O Velho e o Tiro de Sal

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Por volta dos meus 12 anos, minhas opções de lazer - e as de quase todos os meus amigos da mesma idade - resumiam-se ao futebol, à pescaria e à caçada, fosse de pássaros ou de calangos. Coisas de culumim.

Todas essas diversões eram baratas e fáceis de praticar. Futebol, naquela época, era no calçamento mesmo ou nos inúmeros campinhos de terra espalhados pelo bairro Nova Parnaíba. Na esquina de casa havia um, bem estreito, é verdade, mas suficiente para as peladas do fim da tarde. Na Avenida Álvaro Mendes, a poucos metros dali, existia outro, esse sim mais "profissional" e com um bom comprimento. Era nele que o nosso time disputava os amistosos - nem sempre muito amistosos, já que eram apostados Ki-suco, goiabadas ou sardinhas - contra os meninos das bandas do Tabuleiro.

A pescaria acontecia no Rio Igaraçu, no bairro dos Tucuns - hoje São José - ou, no mesmo rio, só que na altura do Tabuleiro, próximo à fazenda do meu saudoso tio Zé.

Já a caça, alvo desta crônica, não tinha lugar certo. Podia ser nos quintais de casa e dos vizinhos ou nas imediações da fazenda mencionada acima. A arma utilizada não poderia ser outra: a baladeira, conhecida em outras regiões do Brasil como estilingue. A munição, porém, era o grande problema do nosso grupo. Era preciso encontrar pedras pequenas, lisas e arredondadas, para que o tiro não variasse, como dizíamos na época. De vez em quando algum colega usava peteca - bolinha de gude -, mas tinha que comprar, e o investimento não compensava. O mais comum era pegar o bornal do meu pai e passar horas recolhendo as melhores pedras. Mas havia outra opção.

Certo dia, um dos amigos apareceu com o que considerava uma ideia genial: pegar barro numa olaria nas proximidades da atual Cobrasil. Só havia um problema. O proprietário costumava colocar os invasores para correr à base de tiro de sal. Deusulivre. Mas você sabe como funciona a cabeça de culumim.

Numa bela tarde de sol, fomos todos afanar um pouquinho de barro, já que pedir estava fora de cogitação. A propriedade era cercada por arame farpado e tinha muitos pontos de alagadiço. Havia outro perigo: pisar descalço em algum objeto cortante escondido na lama, como as conchas afiadas dos caramujos. Tênis ou chinela ninguém usava. Era no pé descalço mesmo.

Chegada a hora, cada um entrou por um lado. O senhorzinho da olaria não conseguiria correr atrás de todos ao mesmo tempo. Azar de quem ele escolhesse para atirar.

Mas a primeira investida foi um sucesso. Saímos de lá carregando três tijolos ainda moles, perfeitos para moldarmos nossos batoques, que depois eram colocados na beirada do fogão de lenha para endurecer. Fizemos tantos que deu para abastecer toda a turma. Coitados dos pássaros e dos calangos do Tabuleiro.

Empolgados com o sucesso da primeira incursão, repetimos a façanha mais três vezes sem qualquer contratempo. Já estávamos nos achando donos do pedaço.

Até que, num belo dia, a casa caiu.

O senhorzinho já vinha desconfiando da nossa malandragem.

- Eu pego vocês, fi da peste!

E tome tiro.

Foi culumim correndo pelo alagadiço, pulando por cima do arame farpado ou se arrastando por baixo dele.

- Vou dar uma surra de umbigo de boi em vocês!

E tome tiro.

Não teve jeito. Um dos soldados foi atingido. Mesmo assim conseguimos escapar. Antes de desaparecer na estrada, um dos colegas ainda encontrou fôlego para atiçar o perseguidor:

- Corre mais, vei! Corre!

- Te cala, amaldiçoado, gritou outro!

E todos nós, inclusive o ferido na batata da perna, caímos na gargalhada.

Eu escapei do tiro de sal por um verdadeiro milagre, mas não da surra que levei do meu pai. O senhorzinho conhecia nossas famílias e, no mesmo dia, tratou de nos dedurar. O moleque atingido também não escapou de uma bela pisa da mãe. A perna ficou cheia de calombos e precisou de alguns cuidados, por isso mesmo não tinha nem como esconder.

Apesar do susto, ainda tínhamos um bom estoque de batoques para garantir outras caçadas durante algum tempo.

Meses depois, um dos colegas resolveu testar a memória do velho.

- Ei, negrada, já passou muito tempo. O vei já se esqueceu. Vamos lá de novo?

Dessa vez prevaleceu o bom senso.

- Te sai de boca, respondeu o mais velho da turma.

A solução foi recorrer a uma munição que todos tínhamos nos quintais de casa: mamonas. Nem sempre tinham peso suficiente para derrubar o alvo e variavam muito com o vento, mas eram perfeitas para as famosas guerras de mamona que travávamos à noite, correndo pelas ruas do bairro.

No fim das contas, o senhorzinho da olaria acabou vencendo a batalha. Nunca mais tivemos coragem de desafiar seus tiros de sal. As mamonas passaram a ser nossa munição oficial e, por muito tempo, garantiram noites de diversão sem o risco de voltar para casa com a perna encalombada - ou com outra surra dos nossos pais.



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