Simplício Dias e Seu Cavalo El Ramanaian
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Em vida, Simplício Dias da Silva se tornou uma das figuras mais importantes para o desenvolvimento de Parnaíba e do Piauí.
Com a fortuna herdada do pai, ajudou a impulsionar o comércio entre Parnaíba e várias regiões do Brasil e até do mundo.
Mas, depois de sua morte, em 1829, seu nome acabou envolto em mistérios, lendas, algumas verdades e muitas mentiras.
Por mais estranho que possa parecer, naqueles tempos isso era quase normal.
Morria uma grande personalidade e, pouco a pouco, o homem dava lugar à figura mítica.
Com Simplição não foi diferente.
Simplício Dias fez algumas extravagâncias com a fortuna herdada do pai.
Dizem, por exemplo, que presenteou D. Pedro com um cacho de bananas, em tamanho natural, todo feito em ouro maciço e incrustado de pedras preciosas.
Ou quando propôs ao príncipe revestir todo o piso de uma sala do seu solar com moedas de ouro.
- Não é uma boa ideia, pois, ao caminhar, pisarei no brasão português. Mas aceito se colocares as moedas em pé - disse o príncipe.
- Você está louco, príncipe. Dessa forma vou gastar uma fortuna! - pensou.
Mas Simplição também ganhou presentes extravagantes.
E como ganhou!
Segundo a tradição, Selim III, sultão da Turquia, teria presenteado Simplição com um cavalo puro-sangue árabe.
Um belezura!
Selim III batizou o cavalo com o nome de El Ramanaian e o enviou para a Vila de São João da Parnaíba.
Ao chegar ao Porto Salgado, o cavalo se tornou o centro das atenções.
Todo cuidado era pouco com aquele estimado presente, principalmente porque a encomenda chegou num período de chuvas intensas e o entorno do porto era uma lamaceira só.
Como levar o cavalo até a Casa Grande sem melecar as patas de lama e bosta?
Simples.
Pegaram alguns sacos velhos, daqueles que haviam servido para transportar mercadorias, e colocaram nas patas do cavalo.
Três negrinhos escravizados de Simplício ficaram responsáveis pela tarefa.
O cavalo usava uma manta ricamente adornada com motivos turcos e trazia uma placa com seu nome.
Simplição havia programado uma recepção digna de um rei.
Toda a família, agregados e escravizados estavam na Praça da Graça, à espera.
Sua banda musical tocava magistralmente “Cidade Maravilhosa” e o hino da Vila de São João.
A praça estava lotada!
Todos se perguntavam o que significava aquele nome:
El Ramanaian.
Ninguém sabia ao certo.
Nem eu mesmo sei...
O cavalo era adestrado.
Ajoelhava.
Dançava.
Andava apoiado apenas nas patas traseiras.
Marchava em ziguezague.
Relinchava ao comando de Simplição.
Só faltava falar...
Todos ficaram atônitos!
Até então, movimentos daquela natureza só eram vistos nos filmes do Zorro, que passavam toda semana no Cine Éden.
A cada nova façanha, o público aplaudia efusivamente e gritava vivas.
Deusulivre o coronel pegar alguém com cara de desaprovação.
Simplício se afeiçoou tanto ao animal que ele acabou virando quase um membro da família.
Nos desfiles de 7 de Setembro, lá estavam os dois: Simplição e El Ramanaian, vestidos com suas melhores roupas.
Era ouro e medalhas para todos os lados.
Até que um dia...
El Ramanaian morreu!
Simplício Dias ficou desolado.
Dizem que pensou até em se jogar da ponte que hoje leva seu nome!
O funeral se igualou ao do seu pai, Domingos Dias.
Ao público que esperava a passagem do cortejo, foram distribuídos alguns tostões.
Mas havia uma condição:
Todos deveriam chorar e gritar desesperadamente.
Assim como Domingos, seu pai, e Raimundo, seu irmão, o cavalo seria enterrado como se fosse gente da família, dentro da Igreja de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça.
O padre estranhou.
Mas achou melhor ficar calado.
Não queria perder as doações da rica família.
Depois da morte do vistoso cavalo, Simplício decretou luto de sete dias em toda a Vila e exigiu que as beatas debulhassem o terço todas as noites, em memória da alma do pobre El Ramanaian.
Foram sete dias de choros e lamentações.
Reza a lenda que, depois da morte de Ramanaian, Simplício Dias nunca mais se afeiçoou a nenhum outro animal.
Assim como Simplício Dias, que virou assombração depois de sua morte, muitas pessoas juravam de pés juntos que, por inúmeras vezes, viram o fantasma do cavalo fazendo todos os movimentos adestrados em cima do altar da igreja.
Mas essa parte, com certeza, é mentira!


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