Frotinha, o violeiro do Canal de São José

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠 Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

No início do século XX, alguns figurões de Parnaíba estavam incomodados com o fato de a região não dispor de um porto marítimo. Muitos foram os requerimentos encaminhados a políticos influentes em defesa do início das obras do tão sonhado Porto de Amarração, na atual cidade de Luís Correia.

A construção de um porto marítimo exigia vultosos investimentos e muita força de vontade política. À época, todos sabiam que esperar pela realização desse sonho poderia significar perda de tempo e dinheiro. Era preciso encontrar outra alternativa para melhorar o fluxo das embarcações através do Porto Salgado, atual Porto das Barcas.

Naqueles tempos, embarcações de médio porte enfrentavam enormes dificuldades para chegar a Parnaíba. Era necessária a utilização de rebocadores e de marujos experientes para guiá-las pelo Igaraçu, então estreito e sinuoso.

Os importantes comerciantes perdiam tempo e dinheiro em toda essa operação. Algumas embarcações de grande porte atracavam no porto de Tutóia, no vizinho estado do Maranhão, sendo necessário que barcos menores fossem buscar as mercadorias destinadas a Parnaíba e levar as mercadorias que seriam enviadas para outras praças. Às vezes, eram necessárias várias embarcações, devido à grande quantidade de mercadorias.

A solução encontrada foi a construção do Canal de São José, uma obra gigantesca para a época, executada por centenas de trabalhadores braçais, sem máquinas apropriadas.

O objetivo era simples, pelo menos no papel: alterar o curso do rio Igaraçu, tornando-o mais reto e com maior calado, permitindo, assim, uma navegação mais segura e rápida das embarcações de médio e grande porte.

Nessa mesma época, o estado do Ceará sofria com constantes secas, obrigando muitos cearenses a tentar a sorte em Parnaíba. O primeiro grupo de retirantes veio para trabalhar na implantação da estrada de ferro. Nem todos, porém, conseguiram emprego na Ferrovia e acabaram vagando por Parnaíba, realizando trabalhos esporádicos para sobreviver.

Anastácio Belchior Frota – que era mais conhecido como Frotinha - foi um desses retirantes que, na falta de uma vaga na Ferrovia, iniciou sua vida como aprendiz de pedreiro.

Ganhava quase nada!

Até que, por intermédio de Joaquim Tibúrcio, seu colega de trabalho, soube da empreitada do Canal de São José.

Era agricultor no Ceará, mas tinha vocação para trabalhos com madeiras, além de ser um bom violeiro.

Cavar buraco era uma de suas especialidades.

Nunca teve medo de trabalho pesado.

Não seria agora.

Tinha planos de trabalhar duro, sair do aluguel de um barraco caindo aos pedaços, no Bairro Campos, e levantar sua casinha.

Moleque novo, entroncado e com muita força nos braços, foi aceito imediatamente no grupo que escavaria o grande Canal de São José.

Frotinha se destacava no trabalho e também nas horas de folga, quando dedilhava sua viola e animava todo o grupo.

Orlando Silva, o Cantor das Multidões, era seu intérprete preferido. Rosa, sua canção mais famosa, não saía da boca de Frotinha:

- Tu és divina e graciosa, estátua majestosa...

Era a alegria das poucas horas de descanso.

A obra transcorria acelerada.

- Os homens têm pressa! - dizia Silvino, capataz da empreitada.

- Bora, homens, bora! Sem moleza! - gritava.

Pouco a pouco, o Canal foi ganhando forma.

Silvino continuava gritando na orelha dos trabalhadores e incentivando-os com promessas financeiras:

- Se vocês acabarem no prazo estabelecido pelos homens, vão ganhar um dinheirinho a mais!

A alegria era geral.

- Aeéééééé!

Damião, cabra bravo e desconfiado, logo perguntava:

- Cês acreditam nisso? Eu não!

Frotinha não sabia o que era cansaço. Além de passar o dia cavucando, ainda tinha disposição para tocar serestas nos cabarés da região da Munguba.

Foi por causa dessas experiências que resolveu que precisava morar mais perto do trabalho.

Comprou um terreninho nos Tucuns para, após a conclusão da obra, meter a mão na massa e construir sua morada.

Era talentoso como pedreiro e carpinteiro, e teria a ajuda – em forma de mutirão - dos amigos da obra do Canal para levantar seu teto.

Era a vantagem de ser uma pessoa do bem, gostar de ajudar e ser honesto!

Nesse meio-tempo, conheceu Ritinha, uma costureira e boleira de mão cheia.

A vida de Frotinha estava entrando no prumo.

Trabalho, o sonho da casa própria e esposa:

- Obrigado, Padim Ciço!

Depois de longos meses de escavações e retirada do material extraído do novo leito do rio, o Canal de São José finalmente ficou pronto.

A alegria era geral.

- Aeéééééé!

A comemoração contou com rodadas de tiquira, abraços, discursos efusivos e duas horas de fogos de artifício, protagonizados pelo Palma de Gato.

- Pow! Pow!...

Lembram da promessa de Silvino?

Isso mesmo. Nada de bônus extra!

Não adiantaram as reclamações dos trabalhadores. A única coisa que conseguiram foi outra promessa, dessa vez feita por Newton, um dos figurões de Parnaíba.

Ao final, o Canal estava pronto, obedecendo a todos os critérios de engenharia da época. O arrombamento foi realizado nas proximidades da localidade Cachoeira, unindo o Canal ao rio Parnaíba.

O antigo curso d’água transformou-se num igarapé assoreado, situado entre o atual Igaraçu e a estrada do Rosápolis.

Como prometido, os amigos se reuniram e ajudaram Frotinha a construir sua casa.

Era modesta.

Mas era dele!

Sem querer, a construção de sua casa serviu como propaganda, e Frotinha passou a ser reconhecido como pedreiro e carpinteiro dos bons.

Logo começaram a aparecer pessoas querendo contratar seus serviços.

Assim, montou uma pequena empresa com alguns dos amigos que haviam participado do mutirão.

À noite, Frotinha ganhava bons cachês para animar serestas por vários bairros de Parnaíba. Para ele, era um momento de descontração, já que era boêmio e gostava das noitadas.

Mas essa vida de boemia cobrou um preço alto.

Frotinha, com apenas 65 anos, começou a apresentar graves problemas de saúde. A mulher e os dois filhos fizeram de tudo: primeiro o levaram para a Santa Casa e, depois, para o Hospital Nossa Senhora de Fátima.

Não teve jeito.

Frotinha faleceu, deixando a esposa e dois filhos, que já seguiam os passos do pai e tocavam a empresa com ele.

Sua morte foi sentida por todos!

Anita e Regina, duas raparigas que disputavam seu amor, choraram copiosamente durante o enterro.

Uma falta de respeito com Ritinha e toda a família.

Julião, um dos filhos, resolveu conhecer o terrão natal do pai e foi batalhar pela vida em Tianguá, na Serra da Ibiapaba, no Ceará.

Não deu mais notícias.

O outro, Renato, resolveu levar adiante a empresa e o legado do pai.

Também tinha o dom para a música.

Assim como o pai, animava serestas em cabarés, clubes, residências...

Tinha apenas uma diferença em relação ao pai: não bebia, não fumava e não se envolvia com as raparigas.

Já Ritinha, a esposa, apesar das muitas traições de Frotinha, nunca foi de nenhum outro homem.

Era amor verdadeiro.

Passou o resto da vida de luto, preservando o legado do marido e ajudando a cuidar dos netos.

Frotinha chegou a Parnaíba fugindo da seca, sem emprego e sem saber o que fazer da vida.

No fim, ninguém poderia dizer que não foi um vencedor.





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