A Morte de Raimundo Dias da Silva

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🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

** Com informações do artigo "Tragédias na Família de Simplício Dias da Silva", de Adrião Neto, publicado em Recanto das Letras.

Esta crônica mistura história, memória, tradição oral e o velho “diz-que-me-diz". Há também anacronismos fictícios e situações inventadas como recurso literário. Algumas passagens vêm de documentos e relatos; outras, da imaginação ou de histórias que chegaram até nós em diferentes versões. Portanto, o leitor encontrará aqui uma mistura de História e ficção, sem a pretensão de apresentar tudo como fato comprovado. 

A história da família Dias da Silva no Piauí começa com a chegada do patriarca Domingos Dias da Silva e Claudina Josefa à então Vila de São João da Parnaíba. A data de sua chegada é incerta, sendo os anos de 1768 a 1772 os mais aceitos pela historiografia.

Domingos Dias da Silva possuía empreendimentos comerciais no Rio Grande do Sul e veio para o Piauí a convite de João Paulo Diniz, pioneiro das oficinas de charqueadas em solo piauiense e seu parente próximo.

Na Vila de São João da Parnaíba, Domingos fez fortuna considerável com as charqueadas, vindo a falecer em 1793. Nunca se casou, mas deixou dois filhos, considerados à época como ilegítimos: Simplício Dias da Silva, filho de Claudina Josefa, e Raimundo Dias da Silva, filho de Maria Dias.

A família Dias da Silva, ao longo de sua história, esteve envolvida em episódios marcados por riqueza, poder, conflitos e tragédias.

Raimundo Dias da Silva era casado com Justima Josepha Dória, com quem teve quatro filhos: Simplício Raimundo Dias da Silva, Raimundo Dias da Silva, Lucrécia Brígida Dias da Silva e Eulália Lucinda Dória Dias da Silva.

Mesmo casado, Raimundo - assim como seu meio-irmão, Simplício – tinha fama de namorador.

Essa característica seria o seu fim!

Segundo a tradição, Raimundo teria seduzido uma jovem da família Miranda, outra família poderosa da então Vila de São João da Parnaíba.

Os Miranda residiam quase em frente à Casa Grande dos Dias da Silva, na então Rua Grande, onde funcionou o prédio da Booth-Line e atualmente funciona o Armazém Paraíba.

Virava e mexia, Raimundo escapulia!

Não queria outra vida!

De escapulida em escapulida, Raimundo e a jovem acabaram se apaixonando.

Só que Raimundo já era casado e não podia, nem pretendia, assumir compromisso extraconjugal.

Naqueles tempos - e ainda hoje, embora com menor intensidade - existia isso de lavar a honra da família com sangue.

- Raimundo, você mexeu com mulher da minha família e vai ter que assumir! - teria dito o chefe do clã Miranda.

E agora!

Na Vila de São João - que à época se resumia a poucas residências e praticamente todos se conheciam - não se falava em outra coisa.

Na Praça da Graça, as fofoqueiras largavam seus afazeres para espalhar as novidades do caso.

O assunto fervilhava até nos cabarés dos Tucuns:

- E depois as raparigas somos nós! - cochichava Regina.

- E nós somos o quê, Regina? - esbravejou Maria Peitica.

- Eles, que são ricos, que se entendam. Vamos trabalhar, que é melhor! - gritou a madame Carmelita.

Mas eles não se entenderam.

Raimundo, além de não assumir o relacionamento com a jovem, ainda continuou dando suas escapulidas para o casarão dos Miranda.

Ele não sabia, mas estava pisando no rabo da morte!

Então, numa bela noite, em 11 de abril de 1812, Raimundo - já se sentindo em casa - retornou ao casarão para se encontrar com a jovem.

O bicho era abusado.

Mão aqui, mão acolá, e a jovem já entrando no clima. Foi nesse exato momento que a lâmina de uma faca, empunhada por um escravizado dos Miranda, reluziu no ar e atingiu em cheio as costas do gaboso.

Raimundo não teve a menor chance.

Morreu ali mesmo, nos braços da amada.

O assassino evadiu-se do local. Mas, antes mesmo da chegada da polícia, os justiceiros dos Dias da Silva saíram em seu encalço.

Não teve a menor chance!

Foi alcançado!

Trucidado e esquartejado!

Simplício Dias da Silva ficou possesso!

Com sangue nos olhos, mandou construir um oratório em pedra de Lioz, dedicado a Nossa Senhora da Conceição, na parte externa da Casa Grande, onde teria colocado as roupas ensanguentadas do irmão para que ninguém se esquecesse do crime bárbaro.

O oratório - que ainda hoje está lá - apontava diretamente para a casa da família Miranda.

Além disso, Simplição ordenou que, toda as vezes que alguém dos Miranda entrasse ou saísse de casa, o sino da Igreja deveria entoar o dobrado de finados.

Que coisa, hein?

O relacionamento entre as famílias Dias da Silva e Miranda nunca mais foi o mesmo.

Por fim, Raimundo foi sepultado na Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça, ao lado de seu pai, Domingos Dias da Silva, e do cavalo de Simplício, El Ramanaian - presente de Selim III, sultão da Turquia.





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