Aleixo: entre a lenda e a forca
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| 📷Imagem ilustrativa © IA |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Antigamente, lá pela década de 1970 - e, infelizmente, ainda hoje -, Parnaíba sofria com constantes apagões. Nesses momentos, meu pai colocava sua preguiçosa no terraço de casa e tentava sintonizar algumas emissoras em seu velho rádio Transglobe. Era a deixa para eu e os amigos mais próximos, incluindo alguns primos, contarmos lorotas sobre assombrações. Os personagens “Arrasta-Corrente” e “Não Se Pode” eram os nossos preferidos.
Mas, em um desses apagões, meu pai - que era muito ranzinza e não gostava de muito trololó - resolveu contar uma história realmente assombrosa. Uma daquelas histórias que, mesmo com o passar do tempo, continuam envoltas em mistério: lenda para uns, verdade para outros.
Segundo ele, o caso lhe havia sido contado pelo proprietário de um serviço de amplificadora - que ele chamava de “boca de lobo” - instalado nas proximidades da Merenda do Índio, hoje Café no Ponto. Na época, meu pai tinha um box em sociedade com seu irmão, localizado mais ou menos por trás do atual Shopping Popular, no Mercado Central.
Confesso que imaginei que essa história já estivesse perdida em minhas reminiscências. Mas, ao ler o livro Escravidão, de Laurentino Gomes, me veio à memória o suposto fim do escravo Aleixo, que teria sido enforcado em praça pública em meados do século XIX, acusado de assassinar com um tiro uma senhora que, segundo meu pai, era gente graúda que pertencia a uma família poderosa.
A vítima era Carolina Thomázia Dias de Seixas e Miranda, filha legítima do Coronel Simplício Dias da Silva. Seu assassinato ocorreu em 27 de agosto de 1850, pelas bandas da Barra do Longá, na atual cidade de Buriti dos Lopes. Em sua lápide, na Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça, encontra-se a inscrição: “vítima de um execrado monstro [...]”.
O que se sabe com certeza é que Carolina foi assassinada. Os detalhes sobre motivação e autoria, no entanto, permanecem nebulosos. Em quase todas as versões, a culpa recai sobre o escravizado Aleixo, então com 17 anos. Em uma narrativa, ele teria um envolvimento com a própria Carolina; em outra, seria apaixonado por uma mucama da família, relação desaprovada pela vítima. Há ainda quem levante suspeita sobre o marido, o Capitão José Francisco de Miranda.
Sete meses e dezoito dias após o crime, as autoridades da época concluíram que o autor seria Aleixo. O desfecho, como se pode imaginar, já estava traçado.
Trouxeram Aleixo para Parnaíba.
Oito horas da manhã de uma segunda-feira, 14 de abril de 1851.
Era o fim.
A forca teria sido erguida na Praça da Graça ou, segundo outra versão, nas proximidades da atual Rua Francisco Correia.
Vestiram o condenado com uma mortalha.
Corda no pescoço.
O olhar frio e o sorriso de desdém do carrasco.
A elite da época era profundamente religiosa. Fazia vultosas doações, erguia igrejas e zelava por sua reputação de bons cristãos. Houve até extrema-unção. Afinal, era preciso agradar aos santos.
O palco do espetáculo estava armado.
A multidão aguardava.
Aleixo morreu.
Simplício Dias da Silva é, até hoje, uma figura cercada de controvérsias. Em torno de seu nome convivem lendas, silêncios e verdades incômodas. No auge da escravidão, a vida de um escravizado valia pouco além de sua força de trabalho e de seu valor de mercado.
Por isso, entre versões desencontradas, lacunas documentais e memórias transmitidas de geração em geração, uma coisa parece certa: Carolina foi assassinada.
Quanto ao enforcamento do jovem Aleixo, entre a história e a lenda, talvez nunca saibamos toda a verdade


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