A Época do Couro

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠 Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Lá pelos idos da década de 1780, quando tudo ainda era sertão, mato, rios e algumas poucas fazendas espalhadas por léguas de distância e muito antes de pensarmos Parnaíba como uma cidade, existia um Rei.

O boi.

Era dele a carne que alimentava o homem.

Era dele o couro que vestia, protegia, carregava, amarrava...

Era dele boa parte da riqueza que começava a impulsionar a economia e o desenvolvimento do Piauí.

Antes de Parnaíba ter a sua “Belle Époque”, já tinha a sua “Época do Couro”.

O couro era matéria-prima para quase tudo:

O gibão do vaqueiro, as botas, os arreios, as selas, as malas, alforjes... Servia para carregar água, guardar mantimentos e transportar mercadorias.

O Piauí daqueles tempos tinha tudo o que era necessário para a criação de gado e geração de riquezas: homens com recursos e espaço, muito espaço.

Foi nesse ritmo que foram surgindo - pelo interior do Piauí - as grandes fazendas de criação de gado.

Depois do abate, retirava-se a pele do animal. Uma parte era preparada como couro em cabelo; outra podia ser transformada em sola. A carne era salgada e seca, transformando-se no famoso charque.

Do boi, nada se perdia!

Com os ventos a favor, as charqueadas encontraram campo fértil em Parnaíba.

O Igaraçu leva ao mar.

Pelo mar, o couro, o charque e outros produtos derivados do boi seguiam para São Luís, Belém e, por meio dessas rotas, chegavam ao comércio internacional.

A prosperidade chegava ao litoral.

Por volta de 1772, Domingos Dias da Silva se estabeleceu na região e se tornou um dos grandes nomes dessa transformação.

Instalou fazendas, oficinas de couro e charque e passou a movimentar uma produção que ultrapassava os limites de toda a região.

Quando a estagnação econômica assolou Parnaíba, grandes fortunas ruíram, viraram pó da noite para o dia.

Mas o boi sobreviveu.

O boi alimentava.

O boi vestia.

O boi transportava.

O boi enriquecia.

Já na década de 1970, fui testemunha ocular do poder do boi.

O couro, a Napa, a Vaqueta, a Camurça e a Sola foram matérias-primas imprescindíveis para o senhor Chagas, meu pai, assim como para praticamente todos os meus tios, que sustentaram suas famílias transformando-as em sapatos, tamboretes, botas, sandálias...

Eram sapateiros e artesãos.

Recebiam o couro, escolhiam a melhor parte, faziam o molde, cortavam, furavam, costuravam, colavam, montavam, davam acabamento.

Era uma linha de produção completa.

Mas...

A vida é feita de ciclos.

Com o tempo chegaram ao mercado os couros sintéticos, calçados prontos confeccionados em série.

O produto barateou.

Não tinha como o artesão competir com as grandes indústrias.

O boi sobreviveu!

O couro também!

E, enquanto houver alguém disposto a cortar, costurar, moldar e transformar uma pele em algum produto útil, também sobreviverá o velho ofício dos artesãos do couro.





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