Simplício Dias da Silva, Anselmo e o Stradivarius

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🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

** Com informações do livro “O ESCRAVO E O SENHOR DA PARNAHIBA”, de Enéas Barros.

Esta crônica mistura história, memória, tradição oral e o velho “diz-que-me-diz”. Há também anacronismos fictícios e situações inventadas como recurso literário. Algumas passagens vêm de documentos e relatos; outras, da imaginação ou de histórias que chegaram até nós em diferentes versões. Portanto, o leitor encontrará aqui uma mistura de História e ficção, sem a pretensão de apresentar tudo como fato comprovado.

Simplício Dias da Silva, filho de Domingos Dias da Silva e Claudina Josepha, era um mecenas e filantropo. Boa parte da herança recebida do pai, gastou apoiando obras sociais da Rainha de Portugal e dos Algarves D. Maria I e participando de leilões por toda a Europa, em busca de obras de arte para embelezar as paredes da Casa Grande e ostentar diante dos visitantes ilustres.

Amante da música clássica e apaixonado por recitais de violino, Simplício se deparou com uma oportunidade única de arrematar um violino Stradivarius, numa de suas viagens à Itália.

Os violinos confeccionados por Antônio Stradivari são considerados obras-primas da engenharia acústica. Feitos com madeiras nativas da Europa Central: o tampo, de abeto, uma árvore de formato cônico; enquanto fundo, laterais e braço são de bordo, a mesma madeira usada na escala, que ainda recebia um revestimento fino de ébano.

O Stradivarius a ser leiloado fazia parte de uma edição limitada, fabricado entre o final do século XVII e o início do século XVIII.

Simplício, a princípio, ficou receoso de fazer um lance. Era uma verdadeira fortuna. Só para efeito de comparação, com o valor do violino daria facilmente para comprar uma grande propriedade, com centenas de cabeças de gado e uma ruma de escravizados na Vila de São João da Parnaíba.

— Que diabos é uma fazenda com algumas cabeças de gado e escravos? Tenho muitas. Essa é uma oportunidade rara — confidenciou a correligionários.

E ele tinha razão, pois o intuito principal de sua viagem à Itália era participar do leilão. Não pretendia passar vergonha e voltar sem adquirir o item de seu sonho de consumo.

Simplício precisava manter a fama de “moço rico do Brasil”, apelido dado por D. Maria I.

Mas Simplício tinha outros planos ao comprar o violino: o sonho de um dia montar uma orquestra ou, pelo menos, ter um solista para engrandecer as noites festivas na Casa Grande.

Alguns anos depois, Simplício estava em São Luís, nos preparativos para seu casamento. Além disso, tratava da comercialização de charques e esperava uma remessa de armas e de dez escravizados vinda de Benguela, na África.

Quando o tumbeiro Amável Donzela aportou em São Luís, Simplício teve uma surpresa. Junto com a carga, havia um jovem escravizado que trazia consigo um kakoxi, instrumento musical rústico originário de Angola e semelhante a um violino, com a diferença de possuir apenas três cordas.

Quando Simplício chegou a Cafuas das Mercês, na Praia Grande, local onde estava ancorado o tumbeiro, foi informado pelo capitão Rosendo sobre sua carga de armas e sobre a presença de um negrinho jovem com talentos musicais, que Simplício fez questão de conhecer.

Desceu ao local onde estavam todos os escravizados e de imediato notou a presença de um jovem alto, de porte elegante e carregando um instrumento musical. Resolveu então trocar uns dedos de prosa e pediu para que tocasse alguma coisa para ele ouvir.

O jovem então começou a tocar as mesmas músicas que tocava nas festas em sua terra natal, Benguela. Enquanto tocava, movia o corpo numa sincronia perfeita entre corpo e instrumento.

Simplício ficou encantado com a apresentação. Em vez de comprar dez escravizados, comprou onze, levando o jovem músico. Seria a oportunidade de, quem sabe, apreciar o som do Stradivarius comprado a preço de ouro e que nunca havia saído do seu estojo.

O nome do jovem era Tuca — apelido dado por sua mãe porque ele vivia batucando em tambores desde tenra idade.

Mas o capitão Rosendo o batizou de Anselmo.

E assim ficou!

A vida de Anselmo na Vila transcorria como a de qualquer outro escravizado da época, mas Simplício tinha outros planos para ele. Quando o comprou, já o comprou com um único intuito: tê-lo na Casa Grande, ainda mais quando ficou sabendo que Anselmo, além de músico, era um excelente cozinheiro.

Um belo dia, Simplício pediu ao seu feitor, Thomaz, para trazer Anselmo ao seu escritório, no segundo andar da Casa Grande.

Chegando lá, Anselmo recebeu das mãos de Simplício um violino — que não era o raríssimo Stradivarius.

— Você deve se familiarizar e ensaiar um repertório para apresentar um pequeno recital num jantar que darei para uma senhora distinta e recém-chegada à Vila: D. Auta.

— Você tem exatamente um mês!

Simplício queria ter certeza de que os dons musicais de Anselmo valeriam o investimento que estava prestes a fazer.

No dia da apresentação, Anselmo estava banhado, com os cabelos e as unhas cortados e uma roupa impecável. Estava tudo pronto para mais uma prova de fogo.

Porém, ao se preparar para ir à Casa Grande, Anselmo não encontrou o estojo com o violino de Simplício, que seria usado para o recital.

O instrumento havia sumido.

Procura daqui, procura dali, e nem sinal.

O desespero bateu!

Anselmo correu para a Casa Grande e contou tudo ao seu sinhô Simplício.

Ouviram-se gritos e ranger de dentes que chegaram ao Porto Salgado. Simplício mandou Thomaz investigar e punir o culpado. O feitor puniu vários escravizados que não tinham nada a ver com o ocorrido, inclusive Rosinha, noiva de Anselmo.

Foi uma confusão grande!

Mas Simplício não poderia passar vergonha diante do casal de convidados que estava a ponto de bater à porta da Casa Grande.

— Anselmo, pegue aquele estojo.

Quando Anselmo abriu, deu de cara com o Stradivarius.

Ficou sem voz!

— Afine e se prepare. Seu recital será com ele. Depois veremos o caso do desaparecimento do outro!

Anselmo ficou boquiaberto com a oportunidade de tocar um violino daqueles. Afinou as cordas com extremo cuidado, para não arrebentar nenhuma. Seria o fim se isso acontecesse.

Depois do jantar, Anselmo foi chamado e deu um show. D. Auta ficou simplesmente impressionada com o músico e, mais ainda, com o Stradivarius, que só conhecia de nome.

A partir daquele momento, D. Auta e Anselmo ficaram muito próximos. Auta queria conhecer a história de sua terra natal, saber como havia sido capturado e como chegara à Vila.

Ficaram bons amigos!

Simplício aproveitou a oportunidade para conversar com D. Auta sobre as ideias iluministas que circulavam pela Europa, principalmente na França. Falaram de tudo um pouco: maçonaria, absolutismo e, principalmente, abolição da escravatura.

Anselmo foi muito elogiado por todos depois do belíssimo recital, para o descontentamento do feitor Thomaz, que nutria grande animosidade pelo jovem músico!

— Um dia coloco esse negrinho no tronco! — pensou consigo mesmo.

Já Simplício sorria de um canto da boca ao outro e era só elogios a Anselmo:

— Escolha mais dez negros que tenham alguma intimidade com a música e comece a iniciá-los. Estou de partida para a Europa e retornarei daqui a um ano.

— Fique tranquilo, sinhô, não irei lhe decepcionar!

Anselmo transformou um velho armazém no Porto Salgado em seu estúdio. Fez testes com vários escravizados para descobrir os que tinham um dom natural para a música. Depois de selecionados, passou a ensinar o manuseio do violino e a repassar os primeiros acordes.

O tempo voou!

Ao retornar, Simplício chamou Anselmo para saber das novidades. Ficou empolgado ao saber que os estudos haviam avançado e que todos do grupo já estavam familiarizados com o instrumento e com as noções básicas da música.

Para aprimorar ainda mais os estudos, Simplício mandou vir de São Luís, no Maranhão, um maestro profissional, o mesmo que regeu um recital de violinos em seu casamento.

Mais seis meses de estudos com um músico profissional e Simplício percebeu que estava prestes a realizar o sonho de ter sua própria orquestra.

Fez loucura, principalmente para o invejoso Thomaz!

Embarcou o grupo para estudar música em Lisboa, com todas as despesas pagas, além do pagamento de um soldo. Thomaz, mais uma vez, ficou irritado, principalmente quando descobriu que o soldo de seu inimigo, Anselmo, seria o dobro do recebido pelos outros músicos.

— Esse negrinho me paga. Não perde por esperar! — pensou.

Anselmo estava de casamento marcado, mas teve que adiar. Não poderia desapontar o sinhô Dias da Silva.

Rosinha, sua noiva, ficou possessa!

Nada podia ser feito a não ser esperar.

Depois de pouco mais de um ano, a Sumaca Madre de Deos aportou na Vila de São João, trazendo a bordo os músicos, além de vários instrumentos e roupas elegantes comprados sob ordem de Simplício.

Não queria um músico seu malvestido.

Para comemorar, Simplício pediu para Anselmo preparar um recital, que seria apresentado na Matriz de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça e contaria com toda a elite comercial da Vila.

Seria a primeira vez que um negro colocaria os pés na Matriz, templo exclusivo para os brancos.

Thomaz espumava de ódio com o sucesso de Anselmo. Como já era velho, algo em torno de 70 anos, colocou na cabeça que Simplício estava preparando Anselmo para substituí-lo.

Quando a orquestra adentrou pela porta da frente da Matriz, todos ficaram atônitos com a elegância e a postura dos músicos e de seus instrumentos.

Anselmo se posicionou à frente dos outros, portando-se como maestro e como solista. A primeira interpretação foi uma homenagem a D. Auta, que confidenciou a Anselmo ser uma admiradora de Tomaso Albinoni. O Adagio em Sol Menor encantou a todos e emocionou D. Auta. Depois, tocaram várias outras músicas dos maiores compositores clássicos: Johann Sebastian Bach, Beethoven, dentre outros.

Ao final do recital, o grupo deixou o interior da Matriz por uma porta lateral que levava a um jardim, onde já se encontrava Thomaz para conduzir o grupo à senzala.

Com o passar do tempo, Anselmo e seus músicos começaram a se apresentar na Casa Grande de Simplício e, em datas especiais, em outras residências da elite da Vila.

Anselmo finalmente casou-se com Rosinha e teve um filho, Bernardo, que foi enviado para morar na fazenda da família Dias da Silva, na Barra do Longá, em Buriti dos Lopes.

Simplício morreu aos 56 anos.

A confusão na hora do inventário dos bens entre os herdeiros praticamente acabou com a orquestra, da qual Simplício tanto se orgulhava.

Simplício, apesar da opulência em vida, perdeu boa parte de sua fortuna quando encasquetou de aderir à Independência do Brasil em solo piauiense, em 19 de outubro de 1822. Fidié destruiu boa parte das propriedades do senhor da Vila de São João da Parnahyba, além de humilhar a população.

Nunca mais Simplício se recuperou totalmente do infortúnio.

A briga pelos bens do falecido foi ferrenha.

Justina Josefa, viúva de Raimundo, meio-irmão de Simplício, acusava o testamenteiro, Manuel Antônio da Silva Henriques, de ter ficado com parte dos bens do marido.

Por outro lado, os filhos de Simplício acusavam o cunhado, Capitão José Francisco de Miranda, de se apossar dos bens da irmã, Carolina Thomázia Seixas Dias da Silva. Este, por sua vez, ficou possesso quando D. Maria Isabel Thomázia de Seixas, viúva do falecido, resolveu presentear Anselmo com o Stradivarius.

Depois de muitas brigas, intrigas e acusações, os herdeiros resolveram elaborar um documento, colocando tudo preto no branco.

Mas nada adiantou.

A paz voltou a reinar na Vila até o episódio do enforcamento de Aleixo, filho de Bernardo e neto de Anselmo, por ter, supostamente, assassinado Carolina Thomázia Seixas Dias da Silva, filha legítima de Simplício, em sua fazenda na Barra do Longá, em Buriti dos Lopes.

O episódio traumatizou principalmente a família de Anselmo, que perdeu totalmente o interesse pela música.

Reza a lenda que Anselmo passou a percorrer a Vila durante horas, tocando o seu Stradivarius.

Tocou a noite toda, até cansar, e parou em frente ao casarão de D. Auta, sua velha amiga, que o recebeu, como de costume.

Anselmo desabafou. Não tinha mais nenhum interesse pela música, sua paixão desde sempre.

D. Auta ainda tentou reanimá-lo!

Já era tarde!

Anselmo presenteou D. Auta com seu Stradivarius e partiu.

Há quem jure de pé junto que D. Auta enterrou o Stradivarius no piso de seu casarão.

Mas isso deve ser boato!

Dona Auta Rosa Cesária de Castello Branco faleceu em 10 de abril de 1909 e está sepultada no cemitério de Nossa Senhora dos Remédios, em Buriti dos Lopes.

Anselmo viveu isolado em sua casa, à beira do Igaraçu, até seus últimos dias.





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