinema havia dois vendedores de balas e doces: o "Caramba" e o Zé do Bombom, com seus tabuleiros recheados.

Havia doces para todos os gostos.

As cadeiras eram de madeira, enfileiradas sobre um piso totalmente plano. Somente alguns anos depois, quando tive a oportunidade de ir a outro cinema, percebi a diferença de inclinação do piso entre as salas. Mas como chegávamos sempre cedo e sentávamos nas primeiras cadeiras, esse detalhe não fazia diferença.

Outro detalhe que me chamou a atenção foi a enorme tela e os camarotes. Disseram-me que aqueles espaços eram reservados às famílias mais abastadas da cidade.

Quando todos se acomodavam, a maior expectativa era a hora em que as luzes se apagavam.

Ouviam-se gritos por toda parte. No começo, eu pensava que fossem de medo da escuridão. Também era possível escutar o burburinho dos retardatários correndo para encontrar seus lugares, como se deixassem para entrar justamente quando o filme ia começar.

Quando o herói brigava com o vilão, era comum ver os meninos repetindo os golpes no ar, como se também estivessem participando da luta. Quando o mocinho finalmente vencia o bandido e salvava a mocinha, a plateia assobiava e fazia um barulho infernal.

Era o cinema cumprindo seu papel: fazer o espectador viajar sem sair da cadeira.

O furdunço era geral nas matinês.

Culumim é bicho atentado.

Os que sentavam atrás colocavam os pés no encosto das cadeiras da frente e não paravam de empurrar. Muitas vezes era necessária a intervenção de um funcionário do cinema.

Ao final da sessão, a algazarra aumentava ainda mais.

Começava a sessão de caçoletas.

Às vezes voltávamos para casa com as orelhas vermelhas e os dedos doloridos.

Fazia parte.

Mas o impacto de ir às sessões não terminava quando as luzes se acendiam. Continuava vivo por muitos dias, transformando-se no assunto das conversas da rua, da escola e das brincadeiras. No caso dos faroestes, dividíamos o grupo entre mocinhos e bandidos e revivíamos as cenas, já na expectativa de uma nova sessão de cinema.

Naqueles tempos, ir ao cinema era muito mais do que assistir a um filme.

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