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| Foto: Tom Brenner/Reuters |
Quatro meses depois de fazer críticas públicas
contra o desmatamento no Brasil, o presidente Joe Biden e membros do alto
escalão do novo governo dos EUA receberam nesta semana um longo dossiê que pede
o congelamento de acordos, negociações e alianças políticas com o Brasil
enquanto Jair Bolsonaro estiver na Presidência.
O documento de 31 páginas, ao qual a BBC News
Brasil teve acesso, condena a aproximação entre os dois países nos últimos dois
anos e aponta que a aliança entre Donald Trump e seu par brasileiro teria
colocado em xeque o papel de "Washington como um parceiro confiável na
luta pela proteção e expansão da democracia".
"A relação especialmente próxima entre os dois
presidentes foi um fator central na legitimação de Bolsonaro e suas tendências
autoritárias", diz o texto, que recomenda que Biden restrinja importações
de madeira, soja e carne do Brasil, "a menos que se possa confirmar que as
importações não estão vinculadas ao desmatamento ou abusos dos direitos
humanos", por meio de ordem executiva ou via Congresso.
A mudança de ares na Casa Branca é o
combustível para o dossiê, escrito por professores de dez universidades (9
delas nos EUA), além de diretores de ONGs internacionais como Greenpeace EUA e
Amazon Watch.
A BBC News Brasil apurou que os gabinetes de pelo menos dois parlamentares
próximos ao gabinete de Biden —a deputada Susan Wild, do comitê de Relações
Internacionais, e Raul Grijalva, presidente do comitê de Recursos Naturais—
revisaram o documento antes do envio.
O texto têm o endosso de mais de cem acadêmicos de universidades como Harvard,
Brown e Columbia, além de organizações como a Friends of the Earth, nos EUA, e
a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), no Brasil. A iniciativa é
da U.S. Network for Democracy in Brazil, uma rede criada por acadêmicos e
ativistas brasileiros no exterior há dois anos que hoje conta com 1.500 membros.
Tanto Biden quanto a vice-presidente Kamala Harris, além de ministros e
diretores de diferentes áreas do novo governo, já criticaram abertamente o
presidente brasileiro, que desde a derrota de Trump na última eleição assiste a
um derretimento em negociações em andamento entre os dois países.
"O governo Biden-Harris não deve de forma
nenhuma buscar um acordo de livre-comércio com o Brasil", frisa o dossiê,
organizado em 10 grandes eixos: democracia e estado democrático de direito;
direitos indígenas, mudanças climáticas e desmatamento; economia política; base
de Alcântara e apoio militar dos EUA; direitos humanos; violência policial;
saúde pública; coronavírus; liberdade religiosa e trabalho.
O material, segundo a BBC News Brasil apurou, chegou ao núcleo do governo Biden
por meio de Juan Gonzales, recém-nomeado pelo próprio presidente americano como
diretor-sênior para o hemisfério ocidental do Conselho de Segurança Nacional da
Casa Branca —e conhecido pelas críticas a políticas ambientais de Bolsonaro.
Assessor de confiança de Biden desde o governo de Barack Obama, quando atuou
como conselheiro especial do então vice-presidente Biden, Gonzales passou por
diversos cargos na Casa Branca e no Departamento de Estado e hoje tem livre
acesso ao salão Oval como o principal responsável por políticas sobre América
Latina no novo governo.
"Qualquer pessoa, no Brasil ou em outro
lugar, que achar que pode promover um relacionamento ambicioso com os EUA
enquanto ignora questões importantes como mudança climática, democracia e
direitos humanos, claramente não tem ouvido Joe Biden durante a campanha",
disse Gonzales recentemente.
Por: Folha de São Paulo
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