O Calvário do Botijão

Fila de gás em Parnaíba
📷Fila de gás em Parnaíba © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

O final da década de 1970, em Parnaíba, foi uma época de vida tranquila, praticamente sem violência e de poucas preocupações, a não ser estudar. Acordava e o café já estava posto à mesa; voltava da escola e a comida ainda esfumaçava nas velhas panelas de minha mãe. O almoço eu comia na sala mesmo, estirado numa preguiçosa do meu pai e à frente do televisor, objeto ainda escasso nas famílias de baixa renda.

Mas, algumas vezes, ao retornar para o almoço, o cenário era de total calamidade. O gás acabara. Era hora de recorrer ao velho fogão a carvão e se preparar para um verdadeiro calvário: correr atrás do carro do gás ou enfrentar uma fila quilométrica no posto de distribuição, localizado na atual Avenida José de Moraes Correia. Sim, isso mesmo. Naquela época não tínhamos essa comodidade de haver várias empresas à disposição e de o botijão ser entregue e instalado sem ser preciso mover uma palha.

Deslocar-se até o depósito era, de longe, a pior alternativa. Primeiro, porque era preciso colocar um botijão na bicicleta e pedalar uma légua até a distribuidora. Depois, porque ninguém tinha certeza de que encontraria o bendito gás. A distribuidora não mantinha venda regular e, quando o estoque acabava, a espera por uma nova remessa podia durar dias.

A notícia de que o carro do gás passaria pelo nosso bairro se espalhava como rastilho de pólvora. Não, o carro não passava de porta em porta. Ele estacionava por algum tempo em frente ao comércio do João Aleijado, distante uns três quarteirões daqui de casa. A correria era grande. Quem possuía um veículo colocava o botijão na garupa; quem não tinha usava a criatividade e a paciência: ia rolando o botijão rua acima. Outros enrolavam uma corda na alça e o puxavam como se fosse um carrinho de brinquedo.

De qualquer forma, o barulho era inconfundível.

Clang. Clang. Clang.

Eram os botijões vazios batendo no calçamento irregular. Vez por outra, um deles levantava voo ao passar por um bico de pedra mal colocado.

- Empurra, menino!

- Tô empurrando, pai.

O diálogo era curto. Olhar para frente, para ter certeza de que o carro ainda não tinha ido embora, era mais importante.

- Vida desgraçada! - bradava um vizinho, inconformado com a humilhação.

- Empurra, menino!

- Tô com falta de ar de tanto empurrar, pai.

Na caçamba do veículo, os funcionários gesticulavam.

- Só um botijão por pessoa! - gritava um deles.

- Vida miserável!

- Empurra, menino!

O menino já não tinha mais fôlego. Ou empurrava ou parava para responder.

O motorista começava sua sessão de torturas e acelerava várias vezes o veículo, como quem avisava:

- Tô partindo. Corram, miseráveis!

- Empurra, menino!

- Cof... cof...

O menino estava nas últimas.

Para deixar a cena ainda mais dramática, um dos vizinhos, já voltando com seu botijão novinho e recarregado, gritava:

- Tá acabando! Tá acabando! Corre!

O pai já não tinha mais fôlego para mandar o menino empurrar. Os bofes pareciam querer sair pela boca.

- Só tem mais três! - gritava o funcionário da empresa.

A vontade era jogar uma pedra nele, mas era preciso continuar empurrando.

Lá pras tantas, o pai gritava mais uma vez:

- Empurra, menino, que vou correndo na frente pagar e garantir o nosso!
Que sofrimento dos diabos. Que humilhação.

Um vizinho da rua de trás chegou quando já não havia mais gás. O carro estava lotado apenas de botijões vazios.

- Seu moço, será que ainda tem no depósito? - perguntou ao funcionário.

- Se ainda tiver, a esta hora a fila já está enorme. Mais da metade dos que estão lá volta com as mãos abanando.

- Que vida miserável. É muita humilhação.

- Aproveite e compre logo carvão no comércio, que é mais garantia - brincou o funcionário.
- E agora, quando terá de novo?

- Nem Deus sabe - respondeu o funcionário, com aquele sorriso de canto de boca.
- Que vida miserável...

Um suspiro coletivo, longo e pesado, ecoou pela Rua Marquês de Paranaguá. Os desafortunados agarravam a alça do botijão e iniciavam a segunda parte do calvário: voltar para casa empurrando apenas o vasilhame vazio.

Ao longe ainda era possível ouvir os gritos de desespero de um senhorzinho ao ver o carro do gás seguir viagem.

- Chofer, ei chofer, espera ai pelo amor de Deus. Quando chegou à esquina ainda pode ver o caminhão, já quase chegando à Avenida Coronel Lucas. Sentou-se no batente e ficou por alguns minutos olhando para o chão.

Que vida miserável. Quanta humilhação.

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