Astolfo, o Revolucionário Tupiniquim
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Esta é uma obra de ficção. Alguns personagens, locais e acontecimentos mencionados têm inspiração na realidade, e certos nomes reais aparecem apenas como referência histórica. A trama, porém, é fruto da imaginação do autor.
No
início da década de 1960 - mais precisamente em 31 de março de 1964 - os
militares assumiram o Poder no Brasil. Durante esse período, várias cidades brasileiras foram palco da proliferação de movimentos revolucionários, inspirados em revoluções ocorridas em outros países, como Cuba e China.
Em Parnaíba não poderia ser diferente.
A Vila de São João da Parnaíba foi o berço dos primeiros gritos da Independência do Brasil, em 19 de outubro de 1822. Em 1913, Parnahyba foi pioneira no futebol, ao ser sede da primeira equipe futebolística em solo piauiense: o Parnahyba Sport Club, fundado em 1º de maio.
Diante de tanto pioneirismo, é lógico que alguns filhos de Parnaíba surfassem na onda dos movimentos revolucionários.
Astolfo foi um deles.
Astolfo era filho de Severino, um rico comerciante, e de Zuleide, uma socialite que se vangloriava por supostamente ser parente de Simplício Dias.
Coisa nenhuma!
Severino sonhava em transformar seu único filho num grande empresário e seu sucessor. Mas Astolfo - apesar de ser um jovem inteligente e com apenas 20 anos já ter concluído o segundo grau - tinha outros planos: dormir, gastar o dinheiro do pai e virar noites em bebedeira com os amigos, com a conivência da mãe.
A vida de Astolfo seguia normalmente até o dia em que os militares o surpreenderam de madrugada com os amigos fumando maconha e bebendo cachaça em via pública.
O pau trincou. Astolfo foi preso por desacato à autoridade. Passou alguns dias detido no Quartel da Polícia, que ficava localizado próximo do atual Presídio Fontes Ibiapina, no bairro Nova Parnaíba. A influência do pai o livrou de maiores perrengues.
Daquele momento em diante, Astolfo se transformou. Passava o dia lendo obras sobre a Revolução Cubana e sobre outros regimes na América Latina. Com sua inteligência aguçada, não demorou muito e autointitulou-se especialista no assunto. A partir daí, passou a tentar influenciar seus poucos amigos de farra.
Mas ninguém levava a sério seus discursos acalorados.
Numa daquelas intermináveis noites, Astolfo reuniu-se com os amigos na Praça Santo Antônio. Sem perder tempo, começou a ler em voz alta trechos do Manifesto Comunista, escrito em 1848 por Karl Marx e Friedrich Engels. Como sempre, os amigos – chapados e embriagados - deram pouca importância à sua retórica. Mesmo assim, despejou todo o seu conhecimento:
- Os proletários nada têm a perder, a não ser as suas correntes!
- A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes!
Em seguida, com tom cada vez mais autoritário, passou a destilar ódio contra os militares:
- Se for preciso, pego em armas para defender o Brasil desses milicos!
Todos os outros sorriram.
- Exe ai é louco! – brincou Lazarino, um dos parceiros.
- É verdade, vou acabar com todo milico que cruzar o meu caminho! – esbravejou.
Foi então que Lazarino resolveu pregar-lhe uma peça:
- Astolfo, você quer mesmo acabar com os milicos?
- Com certeza, não vai sobrar um!
- Pois então se prepare… lá vêm os homens!
Astolfo levantou-se em desespero, já todo cagado de medo - lembrando-se dos dias difíceis que passara na cadeia. Não sabia se corria ou se subia num dos oitizeiros para se esconder dos militares.
Os amigos caíram na risada, até não poder mais.
- É brincadeira, revolucionário! - esclareceu Lazarino.
Astolfo respirou aliviado, mas não quis passar como covarde:
- Eu só não acabo com eles se me pegarem de surpresa de novo! Gritou já procurando o rumo de casa.
A vergonha era grande.
- Não vá embora ainda, revolucionário! – intimou Lazarino.
Com o passar do tempo, Astolfo foi mudando cada vez mais: deixou o cabelo e a barba crescer, mandou fazer uma tatuagem com o símbolo dos comunistas, passava horas trancado no quarto lendo sobre Marx e Trótski e resolveu vestir-se como um verdadeiro revolucionário.
Percorreu todo o comércio: Calçadão, Rua Caramuru, Mercado Central… Nada encontrou. Comprou, então, uma camisa vermelha e levou à Dona Lúcia para que bordasse a estampa de Che Guevara:
- Quero essa figura bordada na camisa, companheira Lúcia!
- E eu lá sou tua companheira? E quem diabos é esse homem? É cantor estrangeiro?
- Que ignorância! Esse é Che Guevara! - respondeu Astolfo, quase cuspindo fogo.
- Pois é… não conheço esse tal de Chei de Vara.
Astolfo se roeu de raiva por dentro, mas resolveu não encompridar conversa.
- Fica pronto em dois dias! - disse a bordadeira.
No dia marcado, Astolfo chegou cedo à casa da companheira, ou melhor, da Dona Lucia:
- Bom dia, Dona Lúcia! Vim buscar minha camisa.
- Está pronta. Ficou linda. Pode entrar.
Astolfo se encantou com o resultado. Pegou das mãos da bordadeira e vestiu de imediato.
- São Cr$ 100 mil! - avisou Dona Lúcia.
- Fica para a conta da Revolução! - disse ele, batendo no peito e saindo apressado.
- Revolução é o escambau! Caloteiro! Vou falar com seu pai!
Em 1966, Astolfo concluiu que Parnaíba era pequena e atrasada demais para seus ideais. Queria conhecer uma grande cidade. Convenceu a mãe a interceder junto ao pai. Queria Ir para Recife. A desculpa: cursar uma faculdade e depois se especializar no exterior.
Zuleide ficou cheia de orgulho do filho e Severino levantou as mãos para o céu. Iria gastar uma boa quantia, mas parava de passar vergonha com um filho inútil dentro de casa.
Ao chegar em Recife, ficou deslumbrado com a beleza da capital pernambucana. Apaixonou-se pela Ponte Maurício de Nassau. Instalou-se num cortiço no centro e dedicou-se aos livros, conseguindo aprovação no vestibular da Faculdade de Filosofia de Pernambuco em 1967.
Entre um baseado e outro, passou a admirar Sartre, Beauvoir, Camus e Ponty. Apesar de considerado inteligente, Astolfo dedicava-se mais à política do que aos estudos: faltava aulas para participar de reuniões e viajava com companheiros, acumulando reprovações e atrasos.
Em 1971, a maioria dos colegas que haviam ingressado com ele já estava formada. O risco de jubilamento era real. Mesmo assim, Astolfo permanecia alheio, dedicando-se às atividades políticas em detrimento do curso.
Se na academia as coisas iam mal, na vida particular não eram melhores. O dinheiro enviado de Parnaíba minguava a cada mês. Severino enfrentava graves dificuldades financeiras e estava à beira da falência. Nas cartas, o recado da mãe era sempre o mesmo:
- Seu pai está quase falido. Procure um emprego para complementar sua renda.
- Emprego? Tenho um destino mais glorioso do que trabalhar! – pensava ele.
Finalmente, em 1974, sete anos depois de ingressar na universidade, Astolfo conseguiu - na bacia das almas - se formar.
Não houve comemoração.
Estava prestes a ser despejado e resolveu escrever para a mãe pedindo dinheiro para retornar à Parnaíba.
No inicio de 1978, Astolfo desembarca em Parnaíba.
Em casa, encontrou outra realidade. Severino estava mais quebrado que arroz de terceira. Os pais viviam de uma modesta aposentadoria na única propriedade que restara; o resto as dívidas haviam levado.
Mesmo assim, Zuleide estava orgulhosa, seu único filho estava formado e ela queria falar para toda a vizinhança. Já Severino sempre foi mais descrente com o filho. Foi logo perguntando pelo Diploma.
- O diploma demora. Será enviado pelos correios. – disse Astolfo.
Com a bagagem acumulada na academia, Astolfo se inseriu nos círculos de intelectuais de Parnaíba. Para todos, ele dizia ser doutor em Filosofia pela Universidade de Paris. De tanto se vangloriar, os seus amigos intelectuais começaram a duvidar da história.
Em julho de 1978, chegaram a Parnaíba Zeca e Patrocínio, filhos de famílias tradicionais que haviam morado em diversas cidades europeias, inclusive em Paris. Ao ser apresentado, Astolfo não perdeu a oportunidade de se gabar mais uma vez e mencionou seu suposto doutorado na França.
- Dans quel quartier de Paris avez-vous habité ? - perguntou Zeca. E completou: - J’ai habité rue de l’Université, dans le 7ᵉ arrondissement. Tu connais ?
Astolfo ficou sem chão. Inglês ele até desenrolava. Francês não sabia absolutamente nada. Sua farsa estava prestes a ser desmascarada. Malandro, deu uma de João Sem Braço, desconversou e escapuliu.
Sua vida de intelectual acabara ali.
A vergonha era grande.
Com a morte dos pais, Astolfo perdeu o chão de vez. Herdou apenas uma casa já bastante deteriorada. Agora, o revolucionário - que nunca trabalhara na vida - teria de encarar a realidade.
Em situação desesperadora, Astolfo correu atrás e conseguiu um emprego como professor.
Apesar do regime já estar ruindo, ainda se lembrava do perrengue na cadeia e resolveu – temporariamente – abandonar a vida de revolucionário.
Mas não demorou muito, e logo estava de novo na ativa.
Por fim, por caminhos tortuosos, o revolucionário tupiniquim alcançou seu objetivo: não pegando em armas, como um dia prometera, mas ajudando a doutrinar seus alunos e mantendo viva a história de seus ídolos revolucionários.


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