
Vivemos um momento delicado para a democracia. Lula é um reality show permanente. Lula está em fremente lua de mel consigo mesmo, como dizia Nelson Rodrigues. Mas, em sua viagem narcisista, começam os sintomas do erro. A sensatez do velho sindicalista virou deslumbramento. Um dia, abraça o Collor, no outro está com o Hamas e o Irã.
Freud (não o Freud Godoy, dos aloprados...) tem um trabalho clássico, "O fracasso após o triunfo", no qual mostra que há indivíduos que lutam e vencem, e, depois da vitória, se destroem, porque muitos carregam no inconsciente complexos inibidores do pleno sucesso. Quanto mais medíocre é o dirigente, mais ele despreza a inteligência e a cultura, e se transforma numa ilha cercada de medíocres. Será que foi por isso que Lula escolheu uma senhora sem tempero, uma gaffeuse sem prática, com olhos de vingança, como me disse um taxista? Parece um sintoma.
A grande ironia é que Lula foi reeleito por FH. Sem o Plano Real, o governo Lula seria o pior desastre de nossa História. E, ajudado também pela economia mundial em bonança compradora, ele hoje diz que é
responsável pelos bons índices econômicos que o governo anterior organizou.
E não cai um raio do céu em cima... Afinal, o que fez o governo Lula, além de se aproveitar do que chamava de herança maldita, além do Bolsa Família expandido e dos shows de TV? Os primeiros dois anos foram gastos no assembleísmo vacilante dos Conselhos que ele nunca ouviu, depois a briga com a gangue dos quatro do PT, expulsos. Depois, a aventura da quadrilha de corruptos revolucionários que Roberto Jefferson desbaratou para sua e nossa sorte, livrando-o do Dirceu e de seus comunas mais ativos. Aí, Lula pôde voltar a seu populismo personalista.
Lula continua o símbolo do povo que chegou ao poder, mascote dos desvalidos e símbolo sexual da Academia. Lula descobriu que a economia anda sozinha, que basta imitar o Jânio Quadros, o inventor da política do espetáculo, e propagar aos berros o tal PAC, esse plano virtual dos palanques. Lula tem a aura sagrada, cristã do mito de operário ignorante e, por isso, intocável. Poucos têm coragem de desmentir esse dogma, como a virgindade de Nossa Senhora...
Por isso, vivemos um importante momento histórico, que pode marcar o Brasil por muitos anos. Agora, com as eleições, vai explodir a guerra com o sindicalismo enquistado no Estado: 200 mil contratados com a voracidade militante de uma porcada magra que não quer largar o batatal. Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos, alianças com a direita mais maléfica, tudo para manter o terrível patrimonialismo de Estado. Não esqueçamos que o PT combateu o Plano Real até no STF, como fez com a Lei de Responsabilidade Fiscal, assim como não assinou a Constituição de 88. Este é o PT que quer ficar na era pós-Lula. Seu lema parece ser: em vez de burgueses reacionários mamando na viúva, nós, do povo, nela mamaremos.
|
|
Os companheiros trabalham sincronizados como
um formigueiro. O sujeito pode até bater na
mãe, que continua companheiro. Só deixa de
sê-lo se criticar o partido, como o Paulo
Venceslau, que ousou denunciar roubos nas
prefeituras, que depois se confirmaram na
tragédia de Celso Daniel.
FH resumiu bem: se continuar o lulismo com
sua tarefeira Dilma, sobrará um subperonismo
contagiando os dóceis fragmentos
partidários, uma burocracia sindical
aninhada no Estado e, como base do bloco de
poder, a força dos fundos de pensão. Ou
seja, o velho Brasil volta a seu pior
formato tradicional, renascendo como rabo de
lagarto. O país
tem um movimento regressista natural, uma
vocação populista automática. Será o início
da grande marcha a ré...
Com a eventual vitória do programa do PT,
teremos a reestatização da economia, o
inchamento maior ainda da máquina pública, a
destruição das Agências Reguladoras, da Lei
de Responsabilidade Fiscal, em busca de um
getulismo tardio, uma visão do Estado como
centro de tudo, com desprezo pelas reformas,
horror pela administração e amor aos
mecanismos de controle da sociedade, essa
massa atrasada inferior aos revolucionários.
A esquerda psicótica continua fixada na
idéia de unidade, de centro, de Estado-pai,
de apagamento de diferenças, ignorando a
intrincada sociedade com bilhões de desejos
e contradições.
A tarefa principal da campanha de Serra será
explicar qual é o pensamento tucano. Como
ensinar a população ignorante que só um
choque democrático e empresarial pode
enxugar a máquina podre das oligarquias
enquistadas no Estado? Como explicar um
programa de mudanças possíveis na
infra-estrutura e na educação, contraposto a
este marketing salvacionista de Lula? Este é
o desafio da campanha do PSDB.
Aécio Neves fez bem em se indignar com a
demagogia de Dilma. No túmulo de Tancredo,
ele nos lembrou que o PT não apenas não
apoiou Tancredo
em 85, como expulsou seus três deputados que
votaram nas eleições pela democracia. A
maior realização deste governo foi a
desmontagem da Razão. Podemos decifrar,
analisar, comprovar crimes ou roubos, mas
nada acontece. Ninguém tem palavras para
exprimir indignação, ou melhor, ninguém tem
mais indignação para exprimir em palavras.
Aécio Neves devia ir além e ser vice, sim.
Seria um gesto histórico que lhe daria
riquíssimos frutos, para além do interesse
pessoal de uma política imediata. Aécio
ganharia uma rara grandeza na Historia do
país. Seu avô aprovaria.
Só uma alternância de poder, fundamental na
democracia, pode desfazer a sinistra
política que topa tudo pelo poder e que
planeja, com descaro, transformar-se numa
espécie do PRI mexicano, que ficou 70 anos
no poder, desde 1929. Durante o poder do PRI,
as eleições eram uma simulação de aparente
democracia, incluindo repressão e violência
contra os eleitores. Em 1990, o escritor
peruano Mario Vargas Llosa chamou o governo
mexicano, sob o PRI, de uma ditadura
perfeita. Será que isso nos espera?
Fonte: Arnaldo Jabor
Fotos: web |