A Vida Entre o Rio e os Cabarés
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| 📷Imagem ilustrativa © Gerada por IA |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Lá pelos idos de 1973, trabalhava na oficina do meu pai um rapaz de aproximadamente 35 anos que atendia pela alcunha de Bibita. Morador da Coroa, atual bairro do Carmo, era daqueles sujeitos loroteiros que tinha sempre uma história na ponta da língua.
Vez por outra, meu pai era obrigado - por conta da demanda de serviços - a estender o horário de funcionamento da oficina. Durante esses plantões que varavam a madrugada, os sapateiros costumavam fazer uma pausa para comer torresmo com farinha de puba, especialmente preparados por minha mãe. A Coca-Cola era sagrada para todos; meu pai, porém, gostava mesmo era de Fanta Uva.
Era nesses momentos que Bibita emendava uma lorota atrás da outra. Umas pareciam verdadeiras; outras, nem tanto. Mas todas vinham carregadas das memórias de seu avô, o velho Benedito, o seu Bené, homem centenário que viu muita coisa acontecer às margens do rio Igaraçu.
Seu Bené nasceu e cresceu nos Tucuns, hoje bairro São José. Naquele tempo, a região era cercada por matas onde predominavam os tucunzeiros, palmeiras que acabaram emprestando o nome ao lugar. Morava na Rua dos Barqueiros, numa área movimentada pela intensa atividade portuária e pela vida boêmia que florescia ao redor do cais.
À noite, a vizinhança do velho Bené ganhava outros personagens. Os cabarés abriam suas portas e recebiam uma clientela variada: prostitutas, marujos, os “porcos d’água”, estivadores, trabalhadores do porto e os famosos “mata-cachorros”, como eram conhecidos os integrantes da milícia local.
Entre uma música e outra, a cachaça corria solta. Havia conversas, gritarias e, não raramente, confusões que, para o seu Bené, só tinham graça se fossem grandes.
Segundo seu Bené, as desavenças mais comuns surgiam quando algum freguês tentava dar um pinote e sair sem pagar pelos serviços sexuais recebidos ou queria pendurar a conta. Nesses casos, o tempo fechava, e a confusão às vezes se espalhava entre outros frequentadores. A madame da casa geralmente partia para resolver a peleja, antes que ela ficasse incontrolável.
O complicado mesmo era quando a rivalidade antiga entre os porcos d’água e os mata-cachorros aflorava. Nessas horas, o herói era aquele que não teve tempo de correr. O cassetete comia, o sangue escorria e a lâmina da faca reluzia.
Quando isso acontecia, o ambiente mudava rapidamente. Gritarias, correrias, orações aos céus, arrastar de cadeiras e, não raro, a confusão saía do salão e se espalhava pelas ruas vizinhas. Quem morava por perto já vivia ressabiado.
Mesmo assim, o amanhecer chegava como sempre. O porto não podia parar. Os navios continuavam chegando, as embarcações seguiam seu curso e os trabalhadores retornavam às suas funções. Alguns carregavam hematomas, outros exibiam cortes mal cicatrizados, mas a rotina seguia adiante.
Era uma Parnaíba diferente. Uma cidade onde o cais pulsava dia e noite, movimentando mercadorias, pessoas e histórias. Histórias que sobreviveram graças à memória de homens como Seu Bené, que assistiram de perto há um tempo em que o rio era o grande palco da vida econômica e social da cidade.


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