À noite em que queimaram a Praça

Praça da Graça à epoca do ocorrido
📷Praça da Graça à época do ocorrido © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Meu saudoso pai tinha a vida profissional inteiramente ligada ao centro de Parnaíba. Primeiro, manteve, em sociedade com meu tio Zé, um ponto comercial no Mercado Central, localizado mais ou menos por trás do atual Shopping Popular Silvio Santos. Além disso, atendia diversas lojas de calçados instaladas no entorno da atual Praça Coronel Jonas. Em outras palavras, tudo o que acontecia pelas bandas do centro, mais cedo ou mais tarde, acabava chegando aos ouvidos do senhor Chagas, como era conhecido.

No final da década de 1970, mais precisamente em 1979, durante a gestão do prefeito Batista Silva, Parnaíba vivia um período de intensa efervescência política. Havia discussões, críticas, disputas e, como sempre acontece por estas bandas, uma boa dose de diz-que-me-diz da velha e eficiente Rádio Peão.

Na manhã de 31 de agosto daquele ano, enquanto minha mãe preparava o café para que eu fosse à escola, um dos ajudantes da oficina do meu pai, morador dos Tucuns, chegou esbaforido.

- Mestre Chagas - era assim que os ajudantes o chamavam -, não vá entregar a encomenda do Manoel dos Santos hoje. Está um salseiro dos diabos no centro. Tocaram fogo na praça do prefeito.

Meu pai levantou a cabeça e perguntou, preocupado:

- Atingiu as lojas?

- Não. Foi à praça grande, não foi à praça dos calçados.

Aliviado, respondeu:

- Ah, então não tenho nada a ver com isso. Assim que o Taxinha terminar a coleção, faço as entregas como combinado.

- Pois vá, e cuidado para não levar uma sobra.

Naquele instante - e com uma preguiça gigantesca - saí de casa com o material debaixo do braço. No meio do caminho, porém, tive uma ideia que poderia render umas belas chibatadas: gazear a aula e bater na praça para conferir de perto a confusão.

A desculpa já estava pronta. Uma das minhas professoras sempre passava em frente de casa quando voltava do trabalho e costumava conversar com minha mãe. Se fosse preciso explicar a ausência, diria que estava fazendo pesquisas na Biblioteca do SESC. Era uma mentira virtuosa, por assim dizer.

Quando cheguei ao centro, a situação já estava mais ou menos controlada. Restavam muita sujeira, alguns escombros, uma multidão de curiosos e policiais. A Rádio Peão, como não poderia deixar de ser, seguia em plena atividade.

- Foram os estudantes rebeldes! - afirmava um transeunte, com a convicção de quem tinha visto tudo, embora provavelmente não tivesse visto nada.

- Foram os cabras do jornal! - gritava o vendedor de garapa estacionado em frente ao Éden.

- Se a reforma já estava demorando, agora é que não sai mesmo... - lamentava outro.

Achei mais prudente ficar calado. Eu não sabia rigorosamente nada sobre o ocorrido. Naquela época não existia internet, e jornal impresso era um artigo que raramente atravessava a porta da nossa casa. As notícias viajavam de boca em boca, reforçadas por um velho rádio de pilha pendurado numa viga da oficina do meu pai, aparelho que só funcionava quando Deus estava de bom humor. Uma verdadeira “relíquia” da teimosia tecnológica.

O certo é que, naquele dia 31 de agosto de 1979, Parnaíba testemunhou mais um fato histórico. Evidentemente, não possuía a dimensão de 19 de outubro de 1822, quando a Câmara da então Vila de São João da Parnaíba declarou apoio a Dom Pedro I, mas, guardadas as proporções, também deixaria marcas.

Era gente por toda parte. Carros, bicicletas, foguetes, comentários desencontrados. Um verdadeiro carnaval fora de época.

A polícia estava dando cobertura em frente ao prédio da Prefeitura, que, naquela época, funcionava onde hoje funciona a Câmara Municipal. Já o prefeito, se estivesse no prédio, deveria estar entocado, com medo de represálias.

O pior já tinha passado.

Parei no Edgar Lanches para merendar um caldo, mas o dinheiro só deu para um refresco e um "peido de alma". Fazer o quê, né?

Ao voltar para casa, encontrei minha mãe regando algumas plantas que enfeitavam o terraço.

- Já acabou a aula?

A partir daí, começou outra batalha: convencer Dona Ivone de que eu havia passado boa parte da manhã pesquisando para a escola.

Parnaíba perdeu uma praça de arquitetura ímpar, uma obra que carregava a identidade de uma época e fazia parte da memória coletiva da cidade. O fogo destruiu apenas os tapumes. O restante foi sendo demolido lentamente, em nome de uma palavra que sempre aparece para justificar o injustificável: progresso.

Parnaíba é conhecida por parte de sua população como a cidade do "já teve". Infelizmente, existe entre nossos mandatários uma "sangria desatada" para substituir memória por inovação e chamar isso de modernização. Felizmente, ainda temos uma parcela - bem pequena, é verdade - da sociedade disposta a pôr a mão na massa e lutar pelos interesses coletivos. Outra parte, porém, ainda prefere se render aos caprichos de quem tem a caneta e o poder de decidir os destinos da cidade.

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