Mano Velho e as Águas Barrentas do Parnaíba
![]() |
| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
A história do Rio Parnaíba se confunde com o crescimento e o desenvolvimento econômico de Parnaíba. Por suas águas viajavam homens, mulheres, bois, querosene, açúcar, sal, couro e sonhos. Embarcações subiam e desciam o rio, rebocando barcaças e ligando cidades que ainda não conheciam o asfalto.
E havia os marujos.
Homens de rio, conhecidos pejorativamente como “Porcos-d’água”, porque pareciam pertencer mais às águas do que à terra.
Um desses homens foi Antônio Pereira da Silva.
Pouca gente, porém, o conhecia pelo seu nome de batismo. Para quem o conheceu, ele era simplesmente Mano Velho. Um apelido cuja origem ele não sabia – ou não queria explicar completamente.
- Quando começaram a me chamar assim, eu ainda nem era velho. Pode ter sido coisa dos estudantes de Timon. Depois o povo foi pegando no dente!
Naqueles tempos, filhos de famílias humildes começavam cedo na lida.
Com Mano Velho não foi diferente:
- Comecei essa vida em 1900. Era moleque, cheio de tutano nos ossos e com vontade de correr o mundo. De serviço pesado, eu já conhecia de tudo: plantar, capinar, cortar cana, lidar com bichos... Tudo serviço grosseiro. Foi só isso que minha mãe me ensinou.
Fez uma pausa e completou:
- Pai não tive a fortuna de conhecer!
Foi no rio que Mano Velho encontrou outro destino.
Aprendeu a navegar, a conhecer os canais, as coroas e os perigos do rio. Aprendeu a reconhecer os portos pelo apito dos vapores e a medir as distâncias pelo tempo das viagens.
Foi marinheiro, trabalhou em rebocadores, conduziu barcaças, transportou mercadorias e passageiros.
Foi nesse tempo que Mano Velho se misturou com o Rio.
Ou talvez tenha sido o contrário.
Não teve a oportunidade de estudar. Nasceu e viveu para o trabalho pesado, serviço cansativo, mas que lhe permitiu sustentar e educar seus oito filhos:
- A única coisa que sei fazer é mexer na lama desse rio! Mas todos os meus filhos sabem ler e escrever. Tenho até uma filha formada professora!
Enquanto Mano Velho fazia sua vida sobre as águas barrentas do rio, Parnaíba crescia em torno delas.
No auge de seu desenvolvimento econômico, a cidade praticamente se resumia à região do Porto das Barcas e seu entorno. Era por ali que chegavam e saíam mercadorias, trabalhadores e viajantes.
O rio era a estrada.
E, como toda cidade portuária, havia também o outro lado da vida.
No bairro dos Tucuns - atual São José - concentravam-se as famílias humildes dos homens do porto, do rio e do cais. Era também ali que funcionava uma zona de baixo meretrício, famosa pelos cabarés e por uma rivalidade histórica entre os marujos, os “Porcos-d’água”, e os milicianos, os “mata-cachorros”.
Quando esses homens se encontravam nos bares e cabarés, o pau trincava.
Entre uma bebida e outra, o pavio da rivalidade era aceso e o siribolo começava:
Cassetetes zunindo, o brilho da lâmina cortando o vento e o cabaré em polvorosa!
Era rapariga correndo em desespero!
Outras procuravam abrigo ou varavam as janelas em busca de salvação!
A madame - corajosa e experiente nesse tipo de situação - tentava, a todo custo, minimizar os prejuízos:
- Parem, pelo amor de Deus! Vão quebrar todo o estabelecimento! - gritava Regina, madame nascida e criada nos Tucuns, com mais de sessenta anos de profissão.
Os policiais tentavam impor respeito:
- Quem vocês pensam que são? Têm que respeitar a polícia, nem que seja debaixo de pau! - gritava seu Neca, policial temido na região do cais.
- Cachorro desgraçado! Tu mandas mais é lá pras tuas negas. Aqui quem manda é a ponta da minha faca! - respondia Manolo, seu arquirrival.
Era o suficiente.
A rivalidade, alimentada por muitos conflitos, atravessou o tempo e ainda hoje corre de boca em boca entre alguns moradores antigos dos Tucuns.
Vandinho, neto de seu Benedito e que trabalhou muitos anos com meu pai, é uma dessas pessoas que passou a vida ouvindo as histórias - nem sempre verdadeiras - do saudoso senhor Bené.
- Meu avô, Bené, era da paz. Como morava na Rua dos Barqueiros, às vezes se envolvia nessas confusões. Era mais pra apartar, tirar algum vizinho mais afoito e evitar uma tragédia.
Mas nem todas as noites terminavam em sangue e violência.
Quando a madrugada transcorria em paz, o que se ouvia de longe eram as gargalhadas dos homens e das raparigas, misturadas à música tocando a todo volume.
O trio elétrico do Paraíba perdia feio para as velhas radiolas!
Depois vinha o amanhecer.
E a vida recomeçava.
As mulheres garantiam o sustento lavando roupas no cais. Os homens saíam em busca de peixes. Os trabalhadores retornavam às suas funções. Os navios continuavam chegando, as embarcações seguiam seu curso e o coração do porto voltava a pulsar.
Não podia parar.
Era aquela a vida que Mano Velho conhecia.
O apito dos vapores.
O movimento das barcaças.
A lama do cais.
As gargalhadas das raparigas.
O rio levando e trazendo a vida.
Mas o tempo passou.
As estradas chegaram.
As mercadorias deixaram de depender das águas. As embarcações foram diminuindo. O porto perdeu o movimento.
Os causos que Mano contava, hoje parecem lendas urbanas. Excetuando os períodos chuvosos, o Velho Monge é um rio aterrado pela ação do tempo e da erosão, deixando visíveis - ao longo do seu percurso - coroas imensas, que impossibilitam a navegação.
Em 1969, o velho marujo - junto com outros companheiros - fundou a Associação Profissional dos Transportes de Passageiros Fluviais de Teresina, que teve vida curta: foi vendida pelos demais fundadores, deixando os marujos mais velhos à míngua, inclusive Mano Velho.
Nunca foi vencido pelos perigos do Parnaíba!
Não resistiu à cobiça dos homens!
Mano Velho envelheceu.
O rio também.
Aquele rio que durante tanto tempo fora caminho, trabalho e sobrevivência começou, pouco a pouco, a perder sua relevância.
Os grandes navios foram desaparecendo.
As barcaças também.
O movimento do cais foi diminuindo, os apitos dos vapores ficaram cada vez mais raros e os homens do rio foram envelhecendo.
Mano Velho continuou por ali, vendo tudo aquilo acontecer.
Até que um dia já não havia quase nada para fazer.
O rio continuava correndo, mas já não era o mesmo.
Depois foi minguando.
Minguando.
Até acabar.
** Com informações de texto de Cineas Santos (Almanaque da Parnaíba 1982).
** Foto de Mano Velho: Nonato Carvalho.


Deixe Seu Comentário