Os Natais da Minha Infância

Praça da Graça - Parnaíba
📷Praça da Graça - Parnaíba © Walter Fontenele
🏠Paraíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

De todas as datas comemorativas, o Natal sempre foi a minha preferida. Não exatamente pelo simbolismo religioso, tampouco pelo apelo comercial que tomou conta da festa nas últimas décadas, mas pelos encontros familiares e, sobretudo, pelas lembranças que ficaram gravadas em minha memória.

Foi durante a década de 1970 que vivi os natais que jamais esqueci.

Naquele tempo, dezembro tinha uma aura diferente. Bastava ligar o televisor ou o rádio para perceber que algo especial estava chegando. Os comerciais anunciavam os lançamentos da Estrela, da Gulliver e de tantas outras fabricantes de brinquedos. Cada propaganda fazia a imaginação viajar.

Não se falava em outra coisa.

- Vocês viram o Falcon com as armas novas? Eu queria ganhar um! - dizia Franzé, um amigo das bandas dos Tucuns que sempre aparecia pela vizinhança.

- É muito caro, besta. Eu queria era uma bicicleta, mas acho que vou acabar ganhando um futebol de botão.

Cadinho completava, resignado:

- Faz três anos que peço um Forte Apache. Desisti.

- Pois eu fiquei louco pela Caloi. O Zigbim não sai da minha cabeça. Meu pai garantiu a minha bicicleta. Se vocês prometerem não esmerilar, eu empresto para uma voltinha na rua - disse Zeca.

Já eu sonhava com um Autorama. Sonhava apenas.

Nossa família não tinha muito dinheiro, e eu já compreendia isso desde cedo. Por esse motivo, quase nunca fazia pedidos específicos. Às vezes, guardava os trocados que sobravam das compras do pão para juntar algum dinheiro e comprar, com o meu "próprio dinheiro", uma bola de futebol de salão ou um par de Kichute - aquele misto de tênis e chuteira que era objeto de desejo.

Então chegava a noite de véspera de Natal.

Naquela época, praticamente todos os presentes eram comprados nas lojas da Praça da Graça, que permaneciam abertas até altas horas da noite.

Como morávamos perto, fazíamos todo o percurso a pé.

A Avenida Álvaro Mendes fervilhava de gente. O coração parecia acompanhar aquele movimento frenético de pessoas indo e voltando com as mãos abarrotadas de embrulhos.

A primeira parada era quase sempre no Cascatinha ou na Merenda do Índio. Um Guaraná Nordeste ajudava a aliviar o calor antes de continuarmos o trajeto.

Depois vinha o Calçadão, que naquela época ainda era uma rua aberta ao trânsito. As vitrines iluminadas exibiam brinquedos, roupas e novidades que faziam qualquer criança perder o fôlego. Bastava meu olhar se deter por alguns instantes sobre algum brinquedo para que meu pai, com um leve balançar de cabeça, avisasse silenciosamente que o orçamento não permitia aquela extravagância.

E seguíamos adiante.

Ao chegar à Praça da Graça, a primeira parada era na banca de bombons do "Caramba", um senhorzinho que trabalhava na esquina do Cine Éden. Era um velho amigo de meu pai que, às vezes, consertava sua botina de couro cru que reservava apenas para ocasiões especiais.

A praça estava tomada.

Havia vendedores de pipoca, algodão-doce, pirulitos e brinquedos de madeira que giravam produzindo um barulho ensurdecedor. Outros vendiam o famoso boneco trapezista, feito com dois pedaços de madeira que, ao serem apertados, faziam o bonequinho executar bunda-canastra sem parar.

Era gente por todos os lados.

Naquele tempo, a Praça da Graça era o verdadeiro coração de Parnaíba. No centro, a fonte luminosa, décadas mais tarde restaurada, iluminava as noites de dezembro e parecia dar vida à cidade inteira.

Tínhamos a impressão de que toda Parnaíba estava ali.

As crianças corriam de um lado para outro. Os adultos caminhavam com sacolas nas mãos, reencontravam amigos, conversavam demoradamente e trocavam cumprimentos.

Havia movimento.

Havia alegria.

Havia pressa, mas também havia tempo.

Tempo para conversar.

Tempo para observar.

Tempo para viver.

Quando voltávamos para casa, dormir era quase impossível. A ansiedade pelo amanhecer não nos deixava fechar os olhos.

No dia 25 acordávamos cedo.

Muito cedo.

O café da manhã, naquele dia, era devorado às pressas.

- Te senta, menino, tu vai ter uma congestão comendo assim! - dizia minha mãe.

Nosso bairro ainda tinha a maioria das ruas de areia e, frequentemente, a madrugada trazia uma chuva passageira. O cheiro da terra molhada invadia a casa e anunciava um novo dia.

Logo as frentes das casas se enchiam de crianças exibindo seus presentes. Zeca tirou a sorte grande e apareceu dando rabiadas em sua Caloi zerada, que brilhava ao sol de tão nova. Outros mostravam bolas, carrinhos, revólveres de brinquedo...

Nem todos ganhavam aquilo com que sonhavam.

As frustrações existiam. Fazem parte da vida.

Mas duravam pouco.

Bastavam alguns minutos para que todos estivessem brincando juntos, misturando presentes um pouco mais caros com brinquedos simples na mesma rua de areia, onde a imaginação sempre valia mais do que o preço de qualquer brinquedo.

Talvez a maior diferença entre aquele Natal e o de hoje não esteja nas luzes, nem nos presentes.

Talvez esteja na forma como a cidade vivia essa data.

O Natal parecia pertencer a todos. Era vivido nas calçadas, nas praças, nas conversas demoradas e nos encontros casuais.

Hoje existem mais tecnologias, mais consumo e muito mais facilidades.

Mas, em algum ponto entre a Avenida Álvaro Mendes, o velho Cascatinha, as vitrines do Calçadão e a Praça da Graça, ficou uma Parnaíba que continua existindo apenas na memória de quem teve o privilégio de viver aqueles natais de outrora.

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