Leonardo Castelo Branco: Um herói quase esquecido

Imagem ilustrativa
📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠 Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Foi na então Vila de São João da Parnaíba - 42 dias após o ato às margens do Ipiranga - que os primeiros brados da Independência ecoaram e a atual cidade de Parnaíba entrou para a história do Brasil.

Depois desse ato simbólico e heroico, a Vila de São João da Parnaíba e, principalmente, seus moradores sofreram nas mãos de João José da Cunha Fidié e de sua tropa. Aqui, por longos 72 dias, aprisionaram, saquearam, pilharam e praticaram todo tipo de brutalidade para manter o povo fiel a Portugal.

Durante esse período marcante de nossa história, muitos homens se destacaram e são relembrados até os dias atuais. Um desses heróis, que classifiquei como quase esquecido depois de conversar com muitas pessoas e indagar sobre ele, foi o esperantinense Leonardo de Carvalho Castelo Branco.

Quando se fala na Independência do Brasil no Piauí, alguns nomes aparecem quase automaticamente: Simplício Dias da Silva, João Cândido de Deus e Silva e os combatentes do Jenipapo.

Todos, merecidamente lembrados!

Leonardo de Carvalho Castelo Branco, apesar de existirem obras que enaltecem seus atos de coragem, costuma aparecer como coadjuvante.

E talvez tenha sido justamente o contrário.

Em 19 de outubro de 1822, no prédio da antiga Casa da Câmara, na atual Praça de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça, a Vila de São João da Parnaíba proclamava sua adesão à Independência do Brasil, antes mesmo que a notícia chegasse a Oeiras, então capital da província do Piauí.

Nascido na Fazenda Taboca - atual município de Esperantina -, autodidata, com amplos conhecimentos de português, latim, geografia, física e matemática, Leonardo era fazendeiro, escritor e inventor.

Não era homem para assistir à História passar pela sua janela.

Era homem de ideias e de ação!

Portugal - como já era de se esperar - não aceitou de bom grado essa rebeldia de meia dúzia de parnaibanos, entre eles Simplício Dias da Silva, chamado de bastardo, mestiço e outros apelidos pejorativos por seus inimigos, por ser filho de uma relação não oficial de seu pai, Domingos Dias da Silva, com sua mãe, a mestiça Claudina Josefa.

Fidié, governador das armas do Piauí, foi designado para marchar até a Vila de São João da Parnaíba e sufocar o movimento.

Os revoltosos - em menor número - fugiram para o Ceará em busca de apoio e de novas estratégias.

Na mira do português estavam principalmente Simplício e João Cândido de Deus e Silva, outro herói da Independência que ficou marcado na vida de Fidié, a ponto de ele - depois de derrotado e enviado a Portugal - escrever palavras elogiosas sobre seu caráter.

Depois da fuga de seus compatriotas para o Ceará, Leonardo poderia seguir sua vida normalmente.

Não o fez!

Rumou para o Ceará e começou a reunir homens destemidos para retomar a batalha.

Em janeiro de 1823, Leonardo voltou ao Piauí e, em frente à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Piracuruca, conseguiu aprisionar uma guarnição portuguesa deixada por Fidié.

Haviam perdido uma batalha, não a guerra!

Os heróis do Piauí estavam de volta!

Além de pegar em armas, foi a pena de Leonardo que escreveu vários textos, incluindo proclamações conclamando piauienses e maranhenses a aderirem à causa da Independência.

Era o intelectual transformado em combatente!

Era homem de ideias!

Era homem de ação!

Leonardo peregrinou pelos estados do Piauí, Ceará e Maranhão, procurando convencer mais patriotas a aderirem à causa da Independência do Brasil.

Foi preso.

Primeiro, levado para São Luís.

Depois, deportado para Lisboa e encarcerado na prisão de Limoeiro.

Foi no cárcere que Leonardo fez uma promessa a Nossa Senhora das Dores. Se fosse libertado, mudaria seu nome, incluindo o nome de sua santa de devoção. A partir de então, passou a ser conhecido como Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco.

Foi libertado!

Mas não fugiu da luta!

Foi uma das lideranças da Confederação do Equador no Piauí, movimento que explodiu no Nordeste contra o autoritarismo de D. Pedro I.

Continuou na luta política até ser preso pela segunda vez.

Foi libertado novamente!

Isolado e financeiramente arruinado, Leonardo decidiu dedicar-se à literatura, à ciência e às suas invenções.

Foi dele, por exemplo, a invenção, em 1848, da máquina de descaroçar algodão.

Orgulhemo-nos, piauienses: a Independência do Brasil não aconteceu apenas às margens do Ipiranga.

Na Vila de São João da Parnaíba, na Batalha do Jacaré, no Jenipapo e por todo o território piauiense, a Independência foi defendida com coragem: com armas, com prisões, com fugas e, depois, com sangue.

Leonardo morreu em 1873, aos 85 anos.

Mas sua história sobreviverá para sempre, mesmo que em notas de rodapé.

Nem todo herói precisa de estátua!

Nem todo herói precisa de lendas!

Nem todo herói precisa de livros e mais livros enaltecendo sua trajetória!

Um herói precisa apenas que alguém se lembre dele!

 

 

Tecnologia do Blogger.