A Fila das Lamentações

Imagem ilustrativa
📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Na Parnaíba de outrora - antes da comodidade da internet - conseguir a marcação de uma simples consulta era um verdadeiro calvário. Isso não quer dizer que o município tenha superado esse problema crônico da saúde, que ainda assola o país. Mas, naqueles tempos, além de planejamento e paciência, era preciso, dependendo do caso, ter algum dinheiro disponível para contratar um guardador de vaga na fila do extinto INAMPS, que, em Parnaíba, funcionava na Praça da Graça, num prédio ao lado da agência dos Correios e Telégrafos.

Minha saudosa mãe era hipocondríaca e não perdia a oportunidade de uma consulta com um de seus médicos favoritos. Apesar de ter um parente com cargo no Instituto, vez por outra ela recorria aos serviços do Gereba, um molecote que costumava ser aprendiz na oficina do meu pai, senhor Chagas.

Gereba não gostava muito dessa atribuição de passar a madrugada no relento, encolhido por causa do frio, debaixo de umas folhas de papelão, à espera do horário de início das marcações das consultas.

Mas estava faturando algum extra.

Não reclamava.

De tanto varar a madrugada na fila, chegou a conseguir outros clientes. Virou quase uma profissão.

- Pagando eu vou mesmo. Tô nem aí! - dizia ele ao meu pai.

Minha mãe tinha suas preferências. Não era todo médico que ela consultava. A boca dela era o Mão Santa - que ela jurava de pés juntos ter sido a autora da alcunha.

Até poucos anos atrás, eu acreditava piamente nessa história, desmitificada pelo próprio Mão Santa numa conversa que tive com ele:

- Hein, hein. Esse apelido eu ganhei na época que clinicava no Maranhão. Às vezes, meus pacientes de lá vinham a Parnaíba e perguntavam onde encontrar o médico das Mãos Santas.

Se o homem falou, está falado!

Gereba, vez por outra, levava uns ralhos do meu pai por faltar ou chegar para trabalhar morto de cansado:

- Hoje eu tô só o pau da placa, mestre Chagas! - dizia ele, louco para ganhar uma horinha de sono em cima de uma montanha de vaquetas que ficava nos fundos da oficina.

E agora!

- Mestre Chagas é mais duro do que beiço de penico! - brincava Vandinho, um dos ajudantes mais antigos da oficina e morador do Cheira Mijo, atual bairro São José.

Mas Gereba, apesar de reclamar do serviço, não se furtava às missões de dona Ivone, que também sabia agradá-lo.

- Gerebinha, leva essa garrafa de café para matar o sono!

- Carece não, dona Ivone! Depois que eu finco os pés na fila e garanto a vaga, eu posso tirar um cochilo. É o cão que entra na minha frente!

Se, naqueles tempos, marcar uma simples consulta já era um verdadeiro calvário, o que não dizer de conseguir um exame?

Nessas horas não tinha jeito: era preciso apelar para o parente funcionário do Instituto. Por muitas e muitas vezes, ele veio pessoalmente em casa entregar a requisição e ainda se colocava à disposição para vir buscá-la de carro.

Pessoa da melhor qualidade!

Que Deus o tenha!

Como assíduo guardador de fila, Gereba foi testemunha ocular do sofrimento de muita gente. Algumas pessoas idosas amargavam o sereno da noite sem sequer ter a certeza de que conseguiriam a marcação. Para alguns médicos, o número de senhas era limitado.

- Benza Deus que na minha vez ainda tenha ficha! - suplicava aos céus dona Regina, de 65 anos.

- Já voltei pra casa de mãos abanando! Fazer o quê? - resignava-se dona Odete.

- A gente só não morre porque Deus é um bom pai! - lamentava dona Josefa.

Era muito sofrimento, muita humilhação!

Nessas horas, Gereba enchia o peito de orgulho:

- Nunca perdi uma viagem. Dezoito horas eu já tô com os pés ficando na frente da porta!

De imediato, levava um carão coletivo:

- Também tu não faz nada da vida!

Gereba murchava as orelhas e achava melhor não encompridar a conversa.

Pela manhã, para alguns, a noite de lamentações chegava ao fim. A porta se abria e, felizmente, havia senha disponível.

Mas, para outros...

Só lamentos.

Gereba era um privilegiado.

Ganhava seus tostões.

E, numa dessas madrugadas, disse ele, ainda conseguiu arrumar uma namorada na fila das lamentações.

Ao chegar à oficina, bradou pelos quatro cantos a novidade. Meu pai, malandro nesses assuntos, dizia:

- Ai mente. Mente tanto que dá bom-dia a jumento!

Gereba mudava o rumo da prosa, que só voltaria à tona depois de mais uma madrugada na fila das lamentações.



Tecnologia do Blogger.