O Menino que Sonhava Ser Folharal
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| 📷Imagem ilustrativa © Criada por IA |
Walter Fontenele - Analista de Sistemas e Graduado em Antropologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
O Bumba-Meu-Boi sempre fez parte da memória afetiva do Nordeste. Surgido ainda no período colonial, entre os séculos XVIII e XIX, a partir do encontro entre tradições europeias, africanas e indígenas, tornou-se uma das manifestações populares mais emblemáticas da região. Mas, para além da história oficial, cada pessoa guarda sua própria lembrança dessa brincadeira.
As minhas me levam direto para a década de 1970.
Naquele tempo, grupos culturais de Bumba-Meu-Boi não se apresentavam em arenas iluminadas nem tinham fantasias sofisticadas. Brincava-se na rua mesmo. Na porta de casa, no meio da vizinhança, no improviso. Era tudo mais simples, mais raiz e, talvez por isso mesmo, mais verdadeiro.
Entre todos os personagens do Bumba-Meu-Boi, havia um que mexia particularmente com a imaginação da molecada: o folharal.
Com sua saia feita de folhas, escondendo o corpo quase inteiro, ele era uma figura curiosa, meio cômica, meio assustadora. E, claro, virava alvo preferido das molecagens infantis. Coitado do folharal. Sofria em nossas mãos.
Bobinhas estourando nas pernas, correria, gritaria e, em casos mais extremos, até tentativas de tocar fogo na saia de folhas. Hoje isso parece absurdo, mas, naquela época, muita coisa era tratada apenas como brincadeira. Eram outros tempos.
Apesar da vida difícil de um folharal, havia quem sonhasse em ser um.
Tínhamos um amigo - vamos chamá-lo de Nestor - morador da Rua Coronel Pacífico, no Bairro São José ou, como chamávamos naquela época, das bandas do “Cheira Mijo”.
Nestor era diferente.
Enquanto a maioria queria fazer parte da vaqueirama ou interpretar algum personagem de maior destaque na brincadeira, ele só queria uma coisa: ser o folharal. Nestor era sádico.
Passava meses cercando o organizador do boizinho do bairro, fazendo pequenos favores, carregando coisas, ajudando no que fosse preciso. Tudo para garantir seu lugar na brincadeira.
E, quando conseguia, parecia realizar o maior sonho do mundo.
Quando vestia a roupa, parecia se transformar. Balançava sobre a cabeça sua bexiga de meia como se fosse uma arma de guerra e saía distribuindo porradas na molecada e até nos cachorros que avançavam em sua direção, ao mesmo tempo em que se defendia das nossas investidas. Ali, debaixo daquela roupa improvisada de folhas, Nestor parecia feliz de um jeito difícil de explicar.
Com o passar dos anos, o Bumba-Meu-Boi foi mudando.
As fantasias ficaram mais elaboradas, os bois ganharam acabamento quase realista, e a tecnologia trouxe efeitos, iluminação, sonorização e uma estética completamente diferente da que conhecemos.
Não digo isso em tom de crítica. É preciso acompanhar a evolução e a tecnologia. O que existe é apenas saudosismo, típico de quem já viu mais da metade da vida se esvair entre os dedos.
Quanto ao Nestor, o menino que sonhava em ser folharal, a vida, infelizmente, tratou de encurtar seu caminho cedo demais.
Anos depois, durante uma pescaria no Rio Igaraçu, tomado pela coragem - ou pela imprudência típica da idade -, resolveu fazer algo que nenhum de nós teve coragem de fazer: mergulhar para desenroscar uma linha que nem dele era. Não adiantaram nossos gritos de que “rio não tem cabelo”. Ele foi assim mesmo e não mais voltou.
As águas turvas do rio Igaraçu levaram seu corpo.
O tempo passou. Mas certas figuras permanecem.
O destino me levou a ter como hobby a fotografia de esportes e de eventos culturais. Lá se foram 14 anos, mas, toda vez que fotografo um folharal, as lembranças de outrora e das brincadeiras de Nestor me voltam à mente.
No fim, cada infância guarda seus personagens inesquecíveis.
Na minha, um deles era apenas um amigo, Nestor, o menino que sonhava em ser folharal.


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