Círio de Nazaré: uma experiência que a fé explica

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📷Imagem ilustrativa © Reprodução
🏠Parnaíba (PI)

Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

Venho de uma família católica. Até os 13 anos, participei de praticamente todos os rituais que fazem parte da formação de uma criança criada dentro do catolicismo. Batismo, missas, procissões, rezas... Tudo aquilo fazia parte da rotina.

Apesar disso, sempre tive a sensação de ser um estranho no ninho. Nunca me identifiquei plenamente com o catolicismo. Não professo nenhuma religião; sou espírita, mas sempre tive profundo respeito pelos símbolos considerados sagrados pelos cristãos e por suas festas religiosas.

O Círio de Nazaré, por exemplo, é uma dessas manifestações que ultrapassam os limites da religião e se transformam em patrimônio afetivo de um povo.

Durante os muitos anos em que vivi em Belém, não era raro me encontrar no meio daquela multidão.

Às vezes, no traslado — conhecido como Procissão das Luzes —, no sábado à noite, quando a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré deixava a Basílica e seguia para a Igreja da Sé, na Cidade Velha. Outras vezes, no domingo, no Círio propriamente dito, quando fazia o caminho de volta ao Santuário de Nazaré.

Eu estava ali, no meio daquela procissão gigantesca, como observador. Preferia ficar mais afastado da berlinda, em um lugar onde pudesse acompanhar a passagem da multidão com um pouco mais de segurança.

Mas bastava olhar ao redor para perceber que, para milhares de pessoas, aquela caminhada significava muito mais do que acompanhar uma imagem pelas ruas de Belém.

A multidão de fiéis que, às vezes, passava a noite de sábado para domingo na Igreja da Sé para garantir um lugar na corda carregava muito mais do que a imagem da Santa.

Carregava promessas.

Carregava agradecimentos.

Carregava dores.

Carregava histórias de sofrimento que ninguém conhece.

Havia pessoas levando miniaturas de casas, pernas, braços, cabeças, crianças e outras representações do corpo humano. São os chamados milagres, os ex-votos que simbolizam graças alcançadas ou pedidos confiados à proteção de Nossa Senhora de Nazaré.

E há aqueles que seguem na corda.

É difícil explicar o que acontece naquele espaço de luta, resistência e fé.

Gente descalça, espremida umas contra as outras, disputando cada centímetro. Pessoas que enfrentam o calor, a exaustão e, algumas vezes, a própria dor física para cumprir uma promessa.

A luta incansável para não soltar a corda nos pontos mais apertados da procissão, como na curva do Edifício Manoel Pinto da Silva.

Os pés feridos.

As marcas de sangue no asfalto.

O rosto molhado de suor.

As lágrimas.

Os gritos.

E o choro de quem, vencido pela emoção ou pelo cansaço, já não consegue continuar e precisa abandonar a corda.

Quem observa de fora pode enxergar apenas o sofrimento físico, a multidão comprimida e o esforço quase sobre-humano para seguir adiante. Mas é difícil olhar para aquelas pessoas sem se perguntar o que as move. Que promessas fizeram? Que dores carregam? Que esperanças as mantêm de pé quando o corpo parece não suportar mais?

Talvez cada uma tenha sua própria resposta. Eu, que estava ali como observador, só podia imaginar.

Quando a procissão finalmente chega à Praça Justo Chermont, os aplausos parecem ocupar o lugar do cansaço. É como se milhares de pessoas, naquele instante, respirassem juntas.

Estranhos se abraçam. Choram juntos. Há alívio, alegria e emoção. Por alguns instantes, as diferenças parecem desaparecer diante de um sentimento que todos, cada qual à sua maneira, compartilham.

Depois de tanta caminhada, chega também a hora de reunir a família em torno de outra tradição profundamente paraense.

O almoço do Círio.

O pato no tucupi e a inigualável maniçoba encerram aquele domingo de celebração. Para muitos, é a continuidade de uma experiência de fé; para mim, mais uma oportunidade de observar a força de uma tradição que atravessa gerações e faz parte da identidade de um povo.

Nunca precisei compartilhar a mesma crença para reconhecer a dimensão humana de tudo aquilo. Talvez seja justamente essa distância que me permita observar o Círio por outro ângulo. Ainda assim, diante de tanta devoção, sofrimento, esperança e alegria, é difícil permanecer inteiramente de fora.

Há manifestações de fé que não exigem que a gente acredite. Exigem apenas que a gente saiba respeitar o que elas representam para os outros.

Domingo, 11 de outubro.

Círio de Nazaré.

Salve, Nossa Senhora de Nazaré!



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