Entre salões e janelas: o Cassino 24 de Janeiro e as marcas da distinção social
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| 📷Cassino 24 de Janeiro © Criada por IA |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Resumo
O artigo examina a trajetória do Cassino 24 de Janeiro, em Parnaíba, como expressão da sociabilidade da elite local durante a Belle Époque parnaibana, situada entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Busca compreender o papel do clube na organização das práticas sociais e sua relação com o contexto econômico e urbano da cidade. A pesquisa é qualitativa, de caráter exploratório, baseada em revisão bibliográfica, documentos históricos e relatos de memorialistas. O Cassino operou como espaço de distinção social, com regras de acesso, padrões de comportamento e práticas culturais que reforçavam posições de grupo. Também expunha tensões, sobretudo na relação com os excluídos, que acompanhavam as festas pelo chamado “sereno”. Mais que espaço recreativo, integrou a memória urbana de Parnaíba, preservada pela tradição oral e pelos registros históricos.
Palavras-chave: Cassino 24 de Janeiro; Parnaíba; sociabilidade; memória; elite.
1. Introdução
Entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX (1940-1950),
Parnaíba experimentou um período de crescimento econômico ligado ao
extrativismo vegetal e ao intercâmbio comercial com a Europa. Exportava couro,
carne, cera de carnaúba e peles; importava produtos têxteis, bebidas, perfumes
e bens de consumo. A esse momento se convencionou chamar de “Belle Époque”
parnaibana. Houve modernização urbana e remodelação de espaços públicos, em
parte inspiradas em padrões europeus.
O crescimento, no entanto, não foi homogêneo. A cidade se estruturava sobre forte desigualdade. A elite vivia em padrões de conforto e ostentação, enquanto grande parte da população permanecia à margem. Essa diferença aparecia na arquitetura e também nos espaços de convivência.
Clubes, praças e salões organizavam a vida social. Não eram apenas locais de lazer; funcionavam como pontos de visibilidade e afirmação. Neles, a elite reafirmava sua posição e seus códigos.
É dentro dessa lógica que surge o Cassino 24 de Janeiro, como um dos principais símbolos desse período. Mais do que um clube recreativo, o cassino funcionava como um espaço de distinção, onde o acesso era restrito e regulado por códigos sociais bem definidos. Ao mesmo tempo, sua própria existência evidenciava as tensões da cidade: enquanto a elite ocupava seus salões iluminados, parte significativa da população permanecia à margem, criando formas alternativas de participação. Assim, o cassino não apenas refletia a Belle Époque parnaibana, mas também expunha suas contradições mais profundas.
O artigo analisa essa trajetória com base em fontes documentais, bibliografia e relatos memorialistas.
2. O Cassino 24 de Janeiro: espaço de distinção e convivência social
O crescimento econômico de Parnaíba criou condições para o surgimento de espaços voltados à elite, interessados em reproduzir padrões associados à modernidade urbana (BARROS, 2013).
O próprio Barros (2010, p. 32) reforça essa relação ao associar a criação de um clube exclusivo às “mudanças advindas do florescimento econômico, que possibilitou o crescimento da elite parnaibana”, indicando que tais espaços não surgem por acaso, mas como desdobramento direto desse processo.
Antes da inauguração, as festas, saraus e confraternizações aconteciam em residências particulares, como, por exemplo, a residência do senhor Cristiano Carneiro e nas dependências da Casa Inglesa, de James Frederick Clark (RAMOS, 2010).
O Cassino 24 de Janeiro foi inaugurado em 24 de janeiro de 1925 - o nome faz referência ao dia 24 de janeiro de 1823, data em que Oeiras, então capital da província, aderiu ao movimento de independência do Piauí -, por iniciativa de seus entusiastas Celso Augusto de Moura Nunes, Acrísio de Paiva Furtado e José Cristiano Carneiro. Sua primeira sede foi edificada na “travessa da Glória, hoje Rua Monsenhor Joaquim Lopes, no palacete da senhora Laura Veras” (BARROS, 2010, p. 33), sendo depois transferida para a então Avenida Presidente Vargas, esquina com a Rua Alcenor Candeira, onde funcionou por muitos anos o prédio da empresa Telecomunicações do Piauí S/A (Telepisa).
Em 11 de janeiro de 1925, foi realizada a assembleia para a escolha da primeira diretoria do clube. Pela votação, a diretoria ficou assim constituída: Dr. Antônio de Almeida Neves (presidente), Celso Augusto de Moura Nunes (vice-presidente), Acrísio de Paiva Furtado (primeiro secretário), José Cristiano Carneiro (segundo secretário) e Josias Freire Santiago (tesoureiro) (BARROS, 2010).
A professora Maria da Penha Silva (1987), em sua obra Parnaíba, minha terra, complementa a informação:
“Situado ali, à Avenida Presidente Vargas, esquina com a Rua Alcenor Candeira, antiga Rua do Miranda, ficava o Cassino 24 de Janeiro. Era um bonito prédio, em estilo colonial e bem adaptado com as modificações feitas. Nas últimas décadas do século passado e nas primeiras do século XX, o mencionado prédio fora a luxuosa residência da ilustre família do coronel Josias Benedito de Morais” (SILVA, 1987, p. 229).
A estrutura física do prédio não se restringia a uma única função. Tratava-se de um ambiente organizado para diferentes formas de lazer e convivência, reunindo práticas esportivas, jogos e encontros sociais em um mesmo local, o que indica um nível considerável de estrutura para a época.
Em suas reminiscências, o memorialista Goethe Pires da Silva Rebelo (1984) detalha o cenário das dependências do clube:
“Com dois salões de dança, local destacado para orquestra, salão com duas mesas de bilhar-francês, quadra cimentada para vôlei, tênis e basquete, um salãozinho camuflado para jogos de cartas (onde muita gente boa deixou o ‘pelo’, em acirradas partidas de pôquer) e bar com serviço ligeiro, em que predominavam os sanduíches, bolinhos salgados e pastéis. Não havia restaurante” (REBELO, 1984).
A prática de jogos de azar aparece associada a episódios de ruína financeira entre membros da elite local. Há registros de perdas expressivas, capazes de abalar seriamente a estabilidade econômica de alguns de seus membros.
Armando Lindolfo Barros (2010, p. 34), na obra Clube dos ricos: do crescimento econômico parnaibano ao luxo, requinte e distinção social do Cassino 24 de Janeiro (1914–1945), relata a situação vivida por alguns indivíduos em razão da jogatina:
“Sobre as partidas de baralho que se realizavam, segundo encontramos com Sólima Genuína dos Santos, Benedicto dos Santos Lima, o Bembém, como era conhecido, ‘(...) exagerou um pouco nos baralhos do Cassino 24 de Janeiro, chegando até a abalar as suas finanças com o jogo apostado (...)’ (1993, p. 35), como ele, outros também perderam muito dinheiro no clube”.
Em um clube elitizado como era o caso do Cassino, tudo era pensado para agradar aos seus sócios. Assim, a música ocupava lugar central, sendo tratada com cuidado pelos organizadores. Araken (1988) registra duas memórias relacionadas às orquestras que se apresentavam:
“O Anastácio Magalhães pontificava absoluto no meio musical. Seus músicos eram populares e tinham suas manhas. Elizário, o mais vedete, além de muita simpatia, era o mais elegante; confeccionava seus próprios ternos, sempre com mais botões que os dos outros. A orquestra - não era conjunto, não - era orquestra mesmo; nunca relaxava o paletó nem a gravata” (ARAKEN, 1988, p. 43).
Na sequência, o próprio autor observa:
“A orquestra tocava cada música uma vez. Os pares batiam palmas e o ‘bis’ era concedido. O rapaz nunca dançava com a mesma moça mais de um ‘pulado’. Se ficasse conversando no salão até a próxima contradança, implicaria em namoro ou coisa mais séria”.
Restrito a sócios e familiares, o Cassino foi concebido para concentrar e distinguir os espaços de lazer da elite local. Situado na Praça da Graça, em posição privilegiada, tornou-se cenário de diversas festas animadas por orquestras e bandas, frequentadas pelos principais nomes da sociedade da época.
Aos “lisos”, como registra Pádua Marques em sua crônica A hora dos lisos, restavam os caixotes e tamboretes colocados do lado de fora, junto às janelas, onde se apertavam para, como “penetras”, acompanhar as festas. Araken (1988) descreve a cena:
“Sereno, para quem não sabe, é a plateia formada pelos ocupantes dos caixotes, tambores e congêneres que eram acorrentados nas sacadas das janelas, de manhã cedo, nas grandes festas, e vigiados pelos moleques o dia todo, para não perder o lugar” (ARAKEN, 1988, p. 42).
A expressão “sereno”, refere-se originalmente ao ato de permanecer ao relento, à noite. No contexto descrito, porém, passa a designar aqueles que, excluídos do espaço interno, acompanhavam as festas do lado de fora do prédio.
Ao rememorar os bailes do Cassino, Araken (1988) destaca não apenas o requinte do espaço interno, mas também a dinâmica entre os que estavam dentro e aqueles que permaneciam do lado de fora:
“Dava gosto ir num baile do Cassino. O assoalho de tábua corrida brilhando, tudo muito bonito, muito limpo. A iluminação era feérica. Ainda não entrara na moda a meia luz nos clubes sociais. Isto era coisa de ambientes escusos: cabarés para ser mais exato. As mesas das janelas eram as mais disputadas, e seus ocupantes confraternizavam-se no decorrer do baile, com a turma do sereno” (ARAKEN, 1988, p. 42).
Todavia, o próprio Araken (1988) observa que, entre os frequentadores do “sereno”, havia também jovens de famílias abastadas que, por não integrarem os círculos mais fechados da elite, permaneciam do lado de fora do clube.
Essa dinâmica de distinção em torno do Cassino e de seus frequentadores pode ser compreendida à luz das reflexões de Norbert Elias (2001), ao apontar que os ambientes frequentados pelas elites são regidos por normas de etiqueta e autocontrole, nas quais o comportamento individual é constantemente observado e ajustado em função do olhar do outro.
Do mesmo modo, o Cassino se insere no que Pierre Bourdieu (1979) denominou habitus - disposições incorporadas que orientam a ação e diferenciam os grupos sociais. A forma de vestir, de falar e de circular pelo salão obedecia a um conjunto de regras implícitas que funcionavam como marcadores sociais, fazendo com que o clube não apenas reunisse a elite parnaibana, mas contribuísse para sua reprodução enquanto grupo distinto.
O Cassino, assim como outros empreendimentos da fase áurea de Parnaíba, já não existia fisicamente quando eu nasci em 1965. Suas reminiscências permanecem nos livros de memorialistas, em registros dispersos e, sobretudo, na memória da cidade, que se refaz e se transmite ao longo do tempo.
Meu pai chegou a Parnaíba na primeira metade do século XX, vindo do sertão cearense. Durante um período, manteve um box no Mercado Central da cidade, em sociedade com um de seus irmãos. Nunca foi de frequentar ambientes como esse - pelo contrário, preferia outro tipo de divertimento. Ainda assim, ao longo da vida, gostava de falar do reboliço que tomava conta da cidade nos dias de festa no Cassino. Contava que havia comerciantes vizinhos que não perdiam uma noite sequer, mesmo que fosse do lado de fora, equilibrados sobre tamboretes de sapateiro, tentando acompanhar o que acontecia lá dentro.
Esse tipo de relato evidencia como a experiência do Cassino ultrapassou seu tempo, permanecendo não apenas nos registros escritos, mas também na memória cotidiana da cidade.
O Declínio
O declínio do Cassino ocorreu na década de 1950, acompanhando a retração econômica de Parnaíba, marcada pela queda na exportação da cera de carnaúba e pelo fechamento das charqueadas. O Porto das Barcas - principal entreposto comercial da cidade - perdeu relevância, afetando diretamente a base econômica que sustentava parte da elite local.
Com isso, o clube perdia sustentação. Era o fim do período áureo do Cassino 24 de Janeiro e de suas festas, marcadas pela imponência e pelo requinte.
Na década de 1970, o prédio foi completamente demolido, dando lugar a novas construções, o que contribuiu para que sua presença passasse a existir apenas na memória e nos registros históricos da cidade.
3. Considerações Finais
A análise do Cassino 24 de Janeiro permite compreender não apenas a existência de um espaço de lazer, mas a forma como a elite parnaibana organizava sua vida social e reafirmava sua posição dentro da cidade. O clube funcionava como ambiente de distinção, onde práticas, comportamentos e códigos implícitos delimitavam quem podia participar e de que maneira.
Ao mesmo tempo, sua existência evidencia as contradições de uma cidade marcada por forte desigualdade social. A presença do chamado “sereno” demonstra que, embora houvesse barreiras claras, elas não impediam completamente o contato entre os diferentes grupos. Havia distância, mas também interação, ainda que em condições desiguais.
O declínio do cassino acompanha a própria retração econômica de Parnaíba, indicando que esses espaços estavam diretamente ligados às condições materiais que os sustentavam. Com o desaparecimento físico do prédio, o que permanece é sua presença na memória da cidade, preservada tanto em registros escritos quanto na tradição oral.
Nesse sentido, o Cassino 24 de Janeiro deixa de ser apenas um objeto histórico e passa a integrar o campo da memória coletiva. Sua permanência não está mais no espaço urbano, mas nas narrativas que continuam a ser reproduzidas ao longo do tempo, mantendo viva uma experiência que marcou profundamente a sociabilidade parnaibana.
Referências Bibliográficas
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BARROS, Armando Lindolfo. Clube dos ricos: do crescimento econômico parnaibano ao luxo, requinte e distinção social do cassino 24 de Janeiro (1914-1945). 2010. Monografia (Licenciatura Plena em História) – Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Parnaíba, 2010.
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