Crônica de Boteco: A Panelada Maldita
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| 📷Imagem ilustrativa © Reprodução |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Durante os muitos anos em que vivi em Belém, o esporte que praticava — muito por incentivo do meu irmão mais velho — era o tênis. E, convenhamos, Belém sempre favoreceu a prática desse esporte. Além do tradicional Tênis Clube do Pará, do qual eu era associado, praticamente todos os outros clubes, tanto da zona urbana quanto da área rural, tinham ao menos uma quadra.
Há cerca de trinta anos, quando resolvi voltar para Parnaíba, trouxe comigo todos os apetrechos. A ideia era simples: continuar jogando. Mas a realidade foi outra. Naquele tempo, Parnaíba não tinha — e ainda não tem, pelo menos não como eu gostaria — uma cultura consolidada de tênis. Não havia quadras adequadas e, pelo menos até onde eu sabia, tampouco praticantes. Assim, fiquei alguns meses sem praticar esporte.
Certo dia, encontrei o amigo Mário Boi na Banca do Louro, na Praça da Graça, e comentei que precisava voltar a jogar futebol, pois já estava ficando gordo e enferrujado.
— Neném, aparece lá na AABB, na Beira-Rio, para bater uma bola com a gente.
E foi assim que voltei aos gramados. Comecei jogando com a turma da AABB e do Igara Club. Depois, passamos para a APCEF, dos funcionários da Caixa. Alguns anos mais tarde, fui integrar o grupo do União Esporte Clube, turma capitaneada pelos amigos Paulão, Edson e Dibar, de saudosa memória.
Foi nesse ambiente que passei a conhecer as histórias, as figuras e as resenhas que faziam parte daquele universo do futebol amador de Parnaíba. Muitas delas eram contadas e recontadas depois das partidas no campo do Verdinho, quase sempre com prolongamento no Bar do Bianor ou no Lac Lanches, na Praça do Ipase.
E algumas histórias, de tanto serem repetidas, acabam se eternizando em nossas reminiscências.
Uma delas é a da panelada maldita, que passo a contar a seguir.
A história aconteceu numa manhã de domingo, lá pelo final da década de 1970, quando o Santa Cruz, equipe de futebol do Macacal, disputou mais uma partida pelo campeonato amador da época.
O Santa Cruz venceu o adversário com certa facilidade: 4 a 1.
Mas todo mundo sabe: para certos boleiros, o apito final é apenas o começo da verdadeira partida — a resenha.
E resenha boa, invariavelmente, terminava em algum bar.
O boteco preferido naquele tempo era o Bar do Papino, localizado até hoje na Rua James Clark, no bairro de Fátima.
Desce cerveja. Mais cerveja. E mais cerveja ainda.
Alguns já migravam para a espinhosa Serrana, mas sem abandonar o gelo.
E, claro, cerveja sem tira-gosto é quase uma heresia.
O cardápio daquele dia era de respeito: panelada. Um tacho cheio até a tampa.
Conversa vai, conversa vem, e lá pelas tantas apareceu um parceiro que havia vindo para Parnaíba tempos antes para jogar no Parnahyba Sport Club.
Era bom de bola.
E melhor ainda de garfo.
Segundo as histórias que depois ouvi tantas vezes nas resenhas, o homem não brincava em serviço quando o assunto era comer.
Panelada então, Deus o livre!
A cerveja corria solta.
A panelada sumia.
O maxilar do parceiro não parava um segundo. Era garfada atrás de garfada, sem dar trégua. Quando alguém tentava alcançar o garfo para se servir, a panelada já tinha praticamente evaporado.
Foi então que um dos presepeiros da turma — de saudosa lembrança — resolveu aprontar.
Aproveitando que o paneleiro havia ido ao banheiro, correu até a cozinha e preparou uma nova porção. Escolheu justamente as partes mais grossas da iguaria, abriu as dobras e recheou tudo com pimenta braba.
Depois, voltou para a mesa como se nada tivesse acontecido.
Logo em seguida, a vítima retornou do banheiro.
A nova porção foi servida: prato cheio até a borda, fumegando e soltando aquele cheirinho típico de uma boa panelada.
Ninguém mais se atreveu a tocar na comida. A turma continuou a conversa, fingindo que nada estava acontecendo.
Ele nem desconfiou.
Caiu para dentro.
Garfada e farinha de puba.
Cerveja.
Mais garfada e outra mão cheia de farinha de puba.
Cerveja de novo.
Até que o inevitável aconteceu.
Ele caiu na armadilha.
A reação foi imediata.
Levantava.
Sentava.
Bebia cerveja.
Ficava em pé de novo.
Corria para o banheiro.
Olhos vermelhos, respiração descompassada, já não sabia mais o que fazer.
Pediu leite, mas alguém logo avisou:
— Leite piora!
Foi aí que se instalou o verdadeiro Deus nos acuda.
Era um desespero só. Corria de um lado para o outro, tentando encontrar alívio para aquela ardência infernal. E, no meio da agonia, continuava bebendo cerveja, como se ali estivesse a solução para todos os seus problemas.
Dava pena.
Depois de muita agonia, suor e desespero, a ardência começou finalmente a arrefecer.
Respirou fundo, aliviado.
Foi exatamente nesse momento que alguém, com a maior cara de pau, perguntou:
— Quer mais panelada, parceiro? Ainda tem um tacho cheio!
A mesa veio abaixo.
Entre risos, respondeu, ainda ofegante:
— Rapazzzz… Eu não sabia que vocês gostavam tanto de pimenta assim! Não me convidem mais!
O detalhe é que ninguém o havia convidado.
A zoação correu solta.
Sem muito o que fazer, derrotado pela panelada e pela maldade dos parceiros, pegou sua bicicleta e foi embora.
Até hoje, a panelada maldita volta e meia aparece nas conversas. A maioria ainda ri quando alguém se lembra do episódio. Outros acham que a brincadeira foi desnecessária.
Mas é assim que muitas histórias de boteco sobrevivem ao tempo: entre exageros, gargalhadas, personagens inesquecíveis e lembranças que cada um conta à sua maneira.
Eu não estava naquela mesa naquele domingo. Quando a história aconteceu, ainda era moleque e nem sonhava um dia fazer parte do grupo. Mas ouvi tantas vezes essa resenha, contada com tantos detalhes e sempre acompanhada de boas gargalhadas, que ela acabou entrando também no meu repertório de memórias do futebol parnaibano.
O que seria do futebol amador sem boas resenhas, comes e bebes e amizade?


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