O Terror das Cabeças de Pito
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais é mera coincidência.
Há uns 40 anos, apareceu em Parnaíba uma dupla de meliantes que aterrorizou a população: Maurício, vulgo Espírito de Porco, era um exímio afanador de toca-fitas, e Zeca, vulgo Cabrinha, o terror das cabeças de pito.
Durante alguns anos, a dupla não deu descanso às autoridades policiais e muito menos aos proprietários de carros, motos, bicicletas e até carroças.
Naquela época, Parnaíba era pacata e ordeira. Festa de grandes bandas - como acontece atualmente - era raridade. Por outro lado, a cidade era constantemente visitada por parques e circos, que recebiam um bom público. O número de veículos automotores já impressionava quem chegava à cidade, a ponto de um amigo sempre dizer que os novos modelos chegavam primeiro a Parnaíba. Exagero, claro, mas era a impressão de muita gente.
Foi nesse cenário, corroborado por instituições de segurança ainda deficientes, que a dupla de meliantes fez fama.
O zoom-zoom-zoom de suas ações era o tema preferido da Rádio Peão, dos boatos em mesa de bar e até das transmissões da Rádio Educadora. Yure Gomes - que tinha o bordão de chegar à cena do crime antes de ele acontecer - narrava, com requintes de detalhes, as artimanhas de Espírito de Porco e Cabrinha.
- Não tem um policial para prender esses ladrões? - dizia Mundico, o leiteiro do bairro Nova Parnaíba.
- Se eu pegar eles, a coisa vai feder. Vou dar umas panadas de facão do pescoço ao calcanhar nos dois! - ameaçava Eliseu, o magarefe do Mercado da Quarenta.
Muitas pessoas - inclusive suas vítimas - até entendiam a sina do Espírito de Porco por toca-fitas. Afinal de contas, era um produto em alta no submundo do crime. A venda ou troca por pedra de crack era rápida; bastava levar ao chefão da Cidade sem Deus. Porém, ninguém entendia por que o Cabrinha tinha essa fissura por roubar cabeça de pito.
- Será que ele faz é coleção? - questionou uma das vítimas ao policial, ao registrar um BO, que naquele tempo era bicho complicado de fazer.
- Não faço a mínima ideia, cidadão - disse o escrivão, puto da vida por tanto trabalho para registrar um boletim por um roubo fuleragem daqueles que nunca seria investigado.
O escrivão abriu uma gaveta cheia de cupim da Central, pegou um lápis e começou a fingir que registrava.
- Lá vou perder tempo com uma ocorrência dessas? Nem a pau! - falou em voz baixa.
- Pronto, cidadão. Seu BO está registrado.
- Só isso? Falaram que era demorado fazer esse papel.
- É a modernidade - disse o escrivão, louco para cair de boca na quentinha "Só o Filé", da Churrascaria do Pernambuco.
- Esse fi da peste com essa porcaria de cabeça de pito. Deu vontade de dar um Pedala Robinho nele! - desabafou para o chefe de investigação.
- Tu estás louco, Serjão? O homem é pagador de imposto e merece respeito - disse o chefe da carceragem, já de barriga cheia.
- Pagador de imposto? Tu não lembra que teve um BO contra ele por dar pinote lá no Rio-Chic, não? Pagador de imposto. Sei.
Um belo dia chegou a Parnaíba um circo porreta: o Bartolo. Era uma estrutura gigante. Tiveram dificuldade para encontrar um local adequado e acabaram armando a lona no Campo da Mercedes, para a ira do organizador do campeonato suburbano de futebol amador, que tinha o Campo da Mercedes como sua principal arena.
Não teve choro nem vela. A prefeitura autorizou. Além disso, o terreno era - e ainda é - propriedade privada. Nada podia ser feito, a não ser torcer pelo fracasso da temporada do circo naquele logradouro.
Espírito de Porco e Cabrinha ficaram que nem pinto em monturo de felicidade. Passaram o dia inteiro da estreia bebendo cachaça num bar de Pé Inchado, no Mercado de Fátima. Só saíram quando a dona do estabelecimento percebeu que os dois não tinham um palito de fósforo no bolso. O namorado dela meteu a ripa no lombo da dupla, que prometeu ir trabalhar e voltar de madrugada para pagar.
Coisa nenhuma.
À noite, os dois - já trocando as pernas - partiram para o "trabalho".
- A gente chega junto nos carros e fica abaixado, fingindo que está mijando - disse Espírito de Porco.
- Tá certo - retrucou Cabrinha.
Chegaram cedo e começaram a procurar o local mais escuro possível. O diabo era que o circo era de rico: tinha luz para todo lado.
Esperaram.
A oportunidade faz o ladrão, diz o ditado.
Do outro lado da Avenida Cel. Lucas, na Rua Oeiras, chegou um velhinho dirigindo um Chevette velho, com duas novinhas do Job a tiracolo.
- É nossa deixa, Cabrinha - disse Espírito de Porco.
- Bem na hora. Estou mesmo com vontade de mijar - respondeu Cabrinha.
Lá se foram.
Tudo propício. Cabrinha simulou uma mijada e Espírito de Porco deu uma conferida. O Chevette era velho, mas o toca-fitas era Roadstar, mais caro que o carro.
Espírito de Porco partiu para a ação.
Nesse ínterim, Cabrinha percebeu que os pneus velhos não tinham cabeças de pito. Ficou putaço.
A barreira do vidro lateral do Chevette foi superada.
Mas eis que a casa começou a cair.
Cabrinha começou a passar mal e vomitar.
- Tu é doido, maluco! Era só para fingir mijar.
Cabrinha já estava botando os bafos para fora. E pior: chamando a atenção do Suat, um guardinha noturno que sonhava em ser policial e só trabalhava a caráter: algemas, uma corrente de moto enrolada na mão e um Jucá de madeira de dar um doido.
- Seis tão é roubando na minha área? - gritou Suat.
A primeira paulada foi no Espírito de Porco, que se abaixou.
Lá foi o vidro do Chevette do velhinho namorador.
Espírito de Porco deu um pinote e caiu no mundo. Não se deu nem ao trabalho de gritar chamando o comparsa.
Mesma sorte não teve Cabrinha, que até pensou em correr, mas estava passando mal e, ainda por cima, todo melecado de vômito.
- Seu ladrãozinho de merda! - disse Suat, já com o Jucá em riste.
E tome taca.
Cabrinha se virava, tentava se desvencilhar.
E tome taca.
Logo se formou um siribolo.
Não demorou muito, e o fusquete da briosa PM chegou sem fazer alarde, pois os giroflex estavam queimados e apenas o farol esquerdo funcionava.
- Peguei esse ladrão roubando as cabeças de pito do Chevette.
- O outro, que estava tentando meter a mão dentro do carro, escapou. Fi da peste de sorte! - disse Suat aos policiais.
Nesse momento, Espírito de Porco já estava chegando à Cidade sem Deus.
A PM perguntou onde estavam as cabeças de pito roubadas do Chevette.
Cabrinha, com vômito até na cabeça, disse que não havia roubado nada e que apenas parou ali porque estava passando mal da cachaçada que tomou.
Um policial, com nojo de revistar o meliante, pediu ao Suat para fazer as honras.
Suat, mesmo sabendo que iria meter a mão no vômito, sentiu-se honrado com a missão.
Felizmente, não foi necessário, pois o velhinho namorador, dono do Chevette, ouvindo o sururu, foi ver o que se passava com seu carro. Pensou que o DETRAN iria rebocá-lo.
Ao chegar, percebeu o vidro da porta do passageiro quebrado.
- Quem quebrou meu carro? - indagou o namorador.
Suat percebeu que a coisa iria feder e que poderia acabar sobrando para ele.
Meteu pinote.
- Quebraram meu carrinho novo! - soluçava o namorador, sendo consolado pelas duas novinhas do Job.
Um dos PMs explicou que tentaram roubar o toca-fitas e as cabeças de pito do Chevette.
Uma das novinhas olhou para dentro do carro e tratou de acalmar o velhinho.
- Não levaram nada. Até a fita do Bartô Ribeiro continua no lugar.
- Bartô Ribeiro, não, sua burra! É Bartô Galeno! - retrucou a outra novinha.
O namorador estava preocupado mesmo era com o toca-fitas. As fitas ele poderia gravar outras no Jairo Medeiros.
- Porém roubaram as cabeças de pito, senhor - pontuou o PM.
- Que cabeça de pito? - indagou o velhinho.
- Do seu carro - respondeu o outro PM.
- Ah, mas não tem cabeça de pito. Tu pensa que sou besta, é? Eu tirei todas, até a do estepe.
Sem crime, e a PM sem vontade nenhuma de melar a viatura com vômito, um dos PMs deu dois mata-mosquitos na orelha do Cabrinha e mandou ele vazar.
Por mais alguns anos, essa dupla de meliantes ainda assolou os moradores de Parnaíba.
Fiquei sabendo que o Espírito de Porco foi para o andar de cima mais cedo, ao tentar roubar um carro de um policial no carnaval fora de época de Esperantina. Quanto ao Cabrinha, recuperou-se, largou as cabeças de pito de mão, parou de fumar maconha e, pasmem, formou-se em Direito e hoje mora em Capitão de Campos.
Benza Deus.


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