A Casa de Madame Carmelita

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠 Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Era uma vez uma república localizada na América do Sul, conhecida pelos estrangeiros como um paraíso: das festas, do futebol e do sexo fácil e barato.

Por toda a república, proliferam casas de diversão adulta, vulgarmente conhecidas como cabarés, inferninhos, rendez-vous...

Mas existe, numa cidade dessa república, uma dessas casas que não é para o bico dos desafortunados.

Nas suas salas e corredores, tudo é luxo. Tudo do bom e do melhor. Tudo que o dinheiro pode comprar:

- Caviar.

- Vinhos caríssimos.

- Lagostas...

Essa casa de diversão adulta tem outro diferencial: em vez de mulheres atendendo aos ricos e importantes clientes, estão nove homens, michês de alto nível financeiro e poder - embora, física e moralmente, não atraiam cliente algum, seja homem ou mulher.

É a Casa de Madame Carmelita.

Por essa casa passam altos empresários, empresárias e políticos. Só pessoas com “bala na agulha” para pagar pelos serviços, que são muitos.

Mas, por mais estranho que possa parecer, a Casa de Madame Carmelita é sustentada pela massa falida da república: clientes que, apesar de pagarem a conta, não podem nem passar na frente da casa.

Lá não entra pobre.

Todo cabaré que se preze é um antro de escândalos, brigas, desavenças...

Lá não é diferente.

A diferença é que as intrigas, as invejas e os escândalos são resolvidos de forma discreta, bem diferente dos cabarés chinfrins, onde, vira e mexe, a polícia bate à porta.

Polícia, lá, tem que bater continência para a madame e para os michês.

Como não?

Não importa quantas medalhas possuam na farda.

Nessa república, ninguém manda mais do que a madame e seus michês.

Outra diferença crucial da Casa de Madame Carmelita para os cabarés de pobre são os serviços prestados.

Lá se discute de tudo:

Política.

Negócios.

Nomeações.

Contratos.

Conchavos.

Alianças.

Traições...

Para participar dessas conversas, naturalmente, é necessário desembolsar um cachê caríssimo.

É tanto dinheiro que bicho besta não conta!

Certa noite, entretanto, aconteceu um barraco.

Barraco, não. Isso é coisa de cabaré de pobre.

Uma desavença.

Um dos nove michês descobriu que outro estava tentando lhe passar a perna.

Quase foram aos tapas.

Só que essa desavença saiu um pouco do controle.

Os clientes pobres, que pagam a conta, ficaram sabendo da querela apenas pela imprensa não oficial.

Finalmente, alguém seria expulso! - pensou um pobre iludido.

O choro é livre!

Madame Carmelita entrou em cena.

Mandou fechar as portas.

Chamou os dois num canto.

Conversou.

Ouviu.

Negociou.

Fez alguns telefonemas.

E, depois de algumas horas, estava tudo resolvido.

Ninguém seria expulso.

Ninguém seria punido.

Ninguém perderia o emprego.

Tudo o que ali acontecera seria jogado para debaixo do tapete.

Tapete persa, diga-se de passagem!

O episódio seria convenientemente esquecido em algumas semanas - ou até que outro escândalo entrasse em cena.

Afinal, a Casa precisava preservar sua imagem.

No dia seguinte, os michês estavam novamente trabalhando e sorrindo para as paredes.

E o cliente pobre, que paga a conta, já nem lembrava mais o motivo da desavença.

Um ou outro, mais antenado, se revoltava e jurava que, um dia, aquele escárnio iria acabar. A Casa de Carmelita seria renovada, todos os michês podres seriam sumariamente demitidos e outros, um pouco mais decentes, os substituiriam.

Coisa nenhuma!

Acorda, Alice!

As poucas mudanças de um michê por outro não aconteciam por merecimento, boa índole ou moral incorruptível.

Tudo isso é besteira!

Currículo não bastava.

Competência, muito menos.

Quanto mais canalha, melhor!

Essa é a rotina na Casa de Madame Carmelita.

E, quem não gostar, que fique sem gostar.

Afinal de contas, ninguém é mais poderoso que Carmelita e seus michês.



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