O Parceiro Que o Futebol Me Deu

Grupo do União Esporte Clube
📸Grupo do União Esporte Clube © Walter Fontenele
🏠Parnaíba (PI)


Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Há pessoas que nascem com um nome que fica registrado nos documentos oficiais e que, durante a vida e por vários motivos, acabam ganhando outro que, às vezes, chega a substituir o nome de batismo.

Lindomar Cardoso da Silva foi uma dessas pessoas. Nasceu Lindomar, viveu e faleceu Dibar.

Nascido no tradicional Bairro de Fátima, popularmente conhecido como Macacal, em 21 de agosto de 1950 - mesma data de fundação do seu time do coração, o Club de Regatas Vasco da Gama -, Dibar era filho de Antônio Pereira da Silva e Luzia Maria Targino da Silva. Faleceu em 11 de março de 2025, aos setenta e quatro anos.

Dibar nasceu na época do futebol raiz, em que moleques jogavam futebol com os pés no chão, com bolas improvisadas, às vezes feitas de meia, e sem um local apropriado. Todo espaço - calçadas, terrenos baldios, ruas de areia ou de paralelepípedos - poderia se transformar num campinho ou numa quadra para uma tradicional pelada com os amigos.

Foi nesse ambiente que Dibar cresceu e deu seus primeiros dribles, na vida e no futebol.

A maioria das pessoas não gosta de ser apelidada. Naquela época, os pais costumavam dizer:

- É só não se importar que o apelido não cola.

Mas o Dibar colou tanto que somente familiares, amigos de infância e de trabalho sabiam seu verdadeiro nome.

Eu mesmo só fiquei sabendo depois que comecei a fazer parte do União Esporte Clube, embora já o conhecesse havia bastante tempo, desde a época da APCEF.

Geralmente, os apelidos estão ligados ao próprio nome de batismo: Tião vem de Sebastião; Chico, de Francisco; Nino, de Saturnino...

Dibar, porém, não tinha nada a ver com Lindomar.

E foi o próprio Dibar que, um dia, depois de questionado, me contou:

- Parceiro, quando eu era criança e pegava a bola, partindo para cima dos adversários, meus amigos gritavam: “Dibla!”, “Driblaá!”, que, com o tempo, se transformou em Dibar.

Muitas palavras do vocabulário português trazem dificuldade de pronúncia, principalmente para as crianças. As corruptelas acima citadas, de “driblar”, são apenas alguns exemplos.

Na década de 1960, Parnaíba tinha um futebol à parte do futebol profissional: o suburbano, praticado em campos de areia espalhados por diversos bairros do município.

Nos finais de semana, esses campos lotavam.

No campo da Mercedes, por exemplo, localizado no Bairro São Francisco da Guarita, o povo chegava cedo para garantir um lugar. Os espaços para a colocação de banquinhos e tamboretes eram disputados; chegar atrasado era ter a certeza de assistir aos jogos em posição desconfortável e desfavorável.

O suburbano era tão concorrido e prestigiado pelo público que Pedro Alelaf, então presidente do Parnahyba, tentou firmar um acordo com a Liga para que os jogos das duas competições não fossem disputados nos mesmos dias e horários.

Foi nesse ambiente que Dibar começou a construir sua história.

Em 1968, veio o primeiro capítulo importante: campeão invicto pelo Fluminensinho.

Dois anos depois, em 1970, recebeu o título de melhor atleta do chamado futebol de poeira.

Em 1972, Dibar chegou ao Parnahyba Sport Club.

Era a passagem do campo de areia para o futebol institucional.

Depois vieram outras camisas, outras histórias e outras conquistas. Em 1981, foi campeão pelo Esporte Clube Vitória. E, quando muita gente já estaria pensando em pendurar as chuteiras, Dibar continuava a colecionar títulos.

Em 2011, já no futebol máster, conquistou o tetracampeonato com a camisa do Santa Cruz, clube amador tradicional do Macacal.

No bairro do Ipase, onde viveu boa parte de sua vida, Dibar também deixou sua marca nas disputadíssimas partidas de futsal, na quadra do conjunto que, hoje, leva o seu nome.

Mas havia ainda o outro Dibar, aquele que precisava trabalhar como todo mundo, já que viver de futebol naqueles tempos era praticamente impossível.

- Parceiro, na minha época, apenas jogar bola era certeza de passar fome! - disse-me ele um dia.

E trabalhou muito. Passou pela J. Aragão & Cia., pela Souza Cruz e pela Vegetex, onde se aposentou.

Por isso, quando se fala em Dibar, não se fala somente de títulos, clubes ou campeonatos.

Fala-se de uma época.

Fala-se do Macacal.

Do grupo de Cinquentão.

Das fotos das confraternizações de final de ano, em que Marivaldo brincava:

- Quem será dessa foto que não estará na do ano que vem?

Dos amistosos do União: Bom Princípio, no Piauí; São Benedito, na Ibiapaba, no Ceará.

Das resenhas no Bar do Bianor, no Bar do Papino, no Bar da Vera ou no Lac Lanches, depois das nossas partidas de futebol no Verdinho.

Até que um dia a pandemia pôs fim ao grupo.

Foi-se o futebol e as resenhas, ficaram as amizades.

Ficaram as lembranças.

É o ciclo da vida.



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